Detetada uma nova super-Terra em torno de estrela anã vermelha

Nos últimos anos, tem havido um estudo exaustivo de estrelas anãs vermelhas para encontrar exoplanetas em órbita. As estrelas têm temperaturas superficiais efetivas entre 2400 e 3700 K (mais de 2000 graus mais frias que o Sol), e massas entre 0,08 e 0,45 massas solares. Neste contexto, uma equipa de investigadores liderada por Borja Toledo Padrón, estudante de doutoramento do IAC (Instituto de Astrofísica das Canárias), especializado na procura por planetas em torno deste tipo de estrelas, descobriu uma super-Terra orbitando a estrela GJ 740, uma anã vermelha situada a cerca de 36 anos-luz da Terra.

O planeta orbita a sua estrela com um período de 2,4 dias e a sua massa é cerca de 3 vezes a da Terra. Dado que a estrela está tão perto do Sol, e o planeta tão perto da sua estrela, esta nova super-Terra pode ser objeto de investigações futuras com telescópios de diâmetro muito grande no final desta década. Os resultados do estudo foram publicados na revista Astronomy & Astrophysics.

Impressão artística da super-Terra em redor da anã vermelha GJ 740.
Crédito: Gabriel Pérez Díaz, SMM (IAC)

“Este é o planeta com o segundo período orbital mais curto em torno deste tipo de estrela. A massa e o período sugerem um planeta rochoso, com um raio de aproximadamente 1,4 raios terrestres, que poderá ser confirmado em observações futuras com o satélite TESS”, explica Borja Toledo Padrón, primeiro autor do artigo. Os dados também indicam a presença de um segundo planeta com um período orbital de nove anos, e uma massa comparável à de Saturno (perto de 100 massas terrestres), embora o seu sinal de velocidade radial possa ser devido ao ciclo magnético da estrela (semelhante ao do Sol), de modo que são necessários mais dados para confirmar que o sinal é devido à presença de um planeta.

A missão Kepler, reconhecida como uma das mais bem-sucedidas na deteção de exoplanetas pelo método de trânsito (que é a busca por pequenas variações no brilho de uma estrela provocadas pela passagem de um planeta entre esta e o nosso ponto de vista), descobriu um total de 156 novos planetas em torno de estrelas frias. A partir dos seus dados, estimou-se que este tipo de estrelas abriga uma média de 2,5 planetas com períodos orbitais de menos de 200 dias. “A busca por novos exoplanetas em torno de estrelas frias é impulsionada pela menor diferença entre a massa do planeta e a massa da estrela em comparação com estrelas em classes espectrais mais quentes (o que facilita a deteção dos sinais dos planetas), bem como o grande número deste tipo de estrelas na nossa Galáxia,” comenta Borja Toledo Padrón.

As estrelas frias também são um alvo ideal para a busca de planetas pelo método de velocidade radial. Este método baseia-se na deteção de pequenas variações na velocidade de uma estrela devido à atração gravitacional de um planeta em órbita, usando observações espectroscópicas. Desde a descoberta em 1998 do primeiro sinal de velocidade radial de um exoplaneta em torno de uma estrela fria, até agora, foram descobertos um total de 116 exoplanetas em torno desta classe de estrelas usando o método da velocidade radial. “A principal dificuldade deste método está relacionada com a intensa atividade magnética deste tipo de estrela, que pode produzir sinais espectroscópicos muito semelhantes aos de um exoplaneta,” diz Jonay I. González Hernández, investigador do IAC e coautor do artigo.

O estudo faz parte do projeto HADES (HArps-n red Dwarf Exoplanet Survey), no qual o IAC está a colaborar com o IEEC-CSIS (Institut de Ciències de l’Espai) da Catalunha, e o programa italiano GAPS (Global Architecture of Planetary Systems), cujo objetivo é a deteção e caracterização de exoplanetas em torno de estrelas frias, nos quais estão a ser usados o HARPS-N, no TNG (Telescopio Nazionale Galileo) do Observatório Roque de los Muchachos (Garafía, La Palma). Esta deteção foi possível graças a uma campanha de seis anos com o HARPS-N, complementada com medições com o espectrógrafo CARMENES acoplado ao telescópio de 3,5 metros do Observatório Calar Alto (Almería) e o HARPS, no telescópio de 3,6 metros do Observatório de La Silla (Chile), bem como com apoio fotométrico dos levantamentos ASAP e EXORAP. Também participam deste trabalho os investigadores do IAC Alejandro Suárez Mascareño e Rafael Rebolo.

// Instituto de Astrofísica das Canárias (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico (arXiv.org)

Saiba mais:

Notícias relacionadas:
ScienceDaily
PHYSORG

GJ 740 b:
NASA
Exoplanet.eu

Anãs vermelhas:
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Telescópio Nacional Galileu:
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Wikipedia

Observatório Calar Alto:
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Wikipedia

Observatório La Silla:
ESO
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Telescópio Espacial Kepler:
NASA (página oficial)
K2 (NASA)
Arquivo de dados do Kepler
Arquivo de dados da missão K2
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

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