Astrónomos descobrem a galáxia quimicamente mais primitiva do Universo jovem

Revelando a natureza da galáxia ultrafraca LAP1-B através de uma gigantesca “lente gravitacional”. Uma imagem a três cores criada a partir de dados obtidos com o instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do Telescópio Espacial James Webb (JWST). Como as estrelas desta galáxia são extremamente fracas e poucas em número, a galáxia é invisível na imagem de fundo captada pelo NIRCam, mas outro instrumento, o NIRSpec (Near-Infrared Spectrograph), conseguiu detetar assinaturas químicas. Uma visualização (não uma imagem real) dos dados de velocidade e distribuição do NIRSpec é apresentada na inserção para o oxigénio (verde) e dois estados de excitação diferentes do hidrogénio (azul e vermelho).
Crédito: NASA, ESA, CSA e K. Nakajima et al., Nature

Uma equipa internacional de astrónomos utilizou o Telescópio Espacial James Webb (JWST) e um fenómeno natural conhecido como lente gravitacional para obter uma caracterização definitiva de LAP1-B, uma galáxia ultrafraca com 13 mil milhões de anos. Aprofundando as deteções iniciais, este novo estudo revelou uma abundância extremamente baixa de oxigénio – apenas 1/240 da do Sol, um recorde. Este estado quimicamente primitivo, aliado a uma elevada proporção carbono-oxigénio e a um halo dominante de matéria escura, sugere que LAP1-B é a tão procurada “antecessora” das misteriosas galáxias fósseis encontradas hoje perto da nossa Via Láctea.

Logo após o Big Bang, o Universo continha apenas elementos leves, como hidrogénio e hélio. Os elementos mais pesados, como o oxigénio e o carbono, foram forjados muito mais tarde no interior das primeiras estrelas. Durante décadas, os astrónomos tentaram encontrar o momento em que estas “estrelas de primeira geração” começaram a espalhar elementos mais pesados pelo cosmos. No entanto, as galáxias mais antigas que albergam essas estrelas jovens e primordiais são tão pequenas e ténues que observar a sua composição química era praticamente impossível – até agora.

Uma equipa de investigação liderada por Kimihiko Nakajima, da Universidade de Kanazawa, e que inclui Masami Ouchi, do NAOJ (National Astronomical Observatory of Japan) e da Universidade de Tóquio, centrou-se numa minúscula galáxia ultrafraca denominada LAP1-B. A sua luz foi ampliada 100 vezes por um fenómeno chamado “lente gravitacional”, em que a gravidade de um enorme enxame de galáxias atua como uma gigante e natural lente de telescópio no espaço. Ao observar esta manchinha durante mais de 30 horas com o JWST, a equipa determinou que a abundância de oxigénio da galáxia é aproximadamente 1/240 da do Sol. “Fiquei imediatamente entusiasmado com a extrema falta de oxigénio”, diz Nakajima. “Encontrar uma galáxia num estado tão primitivo é surpreendente. É uma assinatura química que indica claramente uma galáxia primordial captada nos momentos logo após a sua formação”.

Para além da sua natureza primitiva, a galáxia apresenta um elevado rácio de abundância carbono-oxigénio. Esta relação única de elementos está em estreita conformidade com as previsões teóricas do material disperso pelas explosões das primeiras estrelas do Universo.

A equipa também descobriu que LAP1-B é incrivelmente leve – menos de 3300 vezes a massa do Sol -, o que sugere que a maior parte da galáxia consiste de matéria escura invisível. Esta característica, juntamente com a sua composição química única, torna-a uma correspondência quase perfeita para as “galáxias anãs ultrafracas” encontradas hoje perto da nossa Via Láctea, que são extremamente ténues, pequenas e contêm muito poucas estrelas.

“As galáxias anãs ultrafracas não são apenas as galáxias mais ténues; são compostas por estrelas antigas com mais de 12 mil milhões de anos e são frequentemente descritas como ‘fósseis do Universo'”, explica Ouchi. “Os astrónomos suspeitavam que pudessem ser os vestígios das primeiras galáxias do Universo devido à ausência de elementos pesados, mas nunca tiveram uma ligação direta – até encontrarmos LAP1-B”.

Ouchi continua: “É uma grande surpresa descobrir que LAP1-B se parece exatamente com a ‘antecessora’ que apenas tínhamos imaginado nas teorias. Isto ajuda-nos a resolver o mistério de por que razão estes fósseis cósmicos sobreviveram na sua forma atual até aos dias de hoje”.

Esta descoberta estabelece uma nova forma de mapear o nascimento dos elementos e a formação das estruturas mais antigas do Universo. No futuro, a equipa planeia utilizar o Webb para procurar objetos ainda mais primitivos, com o objetivo de encontrar as primeiras galáxias alguma vez formadas.

// NAOJ (comunicado de imprensa)
// Universidade de Kanazawa (comunicado de imprensa)
// ICRR, Universidade de Tóquio (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)
// Artigo científico (arXiv)

Saiba mais:

Galáxia anã:
Wikipedia
Galáxias anãs ultrafracas (Wikipedia)

Lentes gravitacionais:
Wikipedia

Matéria escura:
Wikipedia

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
ESA
ESA/Webb
Wikipedia
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Blog do JWST (NASA)
NIRISS (NASA)
NIRCam (NASA)
MIRI (NASA)
NIRSpec (NASA)

Sobre Miguel Montes

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