Estudo mostra a dificuldade em encontrar evidências de vida em Marte

Daqui a pouco mais de uma década, amostras de solo marciano escavado por um rover serão enviadas para a Terra.

Enquanto os cientistas estão ansiosos por estudar os solos do Planeta Vermelho em busca de sinais de vida, os investigadores devem refletir sobre um novo desafio considerável: os fluídos ácidos – que antes corriam à superfície marciana – podem ter destruído evidências biológicas escondidas nas argilas ricas em ferro de Marte, de acordo com investigadores de Cornell e do Centro de Astrobiologia de Espanha.

O rover Perseverance da NASA, visto aqui nesta impressão de artista, vai aterrar da Cratera Jezero de Marte em fevereiro de 2021 e começar a recolher amostras de solo pouco depois. Os cientistas estão agora preocupados que os fluidos ácidos, que já existiram em Marte, podem ter destruído evidências de vida contida em argilas.
Crédito: NASA/JPL-Caltech

Os cientistas realizaram simulações envolvendo argilas e aminoácidos para tirar conclusões sobre a provável degradação do material biológico em Marte. O seu artigo foi publicado no passado dia 15 de setembro na revista Nature Scientific Reports.

Alberto G. Fairén, cientista visitante do Departamento de Astronomia da Faculdade de Artes e Ciências, é um autor correspondente.

O rover Perseverance da NASA, lançado a 30 de julho, vai pousar na Cratera Jezero de Marte no próximo mês de fevereiro; o rover Rosalind Franklin da ESA será lançado no final de 2022. A missão Perseverance irá recolher amostras de solo marciano e enviá-las para a Terra até à década de 2030. O rover Rosalind Franklin vai perfurar a superfície de Marte, recolher amostras de solo e analisá-las “in situ”.

Na busca por vida em Marte, os solos da superfície argilosa do Planeta Vermelho são um alvo preferido para recolha, uma vez que a argila protege o material orgânico molecular no seu interior. No entanto, a presença anterior de ácido à superfície pode ter comprometido a capacidade da argila em proteger as evidências de vida passada.

O rover Rosalind Franklin da ESA, com lançamento previsto para o final de 2022. A sonda ExoMars TGO (Trace Gas Orbiter), em Marte desde outubro de 2016, vai agir como relé de comunicações para a missão.
Crédito: ESA/ATG medialab

“Sabemos que os fluidos ácidos correram à superfície de Marte no passado, alterando as argilas e a sua capacidade de proteger material orgânico,” disse Fairén.

Ele disse que a estrutura interna da argila é organizada em camadas, onde as evidências de vida biológica – como lípidos, ácidos nucleicos, péptidos e outros biopolímeros – podem ficar presas e bem preservadas.

No laboratório, os investigadores simularam as condições da superfície marciana com o objetivo de preservar um aminoácido chamado glicina na argila, que havia sido previamente exposto a fluidos ácidos. “Usámos a glicina porque pode degradar-se rapidamente sob as condições ambientais do planeta,” disse. “É um perfeito informante para nos dizer o que estava a acontecer nas nossas experiências.”

Após uma longa exposição a radiação ultravioleta semelhante à de Marte, as experiências mostraram fotodegradação das moléculas de glicina embutidas na argila. A exposição a fluidos ácidos apaga o espaço entre as camadas, tornando-a numa sílica semelhante a gel.

“Quando as argilas são expostas a fluidos ácidos, as camadas colapsam e a matéria orgânica não pode ser preservada. São destruídas,” disse Fairén. “Os nossos resultados neste artigo explicam porque investigar compostos orgânicos em Marte é tão difícil.”

A autora principal do artigo é Carolina Gil-Lozano do Centro de Astrobiologia de Madrid e da Universidade de Vigo, Espanha.

// Universidade de Cornell (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Scientific Reports)

Saiba mais:

Rover Perseverance:
NASA
NASA – 2
Facebook
Twitter
Wikipedia

Rover Rosalind Franklin (ExoMars 2020):
ESA
Wikipedia

Marte:
Wikipedia

Cratera Jezero:
Wikipedia

Sobre Miguel Montes

Veja também

Missão TESS revela os planetas mais “inchados” já descobertos

A missão TESS da NASA descobriu os dois exoplanetas mais “fofos” alguma vez observados: TOI-791 b e TOI-791 c. Apesar de terem dimensões semelhantes às de Júpiter, são tão pouco densos que são mais leves do que algodão doce. Este raro par de "superinchados" poderá ajudar os astrónomos a compreender como os gigantes gasosos se formam e evoluem.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *