Análise de meteorito marciano revela evidências de água há 4,4 mil milhões de anos

Um meteorito que teve origem em Marte há milhares de milhões de anos revela detalhes de antigos eventos de impacto no Planeta Vermelho. Certos minerais da crosta marciana no meteorito são oxidados, sugerindo a presença de água durante o impacto que criou o meteorito. A descoberta ajuda a preencher algumas lacunas no conhecimento sobre o papel da água na formação do planeta.

Na ciência planetária, há muito que se discute a origem da água na Terra, em Marte e noutros corpos grandes como a Lua. Uma hipótese diz que veio de asteroides e cometas, pós-formação. Mas alguns investigadores planetários dizem que a água pode ser apenas uma das muitas substâncias que ocorrem naturalmente durante a formação dos planetas. Uma nova análise de um antigo meteorito marciano acrescenta suporte a esta segunda hipótese.

Imagem de Marte, a cores reais, usando exposições obtidas no dia 24 de fevereiro de 2007 durante a passagem da sonda Rosetta pelo planeta. A Rosetta estava a 240.000 km.
Crédito: ESA/MPS para a Equipa OSIRIS, MPS/UPD/LAM/IAA/RSSD/INTA/UPM/DASP/IDA

Há alguns anos atrás, um par de meteoritos escuros foi descoberto no Deserto do Saara. Foram apelidados de NWA 7034 e NWA 7533, onde NWA significa “North West Africa” e o número é a ordem em que os meteoritos são oficialmente aprovados pela Sociedade Meteorítica, uma organização internacional de ciência planetária. As análises mostraram que estes meteoritos são novos tipos de meteoritos marcianos e misturas de diferentes fragmentos rochosos.

Os fragmentos formaram-se em Marte há 4,4 mil milhões de anos, tornando-os os meteoritos marcianos mais antigos conhecidos. Rochas como estas são raras e podem custar até 10.000 dólares por grama. Mas, recentemente, 50 gramas do meteorito NWA 7533 foram obtidas para análise por uma equipa internacional da qual o professor Takashi Mikouchi da Universidade de Tóquio participava. O projeto foi liderado pelo então estudante Zhengbin Deng da Universidade de Paris e atualmente professor assistente da Universidade de Copenhaga. Esta investigação foi uma colaboração da Universidade de Paris, da Universidade Lorraine, da Universidade de Copenhaga, da Universidade da Bretanha Ocidental e da Universidade de Tóquio.

“Eu estudo minerais em meteoritos marcianos para entender como Marte se formou e como a sua crosta e manto evoluíram. Esta é a primeira vez que investiguei este meteorito em particular, apelidado ‘Black Beauty’ devido à sua cor escura,” disse Mikouchi. “As nossas amostras de NWA 7533 foram submetidas a quatro tipos diferentes de análises espectroscópicas, formas de detetar impressões digitais químicas. Os resultados levaram a nossa equipa a tirar algumas conclusões excitantes.”

“Black Beauty”. O meteorito marciano NWA 7533 vale mais do que o seu peso em ouro.
Crédito: Universidade de Copenhaga/Deng et al.

É bem conhecido dos cientistas planetários que existe água em Marte há pelo menos 3,7 mil milhões de anos. Mas, a partir da sua composição mineral do meteorito, Mikouchi e a sua equipa deduziram que provavelmente a água já estava presente muito antes, há mais ou menos 4,4 mil milhões de anos.

“Os clastos ígneos, ou rocha fragmentada, no meteorito são formados por magma e são regularmente provocados por impactos e oxidação,” disse Mikouchi. “Esta oxidação pode ter ocorrido na presença de água acima ou na crosta marciana, há 4,4 mil milhões de anos, durante um impacto que derreteu parte da crosta. A nossa análise também sugere que um tal impacto teria libertado muito hidrogénio, o que teria contribuído para o aquecimento planetário numa época em que Marte já tinha uma isolante e espessa atmosfera de dióxido de carbono.”

Se a água realmente já estava presente em Marte antes do que se pensava, isso sugere que a água é possivelmente um subproduto natural de algum processo no início da formação planetária. Esta descoberta pode ajudar os investigadores a responder à questão de onde vem a água, o que por sua vez pode impactar as teorias sobre as origens da vida e a exploração da vida para lá da Terra.

// Universidade de Tóquio (comunicado de imprensa)
// Universidade de Paris (comunicado de imprensa)
// Universidade de Copenhaga (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Science Advances)

Saiba mais:

NWA 7034:
Instituto Lunar e Planetário
Wikipedia
Meteorite Studies

NWA 7533:
Instituto Lunar e Planetário
Meteorite Studies

Marte:
Wikipedia
Meteoritos marcianos (Wikipedia)
Geologia de Marte (Wikipedia)

Sobre Miguel Montes

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