Uma equipa internacional de astrónomos detetou não apenas nuvens no distante exoplaneta WASP-127b, como também mediu a sua altitude com uma precisão sem precedentes. Uma apresentação do Dr. Romain Allart no EPSC (Europlanet Science Congress) 2021 mostra como, combinando dados de um telescópio espacial e de um telescópio terrestre, a equipa foi capaz de revelar a estrutura superior da atmosfera do planeta. Isto abre caminho para estudos semelhantes de muitos outros mundos distantes.
WASP-127b, localizado a mais de 525 anos-luz de distância, é um “Saturno quente” – um planeta gigante semelhante em massa a Saturno, que orbita muito perto da sua estrela. A equipa observou o planeta a passar em frente da sua estrela-mãe a fim de detetar padrões que se tornam embebidos na luz estelar à medida que esta é filtrada pela atmosfera planetária e alterada pelos constituintes químicos. Ao combinar observações infravermelhas do Telescópio Espacial Hubble da ESA/NASA e medições no visível com o espectrógrafo ESPRESSO no VLT (Very Large Telescope) do ESO no Chile, os investigadores foram capazes de sondar diferentes regiões da atmosfera. Os resultados trouxeram algumas surpresas.

Crédito: David Ehrenreich/Universidade de Genebra, Romain Allart/Universidade de Montréal
“Em primeiro lugar, como já tinha sido encontrado neste tipo de planeta, detetámos a presença de sódio, mas a uma altitude muito mais baixa do que esperávamos. Em segundo lugar, havia fortes sinais de vapor de água no infravermelho, mas nenhum em comprimentos de onda visíveis. Isto implica que o vapor de água em níveis mais baixos está a ser filtrado por nuvens que são opacas a comprimentos de onda visíveis, mas transparentes no infravermelho,” disse Allart, do iREx/Universidade de Montréal e da Universidade de Genebra, que liderou o estudo.
Os dados combinados dos dois instrumentos permitiram aos cientistas reduzir a altitude das nuvens a uma camada atmosférica com pressão que varia entre 0,3 e 0,5 milibares.
“Ainda não sabemos a composição das nuvens, exceto que não são compostas por gotículas de água como na Terra,” disse Allart. “Também estamos interessados em saber porque é que o sódio pode ser encontrado num lugar inesperado neste planeta. Estudos futuros vão ajudar-nos a entender não apenas mais sobre a estrutura atmosférica, mas também sobre WASP-127b, que se está a revelar um lugar fascinante.”
WASP-127b demora cerca de quatro dias a completar uma órbita em torno da sua estrela, recebe 600 vezes mais radiação do que a Terra recebe do Sol e tem temperaturas que rondam os 1100º C. Isto “incha” o planeta até um raio 1,3 vezes o de Júpiter, com apenas um-quinto da sua massa, tornando-o um dos exoplanetas menos densos ou “mais fofos” já descobertos.
A natureza estendida dos exoplanetas fofos torna-os mais fáceis de observar e, portanto, WASP-127b é um candidato ideal para investigadores que trabalham na caracterização atmosférica.
As observações da equipa com o instrumento ESPRESSO também sugerem que, ao contrário dos planetas no nosso Sistema Solar, WASP-127b orbita não apenas na direção oposta da sua estrela, mas também num plano diferente do equatorial.
“Este alinhamento é inesperado para um Saturno quente num sistema estelar antigo e pode ser provocado por uma companheira desconhecida,” explicou Allart. “Todas estas características únicas tornam WASP-127b um planeta que será estudado intensamente no futuro.”
// Europlanet Society (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico (arXiv.org)
Saiba mais:
WASP-127b:
NASA
Exoplanet.eu
Open Exoplanet Catalogue
Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares
Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA
ESA
Hubblesite
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais
CCVAlg – Astronomia Centro Ciência Viva do Algarve – Astronomia