Impressão de artista dos rovers gémeos, Spirit e Opportunity, da missão MER (Mars Exploration Rovers)

Retrospectiva Astronómica de 2004

2004 foi um grande ano para a Astronomia. Desde o envio ou chegada de sondas aos seus destinos, passando por descobertas de novos corpos celestes, tanto no sistema solar como “lá fora”, ficam aqui alguns dos momentos e notícias mais importantes deste ano que agora chega ao fim:

O vizinho Marte foi o que recebeu mais primeiras páginas. Depois de lá terem aterrado em lados opostos do planeta, em Janeiro, os rovers da NASA Spirit e Opportunity descobriram provas de que água alterou profundamente a superfície do planeta no passado (classificada como a mais importante descoberta científica de 2004). Eram supostos operar apenas três meses, mas quase um ano depois – e por razões que continuam desconhecidas, ainda percorrem o Planeta Vermelho. E imagens de cortar a respiração registadas pela sonda europeia Mars Express que chegou em Dezembro de 2003, apoiaram o caso de um passado “molhado”.

Água pode ter oferecido uma base para a vida florescer no passado de Marte. Mas recentes descobertas de metano atmosférico sugerem que a vida pode ainda continuar no Planeta Vermelho, expelindo gases de oásis dispersos.

Outro vizinho, Vénus, também foi o centro das atenções este ano, quando no dia 8 de Junho passou em frente do Sol pela primeira vez desde 1882. “Trânsitos” anteriores levaram à descoberta da atmosfera do planeta, mas este ano os observadores seguiram o evento histórico para aprender mais sobre como interpretar as observações dos planetas extrasolares.

Saturno também esteve na ribalta devido à sonda conjunta da NASA-ESA, a Cassini, ter alcançado a órbita em Julho, depois de uma viagem de 7 anos. Revelou que o planeta provavelmente capturou a sua maior lua exterior, Febe, a partir da Cintura de Kuiper, um local de corpos gelados para lá de Neptuno. Também descobriu um novo e delicado anel, misteriosas pontas aguçadas como facas nos famosos anéis de Saturno e duas novas luas.

Em Outubro, a sonda enviou as primeiras imagens com alto detalhe do sempre escondido Titã, sugerindo que a lua não está, como anteriormente se pensava, coberta por oceanos de metano líquido. A sonda Huygens, libertada no dia de Natal a partir da Cassini, irá investigar com mais profundidade assim que entrar de pára-quedas na atmosfera da lua em Janeiro de 2005.

Em Março, os astrónomos anunciaram a descoberta de um corpo quase tão grande como Plutão. Chamado Sedna, pode ser o primeiro objecto avistado da remota Nuvem de Oort, uma concha esférica de cometas que se pensa rodear o sistema solar. Sedna pode ter sido empurrado para a sua elongada órbita por uma estrela que passou perto do Sistema Solar há mais de 4 mil milhões de anos atrás e poderá também possuir uma lua escura, ainda por descobrir.

Novos corpos foram também observados à volta de outras estrelas. Pequenas e rochosas “super Terras” – ao contrário dos gigantes com o tamanho de Júpiter regularmente encontrados – foram detectadas por várias equipas internacionais (uma das quais liderada por um português). E dois planetas descobriram-se a rodar em torno da sua estrela a cada menos de dois dias – um novo recorde. Em Abril, um planeta foi detectado através de uma nova e controversa técnica de microlentes – em que a estrela e planeta são invisíveis.

O ano também proporcionou alguns avanços tecnológicos brilhantes. A SpaceShipOne tornou-se no primeiro veículo comercial a voar até à orla do espaço e voltar, ganhando o Ansari X-Prize de 10 milhões de dólares em Outubro. A sonda europeia SMART-1 usou um novo sistema de propulsão iónico 10 vezes mais eficiente que um foguetão para entrar em órbita da Lua a 15 de Novembro. E no dia seguinte, a NASA quebrou o recorde de velocidade no ar com um avião que viajou a quase 10 vezes a velocidade do som.

A NASA sofreu um particularmente flagrante falhanço com a sua cápsula espacial Genesis, que colidiu com o deserto do Utah a 8 de Setembro. Uma investigação chegou à conclusão que o embate foi devido em parte aos sensores terem sido desenhados ao contrário. Mas os cientistas acreditam que podem ainda estudar as partículas carregadas do Sol – que reflectem a composição do sistema solar há quatro mil milhões de anos atrás – a partir dos detectores partidos da cápsula.

O vaivém espacial esteve no centro de um debate em relação ao Telescópio Espacial Hubble. Em Janeiro, o ex-administrador da NASA Sean O’Keefe cancelou uma missão com o vaivém que tinha o objectivo de reparar o famoso telescópio, mais tarde concordando com uma missão robótica. Apoiou esta decisão até depois de se demitir em Dezembro e contra um número de estudos independentes que se opõem ao plano.

Mas o Hubble foi também um dos focos de boas notícias em 2004. Produziu a melhor imagem de sempre tirada dos primórdios do Universo com o seu “Ultra Deep Field”, que foi anunciada em Março. Em Setembro, os cientistas debateram se as galáxias na imagem poderiam ser a razão do espaço ser transparente à luz cerca de mil milhões de anos depois do Big Bang.

Em 2004, várias missões espaciais foram lançadas, incluindo uma missão a Mercúrio e uma com o objectivo de estudar as explosões mais poderosas do Universo. Isto sugere que 2005 será outro espectacular ano para o campo.

Sobre Miguel Montes

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