Será o oxigénio a chave cósmica para a tecnologia extraterrestre?

Cunhado pelos astrofísicos Adam Frank e Amedeo Balbi, o “gargalo do oxigénio” descreve o limiar crítico que separa os mundos capazes de desenvolver civilizações tecnológicas daqueles que não o são. “Sem uma fonte rápida de fogo, nunca se conseguirá desenvolver tecnologia superior”, diz Frank.
Crédito: Universidade de Rochester/Michael Osadciw

Na tentativa de compreender o potencial da vida para lá da Terra, os investigadores estão a alargar a sua busca para abranger não só marcadores biológicos, mas também tecnológicos. Embora os astrobiólogos reconheçam há muito a importância do oxigénio para a vida tal como a conhecemos, o oxigénio pode também ser uma chave para desvendar tecnologia avançada à escala planetária.

Num novo estudo publicado na revista Nature Astronomy, Adam Frank, professor de física e astronomia na Universidade de Rochester e Amedeo Balbi, professor associado de astronomia e astrofísica na Universidade de Roma Tor Vergata, em Itália, descrevem as ligações entre o oxigénio atmosférico e o potencial desenvolvimento de tecnologia avançada em planetas distantes.

“Estamos prontos para encontrar sinais de vida em mundos extraterrestres”, diz Frank. “Mas como é que as condições nos informam acerca das possibilidades de vida inteligente e tecnológica?

“No nosso artigo científico, exploramos se qualquer composição atmosférica seria compatível com a presença de tecnologia avançada”, diz Balbi. “Descobrimos que os requisitos atmosféricos podem ser bastante rigorosos”.

“Acendendo” as tecnosferas cósmicas

Frank e Balbi afirmam que, para além da sua necessidade para a respiração e para o metabolismo nos organismos multicelulares, o oxigénio é crucial para o desenvolvimento do fogo – e o fogo é uma marca distintiva de uma civilização tecnológica. Aprofundam o conceito de “tecnosferas”, reinos expansivos de tecnologia avançada que emitem sinais reveladores – de nome “tecnoassinaturas” – de inteligência extraterrestre.

Na Terra, o desenvolvimento da tecnologia exigiu um acesso fácil à combustão ao ar livre – o processo que está no centro do fogo, no qual algo é queimado através da combinação de um combustível e um oxidante, normalmente o oxigénio. Quer se trate de cozinhar, de forjar metais para estruturas, de fabricar materiais para casas ou de aproveitar a energia através da queima de combustíveis, a combustão tem sido a força motriz das sociedades industriais.

Ao longo da história da Terra, os investigadores descobriram que a utilização controlada do fogo e os subsequentes avanços metalúrgicos só eram possíveis quando os níveis de oxigénio na atmosfera atingiam ou ultrapassavam os 18%. Isto significa que apenas os planetas com concentrações significativas de oxigénio serão capazes de desenvolver tecnosferas avançadas e, por conseguinte, produzir tecnoassinaturas detetáveis.

O “gargalo” do oxigénio

Os níveis de oxigénio necessários para sustentar biologicamente a vida complexa e a inteligência não são tão elevados como os níveis necessários para a tecnologia, por isso, dizem os investigadores, embora uma espécie possa emergir num mundo sem oxigénio, não será capaz de se tornar uma espécie tecnológica.

“É possível que se consiga obter biologia – ou mesmo criaturas inteligentes – num mundo sem oxigénio”, diz Frank, “mas sem uma fonte rápida de fogo, nunca se conseguirá desenvolver tecnologia avançada, porque a tecnologia avançada requer combustível e fusão”.

O “gargalo do oxigénio” é um termo cunhado pelos investigadores para descrever o limiar crítico que separa os mundos capazes de criar civilizações tecnológicas daqueles que não são. Ou seja, os níveis de oxigénio são um estrangulamento que impede o aparecimento de tecnologia avançada.

“A presença de níveis elevados de oxigénio na atmosfera é como um problema que tem de ser ultrapassado para se ter uma espécie tecnológica”, diz Frank. “Podemos ter tudo o resto a funcionar, mas se não tivermos oxigénio na atmosfera, não vamos ter uma espécie tecnológica”.

Visando alvos extraterrestres

A investigação, que aborda uma faceta até agora inexplorada na busca cósmica por vida inteligente, sublinha a necessidade de dar prioridade a planetas com elevados níveis de oxigénio nesta procura por tecnoassinaturas extraterrestres.

“Alvos exoplanetários com elevados níveis de oxigénio devem ser prioritários porque a presença ou a ausência de elevados níveis de oxigénio nas atmosferas pode ser uma pista importante para a descoberta de potenciais tecnoassinaturas”, diz Frank.

“As implicações da descoberta de vida inteligente e tecnológica noutro planeta seriam enormes”, acrescenta Balbi. “Por isso, temos de ser extremamente cautelosos na interpretação de possíveis deteções. O nosso estudo sugere que devemos ser céticos em relação a potenciais tecnoassinaturas num planeta com oxigénio atmosférico insuficiente.”

// Universidade de Rochester (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv.org)

Saiba mais:

Tecnoassinatura:
Wikipedia

Tecnosfera:
Antroposfera da Terra (Wikipedia)

Sobre Miguel Montes

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