Diabos marcianos

O verão marciano chegou. Finalmente os dias são longos, tal como na velha Terra. E as temperaturas máximas atingem agora uns prazenteiros 20º C, embora à noite as temperaturas mínimas atinjam os -90º C.

Mas estas temperaturas também fazem acordar os diabos marcianos. Diabos de pó (torvelinhos, dust devils), isto é.

Quando vemos as imagens imaginamos tratar-se de um daqueles torvelinhos de pó que por vezes se vêem no campo, em especial em zonas de muito pó, como descampados ou desertos, com alguns metros de altura e diâmetro e que dura alguns segundos, desfazendo-se rapidamente.

No entanto, não se trata de nada disso. Na realidade, trata-se de colunas monstruosas com quilómetros de altura, 10 vezes mais largas que qualquer tornado na Terra. A areia girando a 30 metros por segundo (cerca de 100 km/h) baixa a visibilidade a zero nas suas próximidades e poderia riscar qualquer capacete de fato espacial e introduzir-se em todos os poros do mesmo. Se um astronauta fosse apanhado por um o tempo que ele demoraria a passar sobre ele seria de cerca de 15 minutos. A parte mais temível seria que durante esses 15 minutos sofreria continuamente de descargas eléctricas e a elevada estática impediria o pedido de auxílio pelo rádio.

Este cenário poderá ocorrer a um dos astronautas que venham a visitar Marte numa das próximas décadas.

“A areia na parte mais baixa de um torvelinho marciano seria a que provocaria mais danos” diz Mark T. Lemmon, investigador no Departmento de Ciências Atmosféricas da Universidade A & M do Texas. “A pressão atmosférica em Marte é apenas 1% da que ocorre na Terra ao nível do mar, pelo que não se sentiria muito vento. No entanto, estar-se-ía a ser atingido por material a alta-velocidade.”

“Para além disso, a areia e poeira em movimento tendem a ficar electricamente carregadas, a ponto de se estabelecer uma diferença de potencial entre a poeira e o fato espacial que origina a ocorrência de descargas eléctricas”, acrescenta William M. Farrell do Goddard Space Flight Center da NASA.

“Os torvelinhos marcianos formam-se da mesma maneira que na Terra. É necessário um forte aquecimento da superfície, de modo a que o solo fique mais quente que o ar sobre ele.” explica Lemmon. “O ar mais quente que se forma junto ao solo sobe empurrando a camada de ar mais frio que está por cima, dando origem a plumas ascendentes de ar quente e plumas descendentes de ar frio que circulam em células de convecção verticais. Se houver algum vento horizontal, isso faz com que as correntes comecem a rodar, o que inicia o torvelinho.”

O ar quente que se eleva pelo centro da coluna alimenta a convecção até ter velocidade suficiente para começar a apanhar poeira. Para tal basta que haja vento horizontal constante o que faz incrementar a velocidade do torvelinho até que este autoalimentado pela convecção começa a deslocar-se.

“Se estivéssemos colocados num ponto próximo do rover Spirit (na Cratera Gusev), a meio do dia veriamos cerca de uma duzia de torvelinhos por dia.” diz Lemon. Cada dia marciano de Primavera ou Verão, os torvelinhos começam a aparecer cerca das 10h da manhã quando o chão começa a aquecer e ocorrem até cerca das 3h da tarde que é quando o solo arrefece(os dias marcianos têm 24h39min sendo 39 minutos mais longos que os da Terra). Embora a duração e frequência exacta dos torvelinhos marcianos seja ainda desconhecida, fotografias da Mars Global Surveyor em órbita revelam rastos por todo o planeta. Para além disso os torvelinhos marcianos foram já fotografados de órbita, havendo alguns que chegam a ter 1 a 2 km de diâmetro na base e 8 a 10 km de altura.

A noção da ocorrência de descargas eléctricas é também muito importante para o desenho dos equipamentos que poderão no futuro vir a ser utilizados em Marte.

Já os navegadores dos descobrimentos como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral ou Fernão de Magalhães, percebiam que as suas naus tinham que estar preparadas para a intempérie. Por analogia, Farrel diz que “para desenhar uma missão a Marte é necessário conhecer os extremos da meteorologia marciana e esses extremos parecem ocorrer na forma de tempestades e torvelinhos de poeira.”

Links:

NASA:
http://science.nasa.gov/headlines/y2005/14jul_dustdevils.htm?list31680

Sobre Miguel Montes

Veja também

Hubble encontra pistas de um planeta de segunda geração

Dados de arquivo do Hubble revelaram indícios de um possível planeta de segunda geração no sistema da anã branca HS 0209+0832. A elevada abundância de nióbio sugere que o planeta se formou a partir de material expelido pela estrela durante a sua morte, em vez de ter nascido com ela, oferecendo pistas sobre uma possível segunda geração de sistemas planetários.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *