A sonda Huygens aterrou na lua do gigante Saturno, Titã, na Sexta-feira passada, cumprindo com sucesso a sua missão. Esta foi de um êxito estrondoso, enviando de volta extraordinárias imagens e sons. Os dados levarão tempo a interpretar correctamente, mas os primeiros sinais indicam que a superfície de Titã é única.
Depois dos detalhados mas âmbiguos mapas produzidos pela sonda da NASA, Cassini, as imagens da Huygens são notavelmente reais. Características escuras e ventosas atravessando uma brilhante região são provavelmente canais de drenagem que cortam as geladas terras-altas. Existem planícies lisas, escuras e extensas que podem ser resultado de “cheias”, de acordo com o líder da equipa de imagem, Marty Tomasko.
A sonda da Agência Espacial Europeia também registou o som da sua descida pela atmosfera de Titã, e produziu também um clip de áudio dos bips de radar da sonda, com a ajuda da Sociedade Planetária.
A nível terrestre, a Huygens capturou imagens de um campo de rochas redondas, que parecem ter sido objecto de erosão por qualquer tipo de fluxo líquido, tal como os calhaus que encontramos em riachos.
Seguidamente deixamos algumas imagens tiradas pela Huygens e respectiva legenda:






Se estas hipóteses tentadoras se vierem a tornar facto, este novo mundo foi largamente alterado por líquidos. Às temperaturas da superfície de Titã, -170ºC, os líquidos etano ou metano podem formar lagos ou riachos. Existem algumas nuvens, mas isso apenas significa que as tempestades são raras e intensas.
No local de aterragem da sonda Huygens, o líquido pode não estar muito distante. Quanto a sonda atingiu a superfície, uma vareta de metal na sua base penetrou 15 centímetros no chão. Durante uma fracção de segundo, a força do impacto atingiu altos níveis rapidamente e depois baixou para um mais ou menos constante, sugerindo que a superfície é dura com material mais mole por baixo – uma consistência que um dos cientistas da missão comparou com “crème brûlée”.
O material genérico no local de aterragem, tal como nas outras áreas escuras de Titã, é provavelmente parecido com alcatrão que se acumulou na superfície, mas os cientistas permanecem na dúvida. Dados espectrais registados pela Huygens podem revelar mais quando foram devidamente analisados e comparados com medições em laboratório.
Os cientistas terão que esperar até se saber mais sobre a complexa química orgânica da atmosfera de Titã, sobre a qual esperam que lhes forneçam mais pistas sobre a origem da vida na Terra. Dois instrumentos estudaram os gases e aerosóis na atmosfera, mas poderá levar meses a analisar os dados.
Até agora, as equipas de análises químicas apenas registaram as medições de um gás: o cromatógrafo de gás e espectómetro de massa da Huygens detectou um “sopro” de metano no impacto, indicando que existe alguma espécie de reservatório de metano líquido ou sólido na superfíce, talvez na forma de geada ou orvalho. A câmara também avistou o que pode ser um banco de nevoeiro, talvez composto de metano.
A imagem que temos de Titã poderá mudar radicalmente nos próximos meses, mas apenas pode ficar mais interessante. “Não é nada como Marte ou Vénus,” disse Ralph Lorenz, estudioso de Titã. “Tem um aroma apenas seu.”
CCVAlg – Astronomia Centro Ciência Viva do Algarve – Astronomia