As rochas de Titã mostram sinais de erosão (indicando possivelmente actividade fluvial), a cor da lua parece cor-de-laranja. A superfície é mais escura do que se pensava, consistindo numa mistura de água e hidrocarbonos gelados. Crédito: ESA/NASA/University of Arizona

Imagens de Titã

A sonda Huygens aterrou na lua do gigante Saturno, Titã, na Sexta-feira passada, cumprindo com sucesso a sua missão. Esta foi de um êxito estrondoso, enviando de volta extraordinárias imagens e sons. Os dados levarão tempo a interpretar correctamente, mas os primeiros sinais indicam que a superfície de Titã é única.

Depois dos detalhados mas âmbiguos mapas produzidos pela sonda da NASA, Cassini, as imagens da Huygens são notavelmente reais. Características escuras e ventosas atravessando uma brilhante região são provavelmente canais de drenagem que cortam as geladas terras-altas. Existem planícies lisas, escuras e extensas que podem ser resultado de “cheias”, de acordo com o líder da equipa de imagem, Marty Tomasko.

A sonda da Agência Espacial Europeia também registou o som da sua descida pela atmosfera de Titã, e produziu também um clip de áudio dos bips de radar da sonda, com a ajuda da Sociedade Planetária.

A nível terrestre, a Huygens capturou imagens de um campo de rochas redondas, que parecem ter sido objecto de erosão por qualquer tipo de fluxo líquido, tal como os calhaus que encontramos em riachos.

Seguidamente deixamos algumas imagens tiradas pela Huygens e respectiva legenda:

Uma das primeiras imagens tiradas pela Huygens, a uma altitude de 16.2 km, com uma resolução de aproximadamente 40 metros por pixel. Mostra aparentemente canais de drenagem escuros, culminando numa linha de costa. Crédito: ESA/NASA/University of Arizona

 

Imagem tirada a uma altitude de 8 km com uma resolução de 20 metros por pixel. Mostra o que poderá ser o local de aterragem, com linhas de costa e limites entre partes altas e baixas. Crédito: ESA/NASA/University of Arizona

 

As rochas de Titã mostram sinais de erosão (indicando possivelmente actividade fluvial), a cor da lua parece cor-de-laranja. A superfície é mais escura do que se pensava, consistindo numa mistura de água e hidrocarbonos gelados. Crédito: ESA/NASA/University of Arizona

 

Nesta imagem é bem visível o limite entre o terreno escuro e o mais alto claro, marcado pelo que parecem ser canais de drenagem. Estas imagens foram tiradas a uma altitude de cerca de 8 km com uma resolução de cerca de 20 metros por pixel. Crédito: ESA/NASA/University of Arizona

 

Nesta imagem temos um visão panorâmica de 360º do local de aterragem da Huygens. No lado esquerdo, por trás da Huygens, temos uma zona delimitadora das áreas clara e negra. Os riscos brancos perto desta fronteira podem ser “nevoeiro” de metano ou vapor de etano, dado que não eram imediatamente visíveis a maiores altitudes. À medida que ia descendo, a sonda desviou-se para um planalto (centro da imagem) enquanto se dirigia para o seu local de aterragem numa área escura (direita). Esta área é possivelmente formada por canais de drenagem que podem conter material líquido. Pelo desvio da sonda, a velocidade do vento foi estimada em cerca de 6-7 metros por segundo. Foram tiradas a uma altura de 8 km com uma resolução de cerca de 20 metros por pixel. Crédito: ESA/NASA/University of Arizona

 

Esta imagem é uma composição de 30 imagens tiradas pela Huygens de uma altitude de 8 até 13 km enquanto descia até ao local de aterragem. As imagens foram tiradas com uma resolução de 20 metros por pixel e cobrem uma área de cerca de 30 quilómetros. Crédito: ESA/NASA/University of Arizona

 

Se estas hipóteses tentadoras se vierem a tornar facto, este novo mundo foi largamente alterado por líquidos. Às temperaturas da superfície de Titã, -170ºC, os líquidos etano ou metano podem formar lagos ou riachos. Existem algumas nuvens, mas isso apenas significa que as tempestades são raras e intensas.

No local de aterragem da sonda Huygens, o líquido pode não estar muito distante. Quanto a sonda atingiu a superfície, uma vareta de metal na sua base penetrou 15 centímetros no chão. Durante uma fracção de segundo, a força do impacto atingiu altos níveis rapidamente e depois baixou para um mais ou menos constante, sugerindo que a superfície é dura com material mais mole por baixo – uma consistência que um dos cientistas da missão comparou com “crème brûlée”.

O material genérico no local de aterragem, tal como nas outras áreas escuras de Titã, é provavelmente parecido com alcatrão que se acumulou na superfície, mas os cientistas permanecem na dúvida. Dados espectrais registados pela Huygens podem revelar mais quando foram devidamente analisados e comparados com medições em laboratório.

Os cientistas terão que esperar até se saber mais sobre a complexa química orgânica da atmosfera de Titã, sobre a qual esperam que lhes forneçam mais pistas sobre a origem da vida na Terra. Dois instrumentos estudaram os gases e aerosóis na atmosfera, mas poderá levar meses a analisar os dados.

Até agora, as equipas de análises químicas apenas registaram as medições de um gás: o cromatógrafo de gás e espectómetro de massa da Huygens detectou um “sopro” de metano no impacto, indicando que existe alguma espécie de reservatório de metano líquido ou sólido na superfíce, talvez na forma de geada ou orvalho. A câmara também avistou o que pode ser um banco de nevoeiro, talvez composto de metano.

A imagem que temos de Titã poderá mudar radicalmente nos próximos meses, mas apenas pode ficar mais interessante. “Não é nada como Marte ou Vénus,” disse Ralph Lorenz, estudioso de Titã. “Tem um aroma apenas seu.”

Sobre Miguel Montes

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