A fonte cósmica chamada ASASSN-14li, escondendo um buraco negro com pelo menos um milhão de vezes a massa do Sol, que dilacerou e devorou uma estrela próxima, pelo instrumento EPIC (European Photon Imaging Camera) a bordo do observatório de raios-X XMM-Newton da ESA. As observações de ASASSN-14li revelaram um sinal extremamente brilhante e estável que oscilou ao longo de 131 segundos durante muito tempo: 450 dias. Combinando esta informação com a massa e tamanho do buraco negro, os astrónomos descobriram que o objeto deve girar muito depressa - a mais de 50% da velocidade da luz - e que o sinal veio das suas regiões mais internas. Crédito: ESA/XMM-Newton

XMM-Newton capta gritos finais de estrela dilacerada por buraco negro

Recorrendo ao observatório espacial XMM-Newton da ESA, os astrónomos estudaram um buraco negro que devorava uma estrela e descobriram um sinal estável excecionalmente brilhante que lhes permitiu determinar a velocidade de rotação do buraco negro.

Pensa-se que os buracos negros se escondam no centro de todas as galáxias massivas espalhadas pelo Universo, e estão inextricavelmente ligados às propriedades das suas galáxias hospedeiras. Como tal, quanto mais soubermos sobre estes gigantes mais podemos compreender como as galáxias evoluem com o tempo.

A gravidade de um buraco negro é extrema e pode dilacerar estrelas que se aproximem demais. Os detritos destas estrelas rasgadas espiralam na direção do buraco negro, aquecem e emitem intensos raios-X.

Apesar do grande número de buracos negros que se pensa existir no cosmos, muitos estão inativos – não há material em queda para emitir radiação detetável – e, portanto, são difíceis de estudar. No entanto, a cada poucas centenas de milhares de anos, prevê-se que uma estrela passe perto o suficiente de um determinado buraco negro para ser destruída. Isto fornece uma breve janela de oportunidade para medir algumas propriedades fundamentais do buraco negro, como a sua massa e a velocidade de rotação.

“É muito difícil restringir a rotação de um buraco negro, já que os efeitos de rotação só emergem muito perto do próprio buraco negro, onde a gravidade é intensamente forte e difícil de ver claramente,” afirma Dheeraj Pasham do Instituto Kavli para Astrofísica e Pesquisa Espacial do MIT em Massachusetts, EUA, autor principal do novo estudo.


Esta impressão de artista mostra gás quente orbitando num disco que rodeia um buraco negro de rápida rotação. A mancha alongada ilustra uma brilhante região em raios-X, que permite com que a rotação do buraco negro possa ser estimada.
Através do estudo do buraco negro conhecido como ASASSN-14li, devorando uma estrela, com o XMM-Newton da ESA e com os observatórios Chandra e Swift da NASA, uma equipa de astrónomos encontrou um sinal extremamente brilhante e estável que lhes permitiu determinar a velocidade de rotação do buraco negro.
Crédito: NASA/CXC/M. Weiss

“No entanto, os modelos mostram que a massa de uma estrela despedaçada se instala numa espécie de disco interno que liberta raios-X. Nós teorizámos que a descoberta de instâncias de discos especialmente brilhantes seria uma boa maneira de restringir a rotação de um buraco negro, mas as observações de tais eventos não foram suficientemente sensíveis para explorar em detalhe essa região de forte gravidade – até agora”

Dheeraj e colegas estudaram um evento chamado ASASSN-14li.

ASASSN-14li foi descoberto pelo levantamento terrestre ASASSN (All-Sky Automated Survey for SuperNovae) no dia 22 de novembro de 2014. O buraco negro ligado ao evento é pelo menos um milhão de vezes mais massivo que o Sol.

“ASASSN-14li é apelidado de ‘Pedra de Roseta’ destes eventos,” acrescenta Dheeraj. “Todas as suas propriedades são características deste tipo de evento, e já foi estudado por todos os principais telescópios de raios-X atualmente em operação.”

Usando observações de ASASSN-14li pelo XMM-Newton da ESA e pelos observatórios Chandra e Swift da NASA, os cientistas procuraram um sinal que fosse estável e mostrasse um padrão de ondas característico que geralmente ocorre quando um buraco negro recebe um influxo súbito de massa – como quando devora uma estrela passageira.

Eles detetaram um sinal surpreendentemente intenso de raios-X que oscilou durante um período de 131 segundos e durante muito tempo: 450 dias.

Combinando este sinal com informação sobre a massa e tamanho do buraco negro, os astrónomos descobriram que o buraco negro deve estar a girar rapidamente – a mais de 50% da velocidade da luz – e que o sinal vinha das suas regiões mais internas.

“É uma descoberta excecional: nunca tinha sido observado um sinal tão brilhante, tão estável, por tanto tempo, na vizinhança de qualquer buraco negro,” realça Alessia Franchini da Universidade de Milão, na Itália.


A galáxia que alberga ASASSN-14li, um buraco negro que devora uma estrela, observada pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA no visível. A inserção no canto inferior esquerdo mostra os raios-X obtidos pelo observatório Chandra.
As observações de ASASSN-14li revelaram um sinal extremamente brilhante e estável que oscilou ao longo de 131 segundos durante muito tempo: 450 dias. Combinando esta informação com a massa e tamanho do buraco negro, os astrónomos descobriram que o objeto deve girar muito depressa – a mais de 50% da velocidade da luz – e que o sinal veio das suas regiões mais internas. 
Crédito: raios-X – NASA/CXC/MIT/D. Pasham et al.; ótico – HST/STScI/I. Arcavi

“Além disso, o sinal vem de muito perto do horizonte de eventos do buraco negro – para lá deste ponto, não conseguimos observar nada, pois a gravidade é tão forte que nem a luz pode escapar.”

O estudo demonstra uma nova maneira de medir a rotação de buracos negros supermassivos: observando a sua atividade quando interrompem a passagem de estrelas com a sua gravidade. Tais eventos também nos podem ajudar a compreender aspetos da teoria da relatividade geral; embora já tenha sido explorada extensivamente na gravidade “normal”, ainda não é totalmente compreendida em regiões onde a gravidade é excecionalmente forte.

“O XMM-Newton é incrivelmente sensível a estes sinais, mais do que qualquer outro telescópio de raios-X,” comenta Norbert Schartel, cientista do projeto XMM-Newton da ESA. “O satélite fornece as exposições longas, ininterruptas e detalhadas que são cruciais para detetar sinais como este.

“Estamos apenas a começar a entender a física complexa aqui em ação. Ao descobrirmos casos em que a massa de uma estrela dilacerada brilha intensamente, podemos construir um censo dos buracos negros no Universo e investigar como a matéria se comporta em algumas das áreas e condições mais extremas do cosmos.”

// ESA (comunicado de imprensa)
// Observatório de raios-X Chandra (comunicado de imprensa)
// MIT News (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Science)
// Artigo científico (arXiv.org)

Saiba mais:

Buraco negro supermassivo:
Wikipedia

Observatório XMM-Newton:
ESA
Wikipedia

ASAS-SN:
Página oficial (Universidade Estatal do Ohio) 
Wikipedia

Observatório Chandra:
Página oficial (Harvard)
Página oficial (NASA)
Wikipedia

Telescópio Swift:
NASA
Wikipedia

Sobre Miguel Montes

Veja também

Estrelas “ocultas” tornam as primeiras galáxias muito mais massivas do que se pensava anteriormente

Recorrendo ao Telescópio James Webb, astrónomos da Universidade de Leiden descobriram que as primeiras galáxias massivas contêm muito mais estrelas pequenas e fracas do que se supunha. Esta população oculta revela que estas galáxias primitivas eram significativamente mais massivas - até quatro vezes mais -, desafiando os modelos de evolução do Universo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *