MMX: a missão que vai trazer para a Terra pedaços de uma lua de Marte

Ilustração da aproximação da nave espacial MMX ao sistema de Marte.
Crédito: JAXA

Dentro de poucas semanas, partirá da Terra uma sonda japonesa com um destino pouco habitual: não Marte, mas uma das suas pequenas luas. A missão MMX (Martian Moons eXploration), liderada pela JAXA (Japan Aerospace Exploration Agency), pretende estudar de perto as duas luas marcianas, aterrar em Fobos e, pela primeira vez, recolher material para o trazer de volta à Terra. O lançamento está atualmente previsto para 19 de outubro de 2026 às 20:41 (hora portuguesa), a bordo de um foguetão H3, a partir do Centro Espacial de Tanegashima, no Japão.

É invulgar dedicar uma missão tão ambiciosa a dois corpos com apenas alguns quilómetros de diâmetro, tendo um muito maior “logo ali ao lado”. Mas as luas Fobos e Deimos escondem uma questão que há décadas intriga os cientistas: qual a origem dos satélites naturais de Marte?

Uma das possibilidades é que sejam remanescentes de material produzido por uma enorme colisão ocorrida quando Marte ainda estava a formar-se. Neste cenário, o impacto de outro corpo com o Planeta Vermelho teria lançado material para o espaço, que posteriormente se agregou e deu origem às duas luas. Outra hipótese é que Fobos e Deimos sejam, na realidade, asteroides formados noutra região do Sistema Solar e posteriormente capturados pela gravidade de Marte. Determinar qual destas duas possibilidades é a correta permite compreender melhor não só a história de Marte, mas também os processos que contribuíram para a formação dos planetas do Sistema Solar.

É precisamente aqui que entra a MMX. A missão foi desenvolvida pela JAXA, aproveitando a experiência adquirida pelas missões Hayabusa e Hayabusa2, que pousaram em pequenos corpos do Sistema Solar e trouxeram amostras para a Terra. Mas, desta vez, o desafio é consideravelmente maior: a sonda terá de viajar até ao sistema marciano, operar nas proximidades de Fobos, pousar na sua superfície, recolher amostras e fazer depois o caminho de regresso. O projeto envolve ainda importantes parceiros internacionais: a NASA, o CNES (Centre National d’Études Spatiales), o DLR (Deutsches Zentrum für Luft- und Raumfahrt, o Centro Aeroespacial Alemão) e a ESA.

A colaboração internacional está presente em várias partes da missão. A NASA fornece, entre outros elementos, o instrumento MEGANE (Mars-moon Exploration with GAmma rays and NEutrons), destinado a determinar a composição elementar de Fobos, e o sistema pneumático de recolha de amostras P-Sampler. O CNES participa no desenvolvimento do espetrómetro infravermelho MIRS (MMX InfraRed Spectrometer) e, juntamente com o DLR, desenvolve o pequeno rover Idefix. A ESA contribui para o sistema de comunicações de espaço profundo e para o apoio através da sua rede de estações terrestres Estrack.

Uma vez lançada, a MMX deverá passar aproximadamente um ano em viagem até ao sistema de Marte, chegando em 2027. A sonda começará então uma fase de observação detalhada de Fobos. Em vez de simplesmente orbitar a lua como um satélite convencional, utilizará uma chamada órbita quasi-satélite, concebida para permitir operações próximas e controladas em torno de Fobos. Esta fase será fundamental para conhecer o terreno e determinar exatamente onde deverá ser recolhida a amostra.

Os instrumentos científicos da MMX permitirão estudar não apenas a forma e a superfície das luas, mas também a sua composição, estrutura interna, gravidade e ambiente espacial. Câmaras como a TENGOO (TElescopic Nadir imager for GeOmOrphology) e a OROCHI (Optical RadiOmeter composed of CHromatic Imagers) vão observar a superfície com diferentes níveis de detalhe e em vários comprimentos de onda. O instrumento LIDAR (Light Detection and Ranging) utilizará um laser para medir a topografia, enquanto o MIRS observará no infravermelho próximo, procurando, entre outros elementos, minerais hidratados, substâncias relacionadas com água e possíveis materiais orgânicos. O MEGANE, por sua vez, analisará os raios gama e neutrões produzidos na superfície de Fobos para determinar a sua composição química.

Estas observações são particularmente importantes porque Fobos não parece ser um corpo completamente uniforme. Diferentes regiões da sua superfície apresentam características distintas, pelo que a escolha do local de amostragem terá de ser feita com grande cuidado. Os instrumentos da sonda serão utilizados para identificar uma região que seja simultaneamente cientificamente interessante e suficientemente segura para a aproximação e recolha do material.

Antes da própria MMX tentar pousar, entrará em ação o Idefix, um rover de apenas cerca de 25 quilogramas desenvolvido pelo CNES e pelo DLR. A gravidade de Fobos é tão baixa que, na superfície da lua, o veículo terá um peso equivalente a apenas cerca de 15 gramas na Terra. O Idefix foi concebido precisamente para funcionar nessas condições extremas, deslocando-se sobre quatro rodas e estudando as propriedades físicas do rególito. Os seus resultados deverão ajudar a caracterizar o terreno e a reduzir os riscos associados à aterragem da sonda e à recolha das amostras.

Imagem artística do rover da missão MMX, o Idefix. no seu destino. Depois de ter sido libertado pela nave-mãe (ao fundo) e de ter caído na superfície de Fobos, o rover Idefix endireitou-se e ligou-se. Agora está pronto para explorar a lua marciana.
Crédito: DLR

Chegará então o momento central da missão: recolher material de Fobos. A MMX terá dois sistemas de amostragem. O C-Sampler foi concebido para penetrar cerca de dois centímetros no solo e recolher material à subsuperfície, enquanto o P-Sampler utiliza gás pressurizado para levantar partículas da superfície. A combinação dos dois métodos deverá permitir a recuperação duma amostra representativa, com uma massa prevista de mais de 10 gramas. Depois de recolhido, o material será cuidadosamente acondicionado numa cápsula de retorno.

A exploração do sistema marciano deverá prolongar-se entre 2027 e 2030. Durante este período, a MMX não ficará limitada a Fobos: depois das operações junto da lua maior e da recolha das amostras, a sonda realizará observações de Deimos, o mais distante e menos estudado dos dois satélites. A missão permitirá assim comparar diretamente os dois corpos e investigar a evolução conjunta do sistema de Marte. Ao mesmo tempo, serão estudados a atmosfera de Marte e o ambiente espacial próximo do planeta, com o objetivo de compreender melhor processos relacionados com a evolução e perda da atmosfera marciana.

Em 2030, concluída a fase de exploração, a MMX deverá abandonar o sistema de Marte e iniciar a viagem de regresso à Terra. Essa viagem demorará aproximadamente um ano. Em 2031, a cápsula contendo as amostras será libertada da sonda e entrará na atmosfera terrestre. A cápsula deverá ser recuperada na Austrália e posteriormente transportada para o Japão, onde as amostras serão extraídas e preparadas para estudo em laboratórios especializados.

O verdadeiro valor da MMX estará precisamente nesse regresso. Observações à distância podem revelar a composição de uma superfície, mas uma amostra permite fazer análises muito mais precisas e utilizar instrumentos demasiado grandes ou sofisticados para serem enviados numa missão espacial. Ao estudar diretamente amostras de Fobos, os investigadores poderão procurar a assinatura química e mineralógica que permita determinar a origem da lua – e, com ela, obter novas pistas sobre a própria formação de Marte e dos planetas do Sistema Solar.

Mas a missão terá também uma dimensão tecnológica. A JAXA pretende demonstrar técnicas para realizar viagens de ida e volta à região de Marte, alcançar e operar na superfície de uma pequena lua e efetuar recolhas de amostras em condições de gravidade extremamente reduzida. Estas capacidades poderão ser importantes para futuras missões robóticas de exploração do Sistema Solar e, a mais longo prazo, para a preparação de operações humanas no espaço profundo.

Assim, quando a MMX partir rumo às duas pequenas luas de Marte, estará a tentar responder a uma pergunta muito antiga com uma estratégia bastante simples na sua essência: ir até lá, observar, recolher e trazer para casa. Se tudo correr como planeado, em 2031 os cientistas terão finalmente nas mãos os primeiros fragmentos de um corpo proveniente do sistema de Marte – e talvez, nesses poucos gramas de material, estejam escondidas algumas das respostas acerca da origem das luas do Planeta Vermelho.

// DLR (comunicado de imprensa)

Saiba mais:

MMX (Martian Moons eXploration):
JAXA
NASA
DLR
ESA
Facebook
Rede social X
Instagram
Wikipedia
Rover Idefix (Wikipedia)

Fobos:
NASA
Wikipedia

Deimos:
NASA
Wikipedia

Marte:
NASA
Wikipedia
The Nine Planets

Sobre Miguel Montes

Veja também

Hubble encontra pistas de um planeta de segunda geração

Dados de arquivo do Hubble revelaram indícios de um possível planeta de segunda geração no sistema da anã branca HS 0209+0832. A elevada abundância de nióbio sugere que o planeta se formou a partir de material expelido pela estrela durante a sua morte, em vez de ter nascido com ela, oferecendo pistas sobre uma possível segunda geração de sistemas planetários.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *