Estrutura poeirenta explica o quase desaparecimento de uma estrela distante

Ilustração, criada por inteligência artificial, do possível aspeto do sistema ASASSN-24fw. Crédito: Microsoft Designer

As estrelas morrem e desaparecem de vista a toda a hora, mas os astrónomos ficaram intrigados quando uma estrela que se tinha mantido estável durante mais de uma década quase desapareceu durante oito meses.

Entre o final de 2024 e o início de 2025, uma estrela da nossa Galáxia, designada por ASASSN-24fw, diminuiu o seu brilho em cerca de 97%, antes de aumentar novamente. Desde então, os cientistas têm vindo a trocar teorias sobre o que estará por detrás deste acontecimento raro e excitante.

Agora, uma equipa internacional liderada por cientistas da Universidade do Estado do Ohio, EUA, poderá ter encontrado uma resposta para o mistério. Num novo estudo recentemente publicado na revista The Open Journal of Astrophysics, os astrónomos sugerem que, uma vez que a cor da luz da estrela permaneceu inalterada durante o seu escurecimento, o evento não foi causado por uma qualquer evolução da estrela, mas sim por uma grande nuvem de poeira e gás em torno da estrela que ocultou a visão da Terra.

“Explorámos três cenários diferentes para o que poderia estar a acontecer”, disse Raquel Forés-Toribio, autora principal do estudo e investigadora pós-doutorada em astronomia. “As evidências sugerem que é provável que exista uma nuvem de poeira em forma de disco à sua volta”.

ASASSN-24fw é uma estrela de classe F – uma estrela um pouco mais massiva do que o nosso Sol e com cerca do dobro do tamanho – e está localizada a cerca de 3000 anos-luz da Terra. Os investigadores estimam que a nuvem em forma de disco que a rodeia tem cerca de 1,3 unidades astronómicas (UA) de diâmetro, uma distância ainda maior do que a que separa o Sol do nosso planeta (1 UA é a distância entre o centro da Terra e o centro do Sol).

Os investigadores sugerem que este disco também é provavelmente constituído por grandes aglomerados de carbono ou água gelada, com dimensões próximas das de um grande grão de poeira encontrado na Terra. Este material é suficientemente semelhante aos discos de formação planetária para que o seu estudo possa dar aos astrónomos novos conhecimentos sobre a formação e evolução estelar.

No entanto, estas descobertas por si só não explicam todas as anomalias do sistema, disse Forés-Toribio. Ao invés, os investigadores pensam que uma estrela mais pequena e mais fria pode também orbitar ASASSN-24fw, o que faria dele um sistema binário oculto.

“Neste momento, com os dados que temos, o que propomos é que haja duas estrelas juntas num sistema binário”, disse Forés-Toribio. “A segunda estrela, que é muito mais fraca e menos massiva, pode estar a provocar as mudanças na geometria que levam aos eclipses”.

Embora sistemas obscurantes como o que a equipa viu sejam escassos, este eclipse raro foi especialmente dramático, disse Chris Kochanek, coautor do estudo e professor de astronomia, pois quando os investigadores procuraram objetos semelhantes, não conseguiram encontrar nenhum que se encaixasse exatamente no mesmo padrão.

“Esperávamos encontrar algumas semelhanças e não encontrámos muitas, o que é interessante por si só”, disse Kochanek. “Mas a esperança é que, à medida que formos encontrando mais no futuro, alguns padrões possam eventualmente ser revelados”.

O sistema foi descoberto no âmbito do projeto ASAS-SN (All-Sky Automated Survey for Supernovae), uma rede de pequenos telescópios que monitorizam todo o céu noturno visível. Desde a sua criação, há mais de uma década, que o ASAS-SN já recolheu cerca de 14 milhões de imagens do cosmos.

“A capacidade do Universo em nos surpreender é contínua”, disse Krzysztof Stanek, outro coautor do estudo e professor de astronomia. “Mesmo com pequenos telescópios no solo e grandes telescópios no espaço, sempre que temos uma nova capacidade, continuamos a descobrir coisas novas”.

De acordo com a equipa, o sistema ASASSN-24fw deverá passar por um eclipse aproximadamente a cada 43,8 anos, sendo que o próximo só deverá ocorrer por volta de 2068. Embora alguns membros da equipa não esperem estar por perto para estudar esse evento, esperam que o trabalho que deixaram no desenvolvimento destes levantamentos do céu a longo prazo dê aos futuros cientistas uma base para fazer todo o tipo de novas e excitantes descobertas.

“Queremos que os nossos dados estejam acessíveis daqui a cem anos, mesmo que não estejamos cá”, disse Stanek. “O principal objetivo do ASAS-SN é que, se algo acontecer no céu, teremos dados históricos sobre isso”.

Entretanto, a equipa quer utilizar telescópios maiores, como o Telescópio Espacial James Webb e o LBT (Large Binocular Telescope), para fazer observações mais completas do sistema à medida que este regressa ao brilho total.

“Este estudo é um exemplo particularmente interessante de uma classe mais vasta de objetos ainda muito estranhos”, disse Stanek. “Aprendemos mais sobre astrofísica quando encontramos coisas que são invulgares, porque isso põe à prova as nossas teorias”.

// Universidade do Estado do Ohio (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Open Journal of Astrophysics)

Saiba mais:

Estrela de classe F:
Wikipedia

ASAS-SN (All-Sky Automated Survey for Supernovae):
Universidade do Estado do Ohio
Universidade do Estado do Ohio #2
Wikipedia

Sobre Miguel Montes

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