Os dados mais recentes do SPT assinalam uma “nova era” na medição da primeira luz do Universo

Os cientistas divulgaram os primeiros dois anos de dados obtidos por uma câmara melhorada do SPT (South Pole Telescope), situado na Antártida, que mapeia o brilho remanescente do Big Bang. Crédito: Kevin Zagorski

A luz mais antiga do universo tem estado a viajar pelo espaço desde logo após o Big Bang. Conhecida como radiação cósmica de fundo em micro-ondas, é impercetível ao olho humano. Mas se os cientistas a conseguirem captar, utilizando alguns dos detetores mais sensíveis alguma vez fabricados, pode dizer-nos como o nosso Universo se formou e evoluiu ao longo do tempo.

Os investigadores divulgaram medições sensíveis, sem precedentes, da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, resultantes de dois anos de observações com uma câmara melhorada do SPT (South Pole Telescope). O telescópio, localizado na Estação Amundsen-Scott da NSF (National Science Foundation), na Antártida, e financiado conjuntamente pela NSF e pelo Departamento de Energia dos EUA, foi concebido especificamente para mapear a luz muito ténue da radiação de fundo em micro-ondas.

Os resultados, divulgados no passado dia 25 de junho, são impressionantes – a precisão dos pormenores da radiação cósmica de fundo em micro-ondas excede a de todas as medições anteriores, mesmo as efetuadas a partir do espaço. Quando combinados com dados de outros telescópios terrestres, oferecem uma nova referência para restringir as possíveis respostas a questões importantes sobre o Universo.

“Este é um momento decisivo para a cosmologia da radiação de fundo em micro-ondas”, disse Tom Crawford, diretor-adjunto do SPT e professor investigador na Universidade de Chicago. “É o início de uma nova era, em que a nossa compreensão do Universo será avançada em grande parte por experiências terrestres da radiação de fundo em micro-ondas”.

As novas leituras fornecem um controlo cruzado do nosso modelo fundamental do Universo. À medida que forem sendo divulgados mais dados, estes irão aperfeiçoar vários testes de grandes questões pendentes na cosmologia, tais como a natureza da energia escura e o ritmo a que o Universo se está a expandir.

Restrições cósmicas

A radiação cósmica de fundo em micro-ondas, por vezes referida como o brilho remanescente do Big Bang, data de há mais de 13 mil milhões de anos, do período imediatamente após a formação do nosso Universo. Isto torna-a uma fonte de informação incrivelmente rica – se a conseguirmos avistar, claro.

Esta radiação é extremamente ténue, e as suas variações são ainda mais ténues. Para ter a possibilidade de a captar, é necessário um céu muito limpo e condições de observação perfeitamente secas, condições essas que se encontram na Antártida.

O SPT, gerido por uma colaboração liderada pela Universidade de Chicago, tem estado a mapear esta radiação desde 2007. Ao longo dos anos, foram instaladas várias câmaras no telescópio, mas a mais recente, conhecida como SPT-3G, tem mais detetores do que as versões anteriores. Os dados do mais recente resultado foram obtidos em 2019 e 2020 e representam os dois primeiros anos de observações da SPT-3G na sua potência total. Cobrem cerca de 1/25 do céu, mapeando-o com mais pormenor do que qualquer outra medição deste tipo.

O céu extraordinariamente limpo e a atmosfera estável da Antártida permitem ao SPT captar a muito ténue radiação cósmica de fundo em micro-ondas.
Crédito: Kevin Zagorski

Uma das principais utilizações para estes dados é a de colocar restrições nas muitas possíveis respostas às nossas questões sobre o Universo, tais como a forma como se formou e as leis fundamentais que regem a sua evolução. Os dados fornecidos pela radiação cósmica de fundo em micro-ondas ajudam a orientar a procura de uma imagem coesa de tudo o que existe.

O melhor modelo atual para explicar a formação do cosmos é conhecido como Lambda-CDM. No entanto, estudos recentes têm revelado indícios tentadores de que o modelo Lambda-CDM pode não ser o quadro completo. Há também um debate em andamento sobre o ritmo de expansão do Universo, conhecido como “tensão de Hubble”, que teria ramificações significativas para a nossa compreensão do Universo e na qual a radiação cósmica de fundo em micro-ondas desempenha um papel fundamental.

Os novos resultados do SPT, publicados num artigo científico codirigido por Etienne Camphuis, investigador pós-doutorado da equipa de Silva Galli no Instituto de Astrofísica de Paris do CNRS (Centre national de la recherche scientifique), e Wei Quan do Laboratório Nacional Argonne (EUA), vêm reforçar significativamente esta imagem.

As descobertas confirmam a tensão de Hubble de forma independente com uma significância estatística muito elevada, disse o grupo, ao mesmo tempo que se mantêm consistentes com outras limitações da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, incluindo as da missão do satélite Planck e do ACT (Atacama Cosmology Telescope), no Chile.

Também acentuam uma anomalia que surgiu recentemente no nosso quadro cosmológico – a discordância entre as restrições à radiação cósmica de fundo em micro-ondas e as dos levantamentos em grande escala dos movimentos das galáxias (particularmente os resultados recentes do DESI, ou Dark Energy Spectroscopic Instrument).

À medida que mais dados do SPT-3G forem sendo disponibilizados, continuarão a constituir uma forma independente e cada vez mais poderosa de testar hipóteses.

“Se houver realmente um afastamento do modelo padrão, poderemos vê-lo com muito mais força com os próximos conjuntos de dados”, disse Quan. “Se for um sinal real, será ampliado”.

Padrão de ouro a partir do solo

Anteriormente, o padrão de ouro para as medições da radiação cósmica de fundo em micro-ondas eram os dados do satélite Planck, obtidos há mais de uma década. Agora, os novos dados do SPT, quando combinados com os dados do ACT, estabelecem um novo padrão – um momento pelo qual muitos no campo têm estado à espera, disseram os cientistas.

Os telescópios espaciais, como o Planck, têm a vantagem de ter uma visão mais nítida, uma vez que a atmosfera da Terra não está a perturbar a visão.

Mas é substancialmente mais fácil operar um telescópio a partir do solo. É muito mais fácil criar um instrumento complexo que funcione mesmo num local tão inóspito como a Antártida do que conceber algo que tenha de sobreviver a um lançamento de foguetão e às condições do espaço. “Se algo se avariar num telescópio terrestre, podemos ir lá e repará-lo”, disse Brad Benson, professor associado de astronomia e astrofísica na Universidade de Chicago e diretor de operações do SPT. “Não é possível fazer isso no espaço”.

Os avanços nos detetores e no design estão finalmente a permitir que os telescópios terrestres igualem ou rivalizem com os dados do Planck.

“Durante anos, o Planck definiu efetivamente, por si só, o nosso modelo cosmológico”, disse Camphuis. “No entanto, em ciência, é importante confirmar as medições. Com o SPT e o ACT, temos agora um conjunto quase totalmente independente de medições com um poder de restrição semelhante”.

Estes novos resultados representam menos de um-quarto dos dados obtidos com a SPT-3G no SPT.

“Isto é apenas o início”, disse Crawford. “A imagem só vai ficar mais interessante”.

// Universidade de Chicago (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv)

Saiba mais:

Universo:
Radiação cósmica de fundo em micro-ondas (Wikipedia)
A expansão acelerada do Universo (Wikipedia)
Universo (Wikipedia)
Idade do Universo (Wikipedia)
Época da Reionização (Wikipedia)
Estrutura a grande-escala do Universo (Wikipedia)
Big Bang (Wikipedia)
Cronologia do Big Bang (Wikipedia)
Modelo Lambda-CDM (Wikipedia)

SPT (South Pole Telescope):
Página principal
Wikipedia
SPT-3G (Fermilab)

ACT (Atacama Cosmology Telescope):
Página principal (Universidade de Princeton)
Wikipedia

Observatório Planck:
ESA (ciência e tecnologia)
ESA (centro científico)
ESA (página de operações)
NASA
Arquivo do Legado Planck (ESA)
Wikipedia

Sobre Miguel Montes

Veja também

Chandra e Webb “ligam” os pequenos pontos vermelhos

Os astrónomos combinaram dados dos telescópios espaciais Chandra e James Webb para estudar os misteriosos "pequenos pontos vermelhos", objetos muito distantes no Universo primitivo. A deteção de raios X num deles, o que não acontece nos outros, sugere que são buracos negros supermassivos em crescimento, numa fase inicial envolta em gás denso.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *