A missão NEOWISE pode estar a chegar ao fim, mas a sua herança perdurará

Observado pela missão WISE da NASA, esta imagem mostra todo o céu no infravermelho. As estrelas da Via Láctea atravessam o centro da imagem e são vistas predominantemente em ciano. O verde e o vermelho representam a poeira interestelar. Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA

Após mais de 14 anos de sucesso no espaço, a missão NEOWISE (Near-Earth Object Wide-field Infrared Survey Explorer) da NASA terminará a 31 de julho. Mas à medida que a missão se aproxima do fim, outra está a tomar forma, aproveitando a experiência adquirida com a NEOWISE: o NEO Surveyor (Near Earth Object Surveyor) da NASA, o primeiro telescópio espacial infravermelho construído especificamente para caçar objetos perigosos próximos da Terra. Com lançamento previsto para o final de 2027, é um passo importante na estratégia de defesa planetária da agência espacial norte-americana.

“Depois de ter desenvolvido novas técnicas para encontrar e caracterizar objetos próximos da Terra escondidos em grandes quantidades de dados do seu levantamento infravermelho, o NEOWISE tornou-se fundamental para nos ajudar a desenvolver e operar o telescópio espacial infravermelho de próxima geração da NASA. É uma missão precursora”, disse Amy Mainzer, investigadora principal do NEOWISE e do NEO Surveyor na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, EUA. “O NEO Surveyor irá procurar os asteroides e cometas mais difíceis de encontrar e que poderão causar danos significativos à Terra se não os encontrarmos primeiro.”

Início do WISE

O fim da missão do NEOWISE está ligado ao Sol. De 11 em 11 anos, a nossa estrela passa por um ciclo de atividade crescente que atinge o seu pico durante um período chamado máximo solar. Os eventos explosivos, como as erupções solares e as ejeções de massa coronal, tornam-se mais frequentes e aquecem a atmosfera do nosso planeta, provocando a sua expansão. Os gases atmosféricos, por sua vez, aumentam a resistência dos satélites que orbitam a Terra, tornando-os mais lentos. Com o Sol a atingir os níveis máximos de atividade previstos, e sem um sistema de propulsão que permita ao NEOWISE manter-se em órbita, a nave espacial irá em breve descer demasiado para poder ser utilizada.

O telescópio infravermelho vai deixar de funcionar, tendo ultrapassado os objetivos científicos não de uma, mas de duas missões, começando como WISE (Wide-field Infrared Survey Explorer).

Gerido pelo JPL da NASA, no sul do estado norte-americano da Califórnia, o WISE foi lançado em dezembro de 2009 com uma missão de seis meses para analisar todo o céu no infravermelho. Em julho de 2010, o WISE tinha conseguido atingir este objetivo com uma sensibilidade muito superior à dos levantamentos anteriores, e a NASA prolongou a missão até 2011.

Durante esta fase, o WISE estudou galáxias distantes, cometas em fase de desgaseificação, estrelas anãs brancas em explosão e anãs castanhas. Identificou dezenas de milhões de buracos negros supermassivos que se alimentam ativamente. Também gerou dados sobre discos circunstelares – nuvens de gás, poeira e destroços que giram em torno de estrelas – que os cientistas cidadãos continuam a explorar através do projeto Disk Detetive.

Além disso, destacou-se na procura de asteroides da cintura principal, bem como de objetos próximos da Terra, e descobriu o primeiro asteroide troiano terrestre conhecido. Além disso, a missão forneceu um censo de objetos escuros e ténues próximos da Terra que são difíceis de detetar pelos telescópios terrestres, revelando que estes objetos constituem uma fração considerável da população de objetos próximos da Terra.

Herança infravermelha

Invisíveis a olho nu, os comprimentos de onda infravermelhos são emitidos por objetos quentes. Para evitar que o calor gerado pelo próprio WISE interferisse com as suas observações no infravermelho, a nave espacial dependia de um líquido de refrigeração criogénico. Quando o líquido de refrigeração se esgotou, o WISE já tinha mapeado o céu duas vezes e a NASA colocou a nave em hibernação em fevereiro de 2011.

Movendo-se contra o fundo estelar, os seis pontos vermelhos da composição indicam a localização de seis deteções sequenciais do primeiro objeto próximo da Terra descoberto pelo NEOWISE depois da nave espacial ter saído de hibernação em 2013: o asteroide 2013 YP139. A inserção mostra uma vista ampliada de uma das deteções.
Crédito: NASA/JPL-Caltech

Pouco depois, Mainzer e a sua equipa propuseram uma nova missão para a nave espacial: procurar, seguir e caracterizar objetos próximos da Terra que geram um forte sinal infravermelho devido ao seu aquecimento pelo Sol.

“Sem líquido de refrigeração, tínhamos de encontrar uma forma de arrefecer a nave espacial o suficiente para medir os sinais infravermelhos dos asteroides”, disse Joseph Masiero, investigador principal adjunto do NEOWISE e cientista do IPAC, uma organização de investigação do Caltech em Pasadena, Califórnia. “Ao ordenar ao telescópio que olhasse para o espaço profundo durante vários meses, determinámos que irradiaria apenas calor suficiente para atingir temperaturas mais baixas que ainda nos permitiriam obter dados de alta qualidade.” A NASA reativou a missão em 2013 no âmbito do Programa de Observação de Objetos Próximos da Terra, um precursor do atual programa de defesa planetária da agência espacial, com o novo nome NEOWISE.

Ao observar repetidamente o céu a partir de baixa órbita terrestre, o NEOWISE fez 1,45 milhões de medições infravermelhas de mais de 44.000 objetos do Sistema Solar até à data. Isto inclui mais de 3000 objetos próximos da Terra, 215 dos quais foram descobertos pelo telescópio espacial. Vinte e cinco deles são cometas, entre os quais o famoso cometa NEOWISE, que foi visível no céu noturno no verão de 2020.

O cometa NEOWISE foi descoberto pela sua missão homónima no dia 27 de março de 2020 e tornou-se um objeto celeste deslumbrante, visível, nesse ano, a partir do hemisfério norte durante várias semanas. Foi um dos 25 cometas descobertos pela missão.
Crédito: SDL/Allison Bills

“A nave espacial superou todas as expetativas e forneceu grandes quantidades de dados que a comunidade científica utilizará nas próximas décadas”, disse Joseph Hunt, gestor do projeto NEOWISE no JPL. “Os cientistas e engenheiros que trabalharam no WISE e no NEOWISE também construíram uma base de conhecimentos que ajudará a informar futuras missões de levantamentos infravermelhos.”

O telescópio espacial continuará o seu estudo até 31 de julho. Depois, a 8 de agosto, os controladores da missão no JPL enviarão um comando que colocará o NEOWISE em hibernação pela última vez. Desde o seu lançamento, a órbita do NEOWISE tem vindo a aproximar-se da Terra. Prevê-se que o NEOWISE arda na atmosfera do nosso planeta algures entre o final de 2024 e o início de 2025.

// NASA (comunicado de imprensa)

Saiba mais:

WISE (ou NEOWISE):
NASA
ipac
Wikipedia

NEO Surveyor:
NASA
Wikipedia

Projeto Disk Detective:
Página principal
NASA

Cometa C/2020 F3 (NEOWISE):
SSD (JPL/NASA)
Cometwatch
Wikipedia

Sobre Miguel Montes

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