Lucy surpreende de novo: observa o primeiro binário de contacto em órbita de um asteroide

Ao que parece, o “maravilhoso” asteroide Dinkinesh e o seu satélite recém-descoberto estão a dar que falar. À medida que a nave espacial Lucy da NASA continuou a enviar dados do seu primeiro encontro com um asteroide no dia 1 de novembro de 2023, a equipa ficou surpreendida ao descobrir que o satélite imprevisto de Dinkinesh é, ele próprio, um binário de contacto – ou seja, é constituído por dois objetos mais pequenos que se tocam.

Esta imagem mostra o asteroide Dinkinesh e o seu satélite, tal como observados pelo L’LORRI (Lucy Long-Range Reconnaissance Imager) quando a nave espacial Lucy da NASA partiu do sistema. Esta imagem foi obtida às 17:00 de dia 1 de novembro de 2023, cerca de 6 minutos após a maior aproximação, a partir de uma distância de aproximadamente 1630 km. Nesta perspetiva, o satélite revela-se um binário de contacto, a primeira vez que um binário de contacto é visto em órbita de outro asteroide.
Crédito: NASA/Goddard/SwRI/Johns Hopkins APL

Nas primeiras imagens de Dinkinesh e do seu satélite, que foram tiradas na fase de maior aproximação, os dois lóbulos do binário de contacto estavam um atrás do outro, do ponto de vista da Lucy. Só quando a equipa transferiu imagens adicionais, captadas nos minutos antes e depois do encontro, é que a verdadeira natureza deste objeto foi revelada.

“Os binários de contacto parecem ser bastante comuns no Sistema Solar”, disse John Spencer, cientista adjunto do projeto Lucy, da filial de Boulder, Colorado, do SwRI (Southwest Research Institute), sediado em San Antonio, Texas. “Ainda não vimos muitos de perto e nunca vimos um a orbitar outro asteroide. Ficamos a pensar nas variações estranhas no brilho de Dinkinesh que vimos durante a aproximação, o que nos deu uma pista de que Dinkinesh poderia ter uma lua qualquer, mas nunca suspeitámos de algo tão bizarro!”

O principal objetivo da Lucy é o estudo dos asteroides troianos de Júpiter, nunca antes visitados. Este primeiro encontro com um pequeno asteroide da cintura principal só foi acrescentado à missão em janeiro de 2023, principalmente para servir de teste, em voo, do sistema que permite à nave espacial seguir e captar continuamente as imagens dos seus asteroides-alvo enquanto passa a alta velocidade. O excelente desempenho desse sistema em Dinkinesh permitiu à equipa captar múltiplas perspetivas do sistema, o que lhe possibilitou compreender melhor as formas dos asteroides e fazer esta descoberta inesperada.

Um diagrama que mostra a trajetória da nave espacial Lucy da NASA (vermelho) durante o seu “flyby” pelo asteroide Dinkinesh e pelo seu satélite (cinzento). “A” marca a localização da nave espacial às 16:55 UTC de dia 1 de novembro de 2023, e uma inserção mostra a imagem L’LORRI captada nessa altura. “B” marca a posição da nave espacial alguns minutos depois, às 17:00, e a inserção mostra a vista L’LORRI correspondente nessa altura.
Crédito: gráfico geral – NASA/Goddard/SwRI; Detalhe “A” – NASA/Goddard/SwRI/APL de Johns Hopkins/NOIRLab; Detalhe “B” – NASA/Goddard/SwRI/APL de Johns Hopkins

“É, no mínimo, intrigante”, disse Hal Levison, investigador principal da Lucy, também do SwRI. “Nunca teria esperado um sistema com este aspeto. Em particular, não percebo porque é que os dois componentes do satélite têm tamanhos semelhantes. Vai ser divertido para a comunidade científica perceber isto”.

Esta segunda imagem foi obtida cerca de 6 minutos após a maior aproximação, a uma distância de aproximadamente 1630 km. A nave espacial viajou cerca de 1500 km entre as duas imagens divulgadas.

“É verdadeiramente maravilhoso quando a natureza nos surpreende com um novo puzzle”, disse Tom Statler, cientista do programa Lucy na sede da NASA em Washington. “A ciência leva-nos a fazer perguntas que nunca pensámos que precisávamos de fazer”.

A equipa continua a processar os restantes dados do encontro da nave espacial. Dinkinesh e o seu satélite são os dois primeiros de 11 asteroides que a Lucy planeia explorar durante a sua viagem de 12 anos. Depois de passar pela orla interior da cintura principal de asteroides, a Lucy dirige-se agora para a Terra para receber uma assistência gravitacional em dezembro de 2024. Esta passagem irá impulsionar a nave espacial de volta à cintura principal de asteroides, onde irá observar o asteroide Donaldjohanson em 2025 e depois viajar para os asteroides troianos em 2027.

// NASA (comunicado de imprensa)
// SwRI (comunicado de imprensa)

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Público

Asteroide 152830 Dinkinesh (1999 VD57):
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Binário de contacto:
Wikipedia

Asteroide 52246 Donaldjohanson (1981 EQ5):
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AstDyS-2
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Asteroides troianos:
Wikipedia

Missão Lucy:
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