Rover Curiosity encontra pistas surpreendentes do passado aquático de Marte

O rover Curiosity da NASA usou a sua Mastcam para capturar este panorama de 360º do vale “Marker Band” no dia 16 de dezembro de 2022, o 3684.º dia marciano, ou sol, da missão. As texturas onduladas encontradas nesta área são a evidência mais clara que o rover já viu de água e de ondas no passado antigo de Marte.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS

Quando o rover Curiosity da NASA chegou à “unidade portadora de sulfatos” no outono passado, os cientistas pensavam ter visto as últimas evidências de que lagos outrora cobriram esta região de Marte. Isto porque as camadas de rocha nesta zona formaram-se em cenários mais secos do que as regiões exploradas anteriormente pela missão. Pensava-se que os sulfatos da área – minerais salgados – tinham sido deixados para trás quando a água estava a secar.

Portanto, a equipa do Curiosity ficou surpreendida ao descobrir as evidências mais claras até agora de ondulações de água que se formaram no interior de lagos. Há milhares de milhões de anos, ondas à superfície de um lago raso agitaram sedimentos no fundo, criando ao longo do tempo texturas onduladas deixadas na rocha.

“Esta é a melhor evidência de água e ondas que vimos em toda a missão”, disse Ashwin Vasavada, cientista do projeto do Curiosity no JPL da NASA no sul da Califórnia. “Subimos centenas de metros de depósitos lacustres e nunca vimos evidências como esta – e agora encontrámo-la num local que esperávamos que estivesse seco”.

Camadas de história

Desde 2014 que o rover tem vindo a subir as encostas do Monte Sharp, uma montanha com 5 quilómetros de altura que outrora foi rodeada por lagos e riachos que teriam proporcionado um ambiente rico para a vida microbiana, se é que alguma vez se formou no Planeta Vermelho.

Há milhares de milhões de anos, ondas à superfície de um lago raso agitaram o sedimento no fundo do lago. Com o tempo, o sedimento formou rochas com texturas onduladas que são a evidência mais clara de ondas e água que o Curiosity já encontrou.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS

O Monte Sharp é composto por camadas, com a mais velha na base da montanha e a mais jovem no topo. À medida que rover sobe, progride ao longo de uma linha temporal marciana, permitindo aos cientistas estudar como Marte evoluiu de um planeta que era mais semelhante à Terra no seu passado antigo, com um clima mais quente e água abundante, para o deserto gelado que é hoje.

Tendo percorrido mais ou menos 800 metros montanha acima, o Curiosity encontrou estas texturas rochosas onduladas preservadas no que é apelidado de “Marker Band” – uma fina camada de rocha escura que se destaca do resto do Monte Sharp. Esta camada rochosa é tão dura que o Curiosity não foi capaz de perfurar uma amostra, apesar de várias tentativas. Não é a primeira vez que Marte não está disposto a partilhar uma amostra: mais abaixo, em “Vera Rubin Ridge”, o Curiosity teve de tentar três vezes antes de encontrar um ponto suficientemente mole para perfurar.

Os cientistas vão procurar uma rocha menos dura na próxima semana. Mas mesmo que nunca obtenham uma amostra desta invulgar faixa rochosa, existem outros sítios que anseiam explorar.

No fundo deste vale, chamado Gediz Vallis, encontra-se um monte de rochas e escombros que se crê terem sido trazidos por deslizamentos de terras húmidas há milhares de milhões de anos. A equipa do rover espera ver de perto esta evidência de água corrente, que é provavelmente a mais jovem que o Curiosity alguma vez encontrará.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS

Pistas marcianas

Muito à frente de “Marker Band”, os cientistas podem ver outra pista da história da antiga água de Marte num vale chamado Gediz Vallis. O vento esculpiu o vale, mas pensa-se que um canal que começa mais acima no Monte Sharp tenha sido corroído por um pequeno rio. Os cientistas suspeitam que aqui também ocorreram deslizamentos de terras húmidas, enviando pedregulhos e escombros do tamanho de um carro para o fundo do vale.

Uma vez que a pilha de detritos resultante fica em cima de todas as outras camadas do vale, é claramente uma das características mais jovens do Monte Sharp. O Curiosity teve um vislumbre destes detritos em Gediz Vallis duas vezes no ano passado, mas só os pôde observar à distância. A equipa do rover espera ter outra oportunidade de o ver mais tarde ainda este ano.

O Curiosity utilizou o seu instrumento ChemCam para ver a crista de Gediz Vallis, avistando pedregulhos que se pensa terem sido levados num antigo fluxo de detritos. Uma razão pela qual os cientistas estão interessados nesta crista é porque inclui rochas que que tiveram origem muito mais acima no Monte Sharp, onde o Curiosity não será capaz de alcançar.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/LANL/CNES/CNRS/IRAP/IAS/LPG

Outra pista dentro de “Marker Band” que tem fascinado a equipa é uma textura rochosa invulgar provavelmente provocada por algum tipo de ciclo regular na meteorologia ou no clima, tais como tempestades de poeira. Não muito longe das texturas onduladas estão rochas feitas de camadas que são regulares no seu espaçamento e espessura. Este tipo de padrão rítmico em camadas rochosas na Terra resulta frequentemente de eventos atmosféricos que ocorrem a intervalos periódicos. É possível que os padrões rítmicos nestas rochas marcianas resultem de eventos semelhantes, sugerindo alterações no clima antigo do Planeta Vermelho.

“As ondulações, os fluxos de detritos e as camadas rítmicas dizem-nos que a história do ‘molhado-para-seco’ em Marte não foi simples”, disse Vasavada. “O antigo clima de Marte teve uma complexidade maravilhosa, muito semelhante à Terra”.

// NASA (comunicado de imprensa)

Saiba mais:

Marte:
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Cratera Gale:
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Monte Sharp (Wikipedia)

Rover Curiosity (MSL):
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