Ao examinar o céu muito perto do horizonte ao nascer-do-Sol, o Telescópio SOAR no Chile, parte do Observatório Interamericano Cerro-Tololo, um programa do NOIRLab da NSF (National Science Foundation), ajudou os astrónomos a confirmar a existência de apenas o segundo asteroide troiano da Terra conhecido e a revelar que tem mais de um quilómetro de largura – cerca de três vezes maior do que o primeiro.
Usando o Telescópio SOAR (Southern Astrophysical Research) de 4,5 metros no Cerro Pachón no Chile, astrónomos liderados por Toni Santana-Ros da Universidade de Alicante e do Instituto de Ciências do Cosmos da Universidade de Barcelona observaram o asteroide recentemente descoberto 2020 XL5 para restringir a sua órbita e tamanho. Os seus resultados confirmam que 2020 XL5 é um troiano da Terra – um asteroide companheiro da Terra que orbita o Sol pelo mesmo percurso que o nosso planeta – e que é o maior até agora encontrado.

Crédito: NOIRLab/NSF/AURA/J. da Silva/Spaceengine; Reconhecimento – M. Zamani (NOIRLab da NSF)
“Os troianos são objetos que partilham uma órbita com um planeta, agrupados em torno de uma de duas áreas especiais gravitacionalmente equilibradas ao longo da órbita do planeta conhecidas como pontos de Lagrange,” diz Cesar Briceño do NOIRLab da NSF, que é um dos autores de um artigo publicado na revista Nature Communications e que ajudou a fazer as observações com o Telescópio SOAR no CTIO (Cerro Tololo Inter-American Observatory, Observatório Interamericano Cerro-Tololo) em março de 2021.
Sabe-se que vários planetas do Sistema Solar têm asteroides troianos, mas 2020 XL5 é apenas o segundo asteroide troiano conhecido encontrado perto da Terra.
Também foram feitas observações de 2020 XL5 pelo Telescópio Lowell Discovery de 4,3 metros no Observatório Lowell, Arizona, EUA, e pela Estação Terrestre Ótica de 1 metro da ESA em Tenerife, nas Ilhas Canárias.
Descoberto no dia 12 de dezembro de 2020 pelo telescópio Pan-STARRS no Hawaii, 2020 XL5 é muito maior do que o primeiro asteroide troiano da Terra descoberto, de nome 2010 TK7. Os investigadores descobriram que 2020 XL5 tem cerca de 1,2 quilómetros de diâmetro, cerca de três vezes maior do que o primeiro (2010 TK7 tem um tamanho estimado em menos de 400 metros).
Quando 2020 XL5 foi descoberto, a sua órbita em torno do Sol não era suficientemente bem conhecida para dizer se se tratava de um asteroide próximo da Terra a atravessar a nossa órbita, ou se se tratava de um verdadeiro troiano. As medições do SOAR foram tão precisas que a equipa de Santana-Ros pôde então voltar atrás e procurar 2020 XL5 em imagens de arquivo de 2012 a 2019 obtidas como parte do DES (Dark Energy Survey) usando a DECam (Dark Energy Camera) no Telescópio Víctor M. Blanco de 4 metros localizado no CTIO no Chile. Com quase 10 anos de dados à disposição, a equipa conseguiu melhorar consideravelmente a nossa compreensão da órbita do asteroide.
Embora outros estudos tenham apoiado a identificação do asteroide troiano, os novos resultados tornam essa determinação muito mais robusta e fornecem estimativas do tamanho de 2020 XL5 e do tipo de asteroide que é.
“Os dados do SOAR permitiram-nos fazer uma primeira análise fotométrica do objeto, revelando que 2020 XL5 é provavelmente um asteroide do tipo C, com um tamanho superior a um quilómetro,” diz Santana-Ros. Um asteroide do tipo C é escuro, contém muito carbono e é o tipo de asteroide mais comum no Sistema Solar.
Os resultados também mostraram que 2020 XL5 não permanecerá para sempre um asteroide troiano. Permanecerá estável na sua posição durante pelo menos mais 4000 anos, mas eventualmente ficará gravemente perturbado e escapará para vaguear pelo espaço.

Crédito: NOIRLab/NSF/AURA/J. da Silva
2020 XL5 e 2010 TK7 podem não estar sozinhos – podem haver muitos mais troianos da Terra que até agora não foram detetados à medida que aparecem perto do Sol no céu. Isto significa que as buscas e observações de troianos da Terra devem ser realizadas perto do nascer ou do pôr-do-Sol, com o telescópio a apontar perto do horizonte, através da parte mais espessa da atmosfera, o que resulta em más condições de visão. O SOAR conseguiu apontar até 16 graus acima do horizonte, enquanto muitos telescópios de 4 metros (e maiores) não são capazes de apontar tão baixo.
“Estas foram observações muito desafiantes, exigindo que o telescópio seguisse corretamente o seu limite de elevação mais baixo, uma vez que o objeto estava muito perto do horizonte oeste ao amanhecer,” diz Briceño.
No entanto, o prémio de descobrir troianos da Terra vale o esforço de os encontrar. Por serem feitos de material primitivo que remonta ao nascimento do Sistema Solar e por poderem representar alguns dos blocos de construção que formaram o nosso planeta, são alvos atrativos para futuras missões espaciais.
“Se formos capazes de descobrir mais troianos da Terra, e se alguns deles puderem ter órbitas com inclinações mais baixas, poderão tornar-se mais baratos de alcançar do que a nossa Lua,” diz Briceño. “Assim, podem tornar-se bases ideais para uma exploração avançada do Sistema Solar, ou podem mesmo ser uma fonte de recursos.”
// NOIRLab (comunicado de imprensa)
// Observatório Lowell (comunicado de imprensa)
// Universidade de Alicante (comunicado de imprensa)
// Universidade de Barcelona (comunicado de imprensa)
// Entrevista com Toni Santana-Ros (ESA)
// Instituto de Astrofísica da Andaluzia (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Communications)
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2020 XL5:
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2010 TK7:
ESA
JPL/NASA
NEODyS-2
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Troianos da Terra:
Wikipedia
Troiano (Wikipedia)
Telescópio SOAR:
NOIRLab
Wikipedia
Observatório Lowell:
Página oficial
Wikipedia
Telescópio Lowell Discovery (Wikipedia)
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