Como é que os elementos químicos são produzidos no nosso Universo? De onde vêm os elementos pesados como ouro e urânio? Usando simulações de computador, uma equipa de investigação da Associação Helmholtz dos Centros de Investigação da Alemanha, em Darmstadt, juntamente com colegas da Bélgica e do Japão, mostra que a síntese de elementos pesados é típica para certos buracos negros com discos de acreção. A abundância prevista dos elementos formados fornece uma visão sobre quais os elementos pesados que precisam de ser estudados em laboratórios futuros – como o FAIR (Facility for Antiproton and Ion Research), atualmente em construção – e assim desvendar a origem dos elementos pesados. Os resultados foram publicados na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Crédito: NRAO
Todos os elementos pesados do planeta Terra foram formados sob condições extremas em ambientes astrofísicos: no interior das estrelas, em explosões estelares e durante a colisão de estrelas de neutrões. Os cientistas estão intrigados com a questão de quais destes eventos astrofísicos têm as condições apropriadas para a formação dos elementos mais pesados, como o ouro ou o urânio. A primeira espetacular observação de ondas gravitacionais e radiação eletromagnética originária de uma fusão de estrelas de neutrões, em 2017, sugeriu que muitos elementos pesados podem ser produzidos e libertados nestas colisões cósmicas. No entanto, as questões de quando e porque é que o material é ejetado, e se podem existir outros cenários em que elementos pesados são produzidos, permanecem em aberto.
Os buracos negros com discos de acreção em órbita, densos e quentes, são candidatos promissores para a produção de elementos pesados. Tal sistema é formado tanto após a fusão de duas estrelas de neutrões massivas quanto durante o chamado colapsar, o colapso e subsequente explosão de uma estrela em rotação. A composição interna de tais discos de acreção ainda não é bem compreendida, particularmente no que diz respeito às condições sob as quais se forma um excesso de neutrões. Um número elevado de neutrões é um requisito básico para a síntese de elementos pesados, pois permite o processo de captura rápida de neutrões, também denominado “processo r”. Os neutrinos, quase sem massa, desempenham um papel fundamental neste processo, pois permitem a conversão entre protões e neutrões.

O buraco negro no centro é rodeado por matéria em forma de toro com várias centenas de quilómetros. O eixo de rotação do disco é dado pelo eixo z, que corre em R = 0 através do buraco negro ao longo da direção vertical. As setas ilustram a distribuição de velocidade da matéria. O sombreamento da cor mostra a densidade (canto superior esquerdo), a fração de protões Ye (canto inferior esquerdo) e as escalas características de tempo da emissão de neutrinos (canto superior direito) e da absorção de neutrinos (canto inferior direito). Os valores de Ye menores que 0,5 indicam uma alta fração de neutrões disponíveis para o processo r.
Crédito: O. Just et al.
“No nosso estudo, investigámos sistematicamente pela primeira vez as taxas de conversão de neutrões e protões para um grande número de configurações de disco por meio de elaboradas simulações de computador e descobrimos que os discos são muito ricos em neutrões, desde que estejam presentes certas condições,” explica o Dr. Oliver Just do grupo de Astrofísica Relativista pertencente à divisão de investigação teórica da Associação Helmholtz dos Centros de Investigação da Alemanha. “O fator decisivo é a massa total do disco. Quanto mais massivo o disco, mais frequentemente os neutrões são formados a partir de protões por meio da captura de eletrões sob emissão de neutrinos, e estão disponíveis para a síntese de elementos pesados através do processo r. No entanto, se a massa do disco for muito alta, a reação inversa desempenha um papel maior, de modo que mais neutrinos são recapturados pelos neutrões antes de saírem do disco. Estes neutrões são então convertidos de volta para protões, o que atrapalha o processo r.” Como mostra o estudo, a massa ótima do disco, para a produção prolífica de elementos pesados, é de cerca de 0,01 a 0,1 massas solares. O resultado fornece fortes evidências de que as fusões de estrelas de neutrões, que produzem discos de acreção com estas massas, podem ser o ponto de origem para uma grande fração dos elementos pesados. No entanto, ainda não está claro se e com que frequência tais discos de acreção ocorrem em sistemas colapsares.
Além dos possíveis processos de ejeção de massa, o grupo de investigação liderado pelo Dr. Andreas Bauswein também está a investigar os sinais de luz produzidos pela matéria ejetada, que serão usados para inferir a massa e a composição da matéria ejetada em futuras observações da colisão de estrelas de neutrões. Um bloco de construção importante para a leitura correta destes sinais de luz é o conhecimento preciso das massas e de outras propriedades dos elementos recém-formados. “Estes dados são atualmente insuficientes. Mas com a próxima geração de aceleradores, como o FAIR, será possível medi-los com uma precisão sem precedentes. A interação bem coordenada de modelos teóricos, experiências e observações astronómicas permitirá com que nós, investigadores, nos próximos anos, testemos fusões de estrelas de neutrões como a origem dos elementos do processo r,” prevê Bauswein.
// Associação Helmholtz dos Centros de Investigação da Alemanha (comunicado de imprensa)
// FAIR (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
Saiba mais:
Processo r:
Wikipedia
Colapsar:
Wikipedia
Estrelas de neutrões:
Wikipedia
Universidade de Maryland
Buracos negros:
Wikipedia
Disco de acreção (Wikipedia)
Ondas gravitacionais:
GraceDB (Gravitational Wave Candidate Event Database)
Wikipedia
Astronomia de ondas gravitacionais – Wikipedia
Ondas gravitacionais: como distorcem o espaço – Universe Today
Detetores: como funcionam – Universe Today
As fontes de ondas gravitacionais – Universe Today
O que é uma onda gravitacional (YouTube)
CCVAlg – Astronomia Centro Ciência Viva do Algarve – Astronomia