A sonda Mars Odyssey de 2001 da NASA foi lançada há 20 anos atrás no dia 7 de abril, tornando-a a nave espacial mais antiga ainda em funcionamento no Planeta Vermelho. O orbitador, que tem o nome do clássico romance de ficção científica de Arthur C. Clarke “2001: Odisseia no Espaço” (Clarke abençoou a sua utilização antes do lançamento), foi enviado com o objetivo de mapear a composição da superfície marciana, fornecendo uma janela para o passado para que os cientistas pudessem juntar as peças de como o planeta evoluiu.
Mas fez muito mais do que isso, descobrindo água gelada, servindo como um elo de comunicação crucial para outras espaçonaves e ajudando a pavimentar o caminho não apenas para pousos mais seguros, mas também para futuros astronautas.
Aqui fica uma lista parcial dos muitos feitos da Odyssey.

Crédito: NASA
Mapeando o gelo marciano
As duas décadas de dados da Mars Odyssey foram inestimáveis para os investigadores que trabalham para determinar onde a água gelada está presa no planeta. Compreender o ciclo de água em Marte – um planeta que já foi muito mais húmido, como a Terra – fornece uma visão sobre como mudou ao longo do tempo: como é que a água se move pelo planeta hoje? A inclinação do planeta afeta a estabilidade do gelo? As descobertas da Mars Odyssey ajudaram a responder a estas questões.
“Antes da Odyssey, não sabíamos onde esta água era armazenada no planeta,” disse o cientista do projeto Jeffrey Plaut do JPL da NASA no sul da Califórnia, EUA, que lidera a missão da Mars Odyssey. “Nós detetámos a água pela primeira vez em órbita e depois confirmámos que estava lá usando o ‘lander’ Phoenix.”
Esta água gelada também é necessária para ajudar os astronautas a sobreviver em Marte e para fornecer combustível para as suas naves espaciais (de facto, os astronautas eram o foco de um instrumento a bordo da Mars Odyssey que media quanta radiação espacial teriam que enfrentar antes deste deixar de funcionar em 2003). O orbitador encontra a água gelada usando o seu espectrómetro de raios-gama, que provou ser um caçador eficaz de hidrogénio próximo da superfície – um substituto da água gelada. Este instrumento mede a quantidade de elementos diferentes na superfície marciana e também serve como um nodo na rede interplanetária de deteção de GRBs (“gamma-ray burts”, explosões de raios-gama) da NASA, que identifica os locais de origem dos GRBs para observações astronómicas de acompanhamento.

Crédito: NASA/JPL-Caltech/ASU
A composição de Marte
Examine qualquer um dos estudos de mapeamento da superfície marciana e provavelmente inclui dados da Mars Odyssey. Durante muitos anos, os mapas globais mais completos de Marte foram feitos usando a câmara infravermelha da Odyssey, de nome THEMIS (Thermal Emission Imaging System). A câmara mede a temperatura da superfície dia e noite, permitindo aos cientistas determinar que materiais físicos, como rocha, areia ou poeira, existem. Os seus dados revelam a presença desses materiais com base em como aquecem ou arrefecem ao longo de um dia marciano.
O resultado de duas décadas de todo este mapeamento? Os cientistas não apenas usaram os dados para mapear redes de vales e crateras, também conseguiram localizar arenito, rochas ricas em ferro, sais e mais – descobertas que ajudam a fornecer uma visão mais profunda da história de Marte. “Não há como negar que o mapa global THEMIS preencheu lacunas no nosso conhecimento,” disse Laura Kerber do JPL, cientista assistente do projeto Odyssey.

Crédito: NASA/JPL-Caltech/ASU
Aterragens mais seguras
A câmara THEMIS transmitiu mais de 1 milhão de imagens desde que começou a orbitar Marte. As imagens e mapas produzidos destacam a presença de perigos, como características topográficas e rochas, mas também ajudam a garantir a segurança dos futuros astronautas, mostrando a localização de recursos como água gelada. Isto ajuda a comunidade científica de Marte e a NASA e decidir para onde enviar “landers” e “rovers” – incluindo o rover Perseverance, que pousou no dia 18 de fevereiro de 2021.
Chamadas rotineiras para casa
Desde o início, a Mars Odyssey serviu como uma central de chamadas de longa distância para rovers e landers da NASA, retransmitindo os seus dados para a Terra como parte da MRN (Mars Relay Network). A ideia de um relé em Marte remonta à década de 1970, quando os dois módulos de aterragem Viking enviaram dados científicos e imagens para a Terra através de um orbitador. Um orbitador pode transportar rádios ou antenas capazes de enviar mais dados do que um módulo à superfície. Mas a Odyssey tornou o processo rotineiro quando começou a transmitir dados de e para os rovers Spirit e Opportunity da NASA.
“Quando os rovers gémeos pousaram, o sucesso da retransmissão de dados usando a frequência UHF mudou o jogo completamente,” disse Chris Potts do JPL, gerente da missão Mars Odyssey.
Todos os dias, os rovers podiam ir a um lugar diferente e enviar imagens novas para a Terra. Por meio de um relé como a Odyssey, os cientistas obtiveram mais dados, mais cedo, enquanto o público obtinha mais imagens de Marte com que se entusiasmar. A Mars Odyssey já apoiou mais de 18.000 sessões de retransmissão. Atualmente, partilha a tarefa de comunicações com a MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) e com a MAVEN, juntamente com a TGO (Trace Gas Orbiter) da ESA.

Crédito: NASA/JPL-Caltech/ASU/NAU
Luas “coloridas”
A Mars Odyssey fez um trabalho tão completo de estudar a superfície marciana que os cientistas começaram a apontar a sua câmara THEMIS para obter vistas únicas das luas de Marte, Fobos e Deimos. Tal como acontece com a superfície marciana, o estudo da termofísica de cada lua ajuda os cientistas a determinar as propriedades dos materiais à superfície. Estas informações podem fornecer vislumbres do seu passado: não está claro se as luas são asteroides capturados ou pedaços de Marte, expelidos da superfície por um impacto antigo.
As missões futuras, como a MMX (Martian Moons eXploration) da JAXA (agência espacial japonesa), vão tentar pousar nestas luas. Num futuro distante, as missões poderão até criar aí bases para os astronautas. E se o fizerem, vão contar com os dados de um orbitador que começou a sua odisseia no início do milénio.
// NASA (comunicado de imprensa)
// Universidade Estatal do Arizona (comunicado de imprensa)
Saiba mais:
Marte:
Wikipedia
CCVAlg – Astronomia Centro Ciência Viva do Algarve – Astronomia