
Crédito: Colaboração EHT
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Alcançando o que antes era considerado impossível, uma equipa internacional de astrónomos capturou uma imagem da silhueta de um buraco negro. As evidências da presença de buracos negros – lugares misteriosos no espaço onde nada, nem mesmo a luz, pode escapar – já existem há algum tempo, e os astrónomos há muito que observam os efeitos destes fenómenos nos seus arredores. Na imaginação popular, pensava-se que a captura de uma imagem de um buraco negro era impossível porque uma imagem de algo a partir do qual nenhuma luz pode escapar pareceria completamente escura. Para os cientistas, o desafio era o modo como, a partir de milhares ou até milhões de anos-luz de distância, podiam capturar uma imagem do gás quente e brilhante que cai num buraco negro. Uma equipa ambiciosa e internacional de astrónomos e cientistas conseguiu realizar ambos. Trabalhando durante mais de uma década para alcançar o feito, a equipa aprimorou uma técnica de radioastronomia existente para imagens de alta resolução e usou-a para detetar a silhueta de um buraco negro – delineada pelo gás brilhante que rodeia o seu horizonte de eventos, o precipício além do qual a luz não pode escapar.
Como o fizeram
Embora os cientistas tivessem teorizado que podiam fotografar buracos negros capturando as suas silhuetas contra os seus arredores luminosos, a capacidade de observar um objeto tão distante ainda lhes escapava. Foi formada uma equipa para enfrentar o desafio, criando uma rede de telescópios conhecida como EHT (Event Horizon Telescope). Estabeleceram o objetivo de capturar uma imagem de um buraco negro, aprimorando a técnica que permite fotografar objetos muito distantes conhecida como VLBI (Very Long Baseline Interferometry).
Para ver objetos distantes são usados telescópios de todos os tipos. Quanto maior o diâmetro, ou abertura, do telescópio, maior a sua capacidade de recolher mais luz e maior a sua resolução (ou capacidade de observar detalhes finos). Para ver detalhes em objetos distantes e que parecem pequenos e escuros da Terra, precisamos de recolher a maior quantidade de luz possível com uma resolução muito alta, por isso precisamos de usar um telescópio com uma grande abertura.
Por isso é que a técnica VLBI foi essencial para captar a imagem do buraco negro. A técnica VLBI funciona criando um conjunto de telescópios mais pequenos que podem ser sincronizados para focar no mesmo objeto, ao mesmo tempo, e agir como um telescópio virtual gigante. Em alguns casos, os telescópios mais pequenos também são uma matriz de múltiplos telescópios. Esta técnica tem sido usada para rastrear naves espaciais e para fotografar fontes de rádio cósmicas e distantes como quasares.

Crédito: NRAO/AUI/NSF
A abertura de um telescópio virtual gigante como a do EHT é tão grande quanto a distância entre os dois telescópios mais afastados – para o EHT, essas duas estações estão no Polo Sul e na Espanha, criando uma abertura equivalente a quase o diâmetro da Terra. Cada telescópio concentra-se no alvo, neste caso o buraco negro, e recolhe dados a partir da sua posição na Terra, fornecendo uma porção da visão completa do EHT. Quantos mais telescópios no conjunto, amplamente espaçados, maior será a resolução da imagem.
Para testar a VLBI para fotografar um buraco negro e uma série de algoritmos de computador para classificar e sincronizar dados, a equipa do EHT decidiu ter dois alvos, cada um fornecendo desafios únicos.
O buraco negro supermassivo mais próximo da Terra, Sagitário A*, interessou a equipa porque está no nosso quintal galáctico – no centro da nossa Galáxia, a Via Láctea, a 26.000 anos-luz de distância (o asterisco é o padrão astronómico para denotar um buraco negro). Embora não seja o único buraco negro na nossa Galáxia, é o buraco negro que parece maior quando “visto” da Terra. Mas a sua localização, na mesma galáxia que a Terra, significava que a equipa tinha que observar através da “poluição” provocada por estrelas e poeira, o que significa que teriam mais dados para filtrar durante o processamento da imagem. No entanto, devido ao interesse do buraco negro local e ao seu tamanho relativamente grande, a equipa do EHT escolheu Sagitário A* como um dos seus dois alvos.
O segundo alvo foi o buraco negro supermassivo M87*. Um dos maiores buracos negros supermassivos conhecidos, M87* está localizado no centro da gigantesca galáxia elíptica Messier 87, ou M87, a 53 milhões de anos-luz de distância. Substancialmente mais massivo do que Sagitário A*, que contém 4 milhões de massas solares, M87* contém o equivalente a 6,5 mil milhões de massas solares. Uma massa solar é equivalente à massa do nosso Sol, aproximadamente 2×10^30 kg. Além do seu tamanho, M87* interessa aos cientistas porque, ao contrário de Sagitário A*, é um buraco negro ativo, com matéria a cair e a ser expelida na forma de jatos de partículas que são aceleradas a velocidades próximas da velocidade da luz. Mas a sua distância tornouah-o um desafio ainda maior do que a captura do relativamente local, Sagitário A*. Como descrito por Katie Bouman, cientista de computação do EHT que liderou o desenvolvimento de um dos algoritmos usados para classificar os dados do telescópio durante o processamento da imagem histórica, é semelhante a capturar uma imagem de uma laranja na superfície da Lua.

Crédito: NASA/CXC/Universidade de Villanova/J. Neilsen
Em 2017, o EHT era uma colaboração de oito observatórios espalhados pelo mundo – e desde então mais foram adicionados. Antes que a equipa pudesse começar a recolher dados, tiveram que encontrar um horário em que o clima fosse propício para a observação telescópica em todos os locais. Para M87*, a equipa tentou ter bom tempo em abril de 2017 e, dos 10 dias escolhidos para observação, quatro dias foram limpos o suficiente em todos os oito locais!
Cada telescópio usado no EHT tinha que estar altamente sincronizado com os outros, recorrendo a um relógio atómico. Este elevado grau de precisão torna o EHT capaz de resolver objetos cerca de 4000 vezes melhor que o Telescópio Espacial Hubble. À medida que cada telescópio recolhia dados do buraco negro alvo, os dados digitais e o registo do tempo eram gravados em dispositivos de armazenamento de computador. A recolha de dados durante os quatro dias, em todo o mundo, deu à equipa uma quantidade substancial de dados para processar. Os dados foram transportados fisicamente para um local central porque a sua quantidade, aproximadamente 5 petabytes, excede o que as velocidades atuais da Internet podem suportar. Nesta localização central, os dados de todos os oito observatórios foram sincronizados usando os tempos e combinados para produzir um conjunto composto de imagens, revelando a silhueta nunca antes vista do horizonte de eventos de M87*. A equipa também está a trabalhar na produção de uma imagem de Sagitário A*, a partir de observações adicionais feitas pelo EHT.
À medida que mais telescópios são adicionados e a rotação da Terra é incluída, mais da imagem pode ser resolvida e podemos esperar que as imagens futuras tenham uma resolução mais alta. Mas talvez nunca tenhamos uma visão completa.

Crédito: NASA e Equipa do Arquivo Hubble (STScI/AURA)
Para complementar os achados do EHT, várias naves da NASA fizeram parte de um grande esforço para observar o buraco negro usando diferentes comprimentos de onda. Desse esforço fizeram parte o Observatório de raios-X Chandra, o NuSTAR (Nuclear Spectroscopic Telescope Array) e o Observatório Neil Gehrels Swift – todos construídos para detetar diferentes variedades de raios-X -, que apontaram para o buraco negro de M87 mais ou menos ao mesmo tempo que o EHT em abril de 2017. O Telescópio Espacial de Raios-Gama Fermi da NASA também estava atento a mudanças nos raios-gama de M87* durante as observações do EHT. Se o EHT observasse mudanças na estrutura do ambiente do buraco negro, os dados destas missões e de outros telescópios podiam ser usados para ajudar a descobrir o que estava a acontecer.
Embora as observações da NASA não tenham traçado diretamente a imagem histórica, os astrónomos usaram dados do Chandra e do NuSTAR para medir o brilho de raios-X do jato de M87*. Os cientistas usaram essa informação para comparar os seus modelos do jato e do disco em torno do buraco negro com as observações do EHT. Podem surgir outras ideias à medida que os investigadores continuam a debruçar-se sobre estes dados.
Porque é importante
Aprender mais sobre estruturas misteriosas no Universo fornece uma visão mais detalhada da física e permite-nos testar métodos de observação e teorias, como a teoria da relatividade geral de Einstein. Os objetos massivos deformam o espaço-tempo na sua vizinhança e, embora a teoria da relatividade geral tenha sido diretamente comprovada para objetos de massa menor, como a Terra e o Sol, a teoria ainda não tinha sido provada diretamente para buracos negros e para outras regiões contendo matéria densa.
Um dos principais resultados do projeto de imagem de um buraco negro, pelo EHT, é um cálculo mais direto da massa de um buraco negro. Usando o EHT, os cientistas foram capazes de observar e medir diretamente o raio do horizonte de eventos de M87*, ou o seu raio de Schwarzschild, e determinar a massa do buraco negro. Essa estimativa está próxima da derivada com um método que usa o movimento de estrelas em órbita – validando-o como um método de estimativa de massa.
O tamanho e a forma de um buraco negro, que depende da sua massa e rotação, podem ser previstos a partir das equações da relatividade geral. A relatividade geral prevê que esta silhueta seja aproximadamente circular, mas outras teorias da gravidade previam formas ligeiramente diferentes. A imagem de M87* mostra uma silhueta circular, conferindo assim credibilidade à teoria da relatividade geral de Einstein perto dos buracos negros.

Crédito: ESO
Os dados também fornecem algumas informações sobre a formação e sobre o comportamento da estrutura dos buracos negros, como o disco de acreção que alimenta o buraco negro com material e os jatos de plasma emanados do seu centro. Os cientistas levantaram a hipótese de como um disco de acreção se forma, mas nunca tinham sido capazes, até agora, de testar as suas teorias com observação direta. Os cientistas também estão curiosos sobre o mecanismo pelo qual alguns buracos negros supermassivos emitem enormes jatos de partículas que viajam quase à velocidade da luz.
Esta e outras perguntas serão respondidas à medida que mais dados forem adquiridos pelo EHT e sintetizados em algoritmos de computador. Esteja atento(a) à próxima imagem esperada de um buraco negro – Sagitário A*, na nossa Via Láctea.
// NASA/JPL (“teachable moments”)
// Problemas matemáticos sobre buracos negros (NASA)
Saiba mais:
Buraco negro supermassivo de M87:
Wikipedia
Sagitário A*:
Wikipedia
Buraco negro supermassivo:
Wikipedia
EHT (Event Horizon Telescope):
Página oficial
Wikipedia
CCVAlg – Astronomia Centro Ciência Viva do Algarve – Astronomia