Para lá do “Impacto”: possíveis alvos

O encontro da sonda Deep Impact com um cometa no próximo dia 4 de Julho pode não ser o seu único. Os cientistas estão neste momento a estudar outros alvos potenciais depois da nave completar a sua dramática missão no Cometa Tempel 1.

O objectivo principal da Deep Impact é criar fogos-de-artifício celestes na manhã de Segunda-feira. Um veículo “flyby” irá libertar uma sonda para o encontro. Esta colidirá com o cometa. Espera-se que a energia cinética do impacto crie uma cratera com o tamanho de um campo de futebol e que liberte material do núcleo do cometa para o espaço.

A algumas centenas de quilómetros de distância, a sonda-mãe usará os seus telescópios, câmaras e espectómetros para monitorizar o impacto, num esforço de estudar o que se encontra por baixo da superfície gelada do cometa.

Impressão de artista da libertação da sonda de impacto a partir da “Deep Impact”, 24 horas antes da colisão.
Crédito: NASA/JPL

Posteriormente, a Deep Impact poderá ter um novo cometa como alvo.

“Temos estado a trabalhar numa missão mais extensa,” disse Monte Henderson, Vice-Director de Programas dos Sistemas Civis Espaciais para a Ball Aerospace & Technologies. A companhia desenhou e construíu as duas partes da sonda especificamente para a missão Deep Impact.

Dependendo do estado de saúde da sonda depois do seu estudo do cometa Tempel 1, será feita uma decisão de a enviar (ou não) numa viagem de 3.5 anos até ao Cometa Boethin.

Este cometa orbita o Sol a cada 11 anos. Foi descoberto a 4 de Janeiro de 1975 durante uma sessão de procura de cometas rotineira levada a cabo pelo falecido Reverendo Leo Boethin das Filipinas.

Henderson afirma que, pouco tempo depois da colisão da Deep Impact com o Cometa Tempel 1, os engenheiros correrão testes de diagnósticos na sonda. Será dada particular atenção à quantidade de detritos e poeira libertada pelo cometa que terá atingido a sonda.

Permanecerão os instrumentos a bordo da nave em bom estado? Ou estarão as suas ópticas «sujas»?

A sonda “flyby” — quase do tamanho de um automóvel Carocha — transporta dois dos três instrumentos primários, o Instrumento de Alta Resolução (HRI), e o Instrumento de Média Resolução (MRI), para imagens, espectroscopia infravermelha e navegação óptica.

A protecção dos detritos é uma parte importante do desenho da sonda.

À medida que a sonda passa pela cabeleira interior do Cometa Tempel 1, fica em perigo de ser atingida por pequenas partículas que poderão danificar os sistemas de controlo, imagem e comunicações.

Para minimizar estes danos potenciais, a sonda roda sobre si própria antes de passar pela cabeleira. De um lado da sonda, existe um escudo que, espera-se, a proteja completamente dos detritos.

“Depois do encontro, faremos testes à sonda rasante,” disse Henderson. Se os testes saírem positivos, uma boa porção do combustível que resta no veículo será usado para o pôr a caminho do cometa Boethin. A manobra de redireccionamento terá obrigatoriamente que acontecer algures antes do dia 24 de Julho, afirma.

“Se os instrumentos científicos a bordo não estiverem em bom estado, provavelmente não iremos gastar todo o combustível. Seria mais prudente voltar atrás e repensar no que poderemos então fazer”.

Se a sonda estiver bem de saúde, existe também uma discussão no JPL (Jet Propulsion Laboratory) em Pasadena, Califórnia, de experimentar o software de navegação autónoma, disse Henderson.

Em adição, o investigador principal da Deep Impact, Michael A’Hearn, da Universidade de Maryland, também está a considerar o pedido de propostas à comunidade científica. Todas as ideias serão bem-vindas, afirma Henderson, no que respeita a outras observações que poderão ser feitas com a sonda-mãe no caminho até ao Cometa Boethin.

Henderson admitiu que tem sido difícil focar numa missão prolongada. Existem muitos desafios à frente do encontro da dupla sonda com o Cometa Tempel 1.

Talvez o maior desafio da missão Deep Impact seja a autonomia da sonda de colisão. “Temos conseguido testá-la via umbilical através da sonda “flyby”… mas esta nunca voou sozinha.”

Existe ainda a questão do telescópio de alta resolução a bordo da sonda rasante. É o maior telescópio a viajar no espaço profundo e registará os detalhes da colisão – mas tem um problema.

O telescópio de alta resolução da Deep Impact sofre de “anomalias” no foco, explicou Henderson. “Foi um acidente de engenharia e é mesmo um azar.”

Após o lançamento, os engenheiros da Deep Impact descobriram que um ponto de referência liso usado para calibrar o espelho do telescópio de alta resolução na Terra não representa com precisão o que as temperaturas frias do espaço poderão causar à lente. “Depois de muita análise com esse espelho… basicamente redefinimos o que significa «liso» para os telescópios de alta resolução”.

Tudo isto soa bem familiar, basta pensar no Telescópio Hubble. Inicialmente também estava mal focado. Eventualmente o observatório espacial recebeu ópticas correctivas graças a uma missão de reparação. Para a Deep Impact, não existe nenhuma hipótese de receber este tipo de ajuda.

No entanto, cientistas do Instituto Científico do Telescópio Espacial Hubble, tinham algoritmos computacionais – uma maneira de “desembaciar” e intensificar as imagens da Deep Impact usando uma técnica chamada deconvolução.

Henderson disse que através deste processo, as imagens da Deep Impact podem ser “massajadas e alteradas” cá na Terra de modo a ultrapassar o problema de focagem.

E à medida que a missão Deep Impact de 333 milhões de dólares se aproxima da sua presa, a equipa científica está pronta para a acção.

“Fizémos tudo ao nosso alcance para estarmos preparados para o que der e vier,” concluiu Henderson. “Este é um evento único e excitante”.

Links:

Notícias relacionadas:
http://www.nasa.gov/mission_pages/deepimpact/media/deepimpact-observers-062905.html
http://www.universetoday.com/am/publish/burst_tempel_1.html?2962005
http://dailytelegraph.news.com.au/story.jsp?sectionid=1260&storyid=3369537
http://news.bbc.co.uk/cbbcnews/hi/newsid_4630000/newsid_4637200/4637215.stm
http://www.space.com/businesstechnology/050630_deep_impact_CDs.html
http://www.space.com/scienceastronomy/050628_deepimpact_effect.html

Animação computacional do encontro da Deep Impact com o Tempel 1 (76 MB, Quicktime):
http://www.ballaerospace.com/di_movie.mov

Deep Impact:
http://deepimpact.jpl.nasa.gov/home/index.html
http://www.nasa.gov/mission_pages/deepimpact/main/index.html?skipIntro=1
http://www.nasa.gov/externalflash/deepimpact_flash/index.html

Sobre Miguel Montes

Veja também

Hubble encontra pistas de um planeta de segunda geração

Dados de arquivo do Hubble revelaram indícios de um possível planeta de segunda geração no sistema da anã branca HS 0209+0832. A elevada abundância de nióbio sugere que o planeta se formou a partir de material expelido pela estrela durante a sua morte, em vez de ter nascido com ela, oferecendo pistas sobre uma possível segunda geração de sistemas planetários.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *