O Triângulo de Verão

O Verão começou oficialmente às 07:46 de 21 de Junho. E à medida que escurece esta semana, o famoso “Triângulo de Verão” pode ser encontrado baixo no céu a Este.

Este grande, quase isósceles triângulo é composto por três das mais brilhantes estrelas do céu, cada uma a estrela mais brilhante da sua própria constelação.

O Triângulo de Verão.
Crédito: T. Credner & S. Kohle, AlltheSky.com

Começamos pela azul-esbranquiçada Vega (a estrela de onde saíam os sinais de rádio extraterrestres do livro de Carl Sagan, mais tarde passado para filme, “Contacto”), em Lira. É a quinta estrela mais brilhante do céu, bastante próxima de nós, a 26 anos-luz de distância. O seu tempo de vida será de apenas mil milhões de anos, um décimo da vida do Sol. É duas vezes e meia massiva que o Sol e cinquenta vezes mais energética. Nos anos 80 descobriu-se que à sua volta existe um disco de poeira e gás, indicando a provável existência de planetas ou pelo menos as condições para a sua formação. Por volta do ano 14,000, Vega será a Estrela Polar, devido à precessão dos equinócios. Foi, em 1850, a primeira estrela a ser fotografada, e em 1872, a primeira a ter o seu espectro analisado.

Seguidamente temos a branca-amarelada Altaír em Águia. A 17 anos-luz da Terra, é uma das mais próximas estrelas visíveis a olho nu. O nome “Altaír” vem do árabe “águia voadora”. Tem uma rotação bem rápida; o seu equador completa uma rotação em apenas seis horas e meia. O nosso Sol, por exemplo, demora pouco mais que 26. Devido a este efeito, a estrela é achatada nos pólos: o seu diâmetro equatorial é pelo menos 14% maior que o seu diâmetro polar.

Finalmente, a branca Deneb em Cisne. Com uma magnitude absoluta de -7.2, é uma das estrelas mais luminosas conhecidas. É ainda incerta a sua distância. Várias fontes dizem que se situa entre os 1,600 e os 3,200 anos-luz. O número exacto é difícil de calcular porque estrelas a essas distâncias têm uma paralaxe quase inexistente. Estimativas da luminosidade de Deneb variam entre as 60,000 vezes o brilho do Sol (se a 1,600 anos-luz) e 250,000 vezes (se a 3,200 anos-luz). Se Deneb fosse um ponto de luz à distância do Sol, seria bem mais brilhante que a maioria dos lasers industriais; gera mais luz num dia que o Sol em 140 anos. O seu diâmetro deverá ser entre 200 ou 300 vezes o do Sol: se estivesse no seu lugar, Deneb alcançaria a órbita da Terra.

O Triângulo de Verão é uma das partes favoritas do céu para a maioria dos observadores, talvez devido à sua simplicidade em contraste com a grande abundância de estrelas brilhantes presentes no céu de Inverno. Se está só agora a começar na Astronomia, e especialmente se procura as primeiras estrelas a poderem ser observadas mesmo depois do pôr-do-Sol durante as próximas semanas, não é provável confundir o Triângulo de Verão com qualquer outra coisa.

E, dado que esta área do céu está bem afastada do Zodíaco, por onde os brilhantes planetas vagueiam, não tem estranhas “estrelas” temporariamente a alterar o seu padrão familiar, tal como Saturno tem feito a Gémeos nos últimos dois anos.

Se tiver a sorte de se poder deslocar para um local escuro numa noite limpa e sem Lua, verá a grande mancha estrelada conhecida como a Estrada de S. Tiago, ou simplesmente Via Láctea, passando por entre Vega e Altaír, Deneb saltando à vista no meio deste rio de estrela que cruza os nossos céus. Embora todas as estrelas que vejamos no céu pertençam à nossa Via Láctea, este termo refere-se à zona mais brilhante do disco galáctico, onde inúmeros Sóis congregam numa corrente enevoada de estrelas.

Depois de aprender a observar o Triângulo de Verão (e suas respectivas constelações), porque não seguir o caminho lácteo para Sudeste, e observar com binóculos os inúmeros objectos presentes no centro da nossa Galáxia, por entre as constelações de Sagitário e Escorpião? Nestas noites quentes de Verão, o céu está a nosso favor e é sempre uma delícia perdermo-nos por entre nebulosas e enxames, na praia, no campo, ou se tiver de ser, até na cidade.

Sobre Miguel Montes

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