O cone da brisa de hélio. Crédito: NASA

Uma brisa das estrelas

No início de cada mês de Dezembro ocorre um fenómeno que deixa os horóscopos completamente desorganizados. O Sol entra na pouco conhecida 13.ª casa do zodíaco.

Toda a gente conhece Capricórnio, Aquário, Peixes, Carneiro, Touro, Gémeos, Caranguejo, Leão, Virgem, Balança, Escorpião e Sagitário. O Sol faz um movimento aparente através destas constelações que recebem o nome de constelações zodiacais e que numa fase pré-científica inspiraram a origem dos signos do zodíaco.

E Ofiúco ?

De acordo com os modernos mapas estelares o Sol atravessa uma 13.ª constelação, chamada Ofiúco o Serpentário, entre 30 de Novembro e 17 de Dezembro. Em termos astrológicos, uma pessoa nascida entre essas datas, em vez de ser um Sagitário, devia ser um Ofiúco. Mas isso é outra história…

Esta notícia é sobre o que realmente acontece quando o nosso Sol no seu movimento aparente se encontra na direcção de Ofiúco. Nessa altura, um vento interestelar atinge o nosso planeta.

Trata-se de uma brisa rica em hélio que flui para o sistema solar a partir da direcção de Ofiúco. Ao passar pelo Sol esta brisa é afunilada num cone pela gravidade do Sol. Nesta altura do ano a Terra passa precisamente pelo cone e é onde nos encontramos agora.

“Não existe qualquer perigo para a Terra”, diz o astrofísico George Gloeckler da Universidade de Maryland. “A Brisa de Hélio é um mil triliões de vezes menos densa que a atmosfera da Terra (10-21 atm) e não consegue penetrá-la até à superfície do nosso planeta.”

Apesar disso os astrónomos estão muito interessados em estudá-la.

Esta brisa é um indicador daquilo que está para além do nosso sistema solar. O espaço interestelar, a via entre as estrelas, não se encontra vazio. Está preenchido com gigantescas nuvens de gás e poeiras. Estas nuvens são o local de nascimento de estrelas e planetas. São também restos de estrelas que já morreram. O Sol encontra-se neste momento em viagem à volta da Via Láctea em direcção a um local que é chamado de Nuvem Interestelar Local.O campo magnético do Sol detém muito do choque com a nuvem mas algum do gás da nuvem penetra no sistema solar, daí a origem da brisa.

O satélite ACE (Advanced Composition Explorer) da NASA, localizado no primeiro ponto de Lagrange entre a Terra e o Sol está situado de forma perfeita para estudar esta brisa. “Quando a Terra se move através do cone também o ACE acompanha esse movimento” explica Gloeckler, que é um dos co-investigadores responsáveis pelo ACE. “Já atravessámos o cone sete vezes desde que o satélite foi lançado em 1997.”

A missão do ACE é estudar o vento solar que emana da nossa própria estrela, por isso está bem equipado com detectores apropriados para estudar também a brisa interestelar. Um instrumento a bordo do ACE chamado SWICS detecta iões hélio na brisa, medindo a densidade, temperatura e direcção do fluxo. Usando estes dados em conjugação com os das missões SOHO e Ulisses, Gloeker e os seus colegas calcularam algumas das propriedades da Nuvem Interestelar Local.

É uma nuvem quente com gás a 6000º C, aproximadamente a mesma temperatura que o Sol à superfície. É também bastante ténue com apenas 0.264 átomos por centímetro cúbico (já foram detectadas nuvens interestelares com 1000 partículas por centímetro cúbico). O campo magnético do Sol tem pouco trabalho para deflectir este material antes que atravesse a órbita de Plutão. Apenas uma fracção mínima de partículas (0,015 átomos por centímetro cúbico atinge as regiões mais interiores do sistema solar).

O ACE já detectou variações da intensidade da brisa de hélio. No entanto, Gloekler admite ser mais provável tratarem-se de variações devidas ao próprio vento solar que sendo muito mais intenso pode provocar alterações de direcção e intesidade na brisa de hélio. Também as tempestades solares poderão provocar alterações pois a radiação ultravioleta emitida pode ionizar o hélio alterando a sua forma de detecção o que impedirá instrumentos como o SWICS de a “ver”. A influência do vento solar na brisa de hélio é precisamente aquilo que neste momento se pretende saber, para poder usar estes dados em ordem a ter uma perfeita noção da estrutura do meio interestelar.

O que estará lá? A resposta reside na brisa vinda da 13ª casa do zodíaco.

Sobre Miguel Montes

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