O remanescente de supernova Tycho. Crédito: NASA/CXC/Rutgers/J. Warren & J. Hughes et al.

Pesquisa de 432 anos dá resultado

O astrónomo dinamarquês Tycho Brahe avistou uma nova estrela no céu a 11 de Novembro de 1572, e desde aí os astrónomos têm tentado encontrá-la para saber exactamente o que aconteceu. O caso parece ter sido resolvido a semana passada.

Foi descoberta uma estrela que se afasta da cena explosiva. Movimenta-se pelo espaço três vezes mais depressa que as outras na sua vizinhança, uma prova irrefutável que foi disparada como uma bola de canhão desde o local da supernova.

A supernova de Tycho, como é chamada, foi um dos eventos mais importantes da Ciência, usado para refutar as visões seculares de Aristóteles de que os céus eram estáticos.

Os astrónomos pensam que uma estrela velha, quente e densa chamada anã branca estava a puxar imenso material de uma estrela companheira normal. A anã branca condensou-se, dando início a uma explosão termonuclear cujo brilho temporariamente excedeu mil milhões de Sóis.

A companheira foi atingida pela explosão e atirada num novo percurso em relação à sua órbita anterior.

A luz visível diminui com o tempo, mas a região ainda emite intensos raios-X e ondas de rádio, tal como uma bolha de matéria em expansão colidindo com o gás interestelar. Há muito tempo que os astrónomos a estudam na esperança de aprender se o cenário que utilizam para descrever o cataclismo é preciso ou não.

Uma equipa liderada por Pilar Ruiz-Lapuente da Universidade de Barcelona encontrou os restos algo gastos da companheira. O seu caminho, velocidade e o facto de não estar longe do centro da explosão, sugerem que esteve na realidade envolvida na supernova.

“A estrela salta à vista,” diz Ruiz-Lapuente. “Tem uma velocidade muito maior do que as [outras] estrelas nesse local.”

O evento está a cerca de 10,000 anos-luz da Terra. Um ano-luz é a distância que a luz percorre num ano, mais ou menos 10 biliões de quilómetros. Por isso a explosão ocorreu há cerca de 10,432 anos atrás, e a sua luz primeiramente alcançou os olhos de Tycho há 432 anos.

O novo estudo baseou-se em dados do Telescópio Espacial Hubble e de outros observatórios. O achado foi explicado na semana passada na revista Nature.

Esta descoberta irá ajudar os cientistas a melhor entender as condições sob as quais um certo tipo de explosão estelar ocorre. Alguns astrónomos sugeriram que as supernovas tipo 1a — a variedade aparentemente observada por Tycho Brahe — podem ser o resultado de colisões estelares entre duas anãs brancas, em vez da teoria da transferência de massa.

“Se aceitarmos que a companheira foi identificada, então agora sabemos pela primeira vez que nem todas as supernovas tipo-Ia são produzidas pela coalescência das anãs brancas,” escreve o físico David Branch da Universidade de Oklahoma numa análise do trabalho publicado na revista.

Tudo isto é importante em parte porque as supernovas tipo 1a são raras na nossa galáxia mas comuns no Universo como um todo. Todas elas alcançam um brilho máximo idêntico, e extinguem-se numa proporção quase igual. Por isso os astrónomos usam-nas como “velas padrão” para medir a distância de galáxias distantes.

No final dos anos 90, estudos destas supernovas revelaram que o Universo está misteriosamente a expandir a um ritmo acelerado. Uma força desconhecida, chamada energia escura, pensa-se que esteja por trás da expansão.

“Estas profundas implicações cosmológicas são a motivação dos astrónomos para melhor perceber esta classe de supernova,” diz Branch.

Com os avanços tecnológicos dos telescópios, os astrónomos caçam as supernovas cada vez mais longe no espaço e no tempo, num esforço de saber com mais detalhes as propridades da energia escura, um primeiro passo crucial para a sua percepção.

Os astrónomos dizem que em média aparece uma supernova a cada 100 anos numa galáxia parecida à Via Láctea. Uma outra, com o nome do astrónomo alemão Johannes Kepler alemão, apareceu em 1604. Mas desde aí mais nenhuma foi encontrada. A supernova vizinha mais recente, de nome 1987A, foi descoberta em 1987 no nosso vizinho galáctico, a Grande Nuvem de Magalhães.

Sobre Miguel Montes

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