NASA conclui que micróbios associados ao ser humano podem sobreviver no polo sul da Lua

Esta imagem foi captada por um astronauta da missão Artemis II a partir da cápsula Orion, em abril de 2026, enquanto a nave espacial passava pela Lua e regressava ao longo de 10 dias. A Lua, de cor cinzenta-acastanhada e repleta de crateras, domina o enquadramento contra o fundo escuro do espaço, com a Terra, num crescente parcialmente iluminado, a pôr-se por trás da sua extremidade superior esquerda.
Crédito: NASA

Cientistas da NASA dizem que alguns dos micróbios da Terra que possam vir a viajar para o espaço com os exploradores humanos talvez consigam sobreviver nos recantos e fendas à sombra da região do polo sul da Lua.

Publicadas dia 19 de agosto na revista Science Advances, estas descobertas destacam a necessidade de compreender melhor a persistência microbiana em ambientes lunares extremos. À medida que os seres humanos estabelecem uma presença permanente na Lua, poderá tornar-se difícil distinguir a química lunar ancestral da contaminação trazida pelos astronautas visitantes. A preocupação estende-se para além da Lua e chega até Marte, afirmam os cientistas.

“Os seres humanos são exploradores por natureza e, com eles, vêm as suas vozes, as suas memórias… e os seus micróbios”, afirmou Prabal Saxena, cientista planetário que liderou o estudo no Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, em Greenbelt, Maryland, EUA. “Para alguns cientistas, incluindo eu próprio, essa realidade pode ser inquietante. Mas também cria uma oportunidade para transformar uma situação imperfeita numa experiência útil”.

É inevitável levar micróbios connosco: os seres humanos têm, em média, 1 milhão de bactérias a viver em cada área de pele do tamanho das pequenas borrachas na outra extremidade de um lápis, por exemplo. Estas bactérias escapam pelos fatos espaciais e pelos habitats. Embora os autores do artigo científico se preocupem com a possibilidade de a contaminação interferir na procura de pistas químicas de geologia ou biologia antigas, defendem também que a Lua deve ser utilizada como um laboratório natural. Nas áreas à sombra em torno do polo sul, os cientistas podiam testar cuidadosamente os limites reais da sobrevivência microbiana num ambiente que não pode ser facilmente reproduzido na Terra.

O programa Apollo levou seis pares de astronautas à Lua entre 1969 e 1972. Todos os seis locais de aterragem situam-se perto do equador lunar. Nesta visualização, os locais das missões Apollo são comparados com o polo sul, uma área com enorme potencial para futuras explorações. O tempo passa à medida que nos aproximamos da cratera Shackleton, no polo sul, revelando condições de iluminação bastante diferentes das que se verificam perto do equador. Enquanto muitas crateras permanecem permanentemente à sombra, algumas montanhas e cordilheiras próximas estão sob luz solar constante, tornando-as candidatas atraentes para a energia solar e a habitação a longo prazo.
Crédito: NASA/Ernie Wright

Os autores afirmam que antes de qualquer investigação científica na superfície poder ter lugar, os cientistas precisam de uma medição de referência dos contaminantes que os humanos trazem.

“Precisamos de compreender o que lá estava antes de nós, porque quando formos a Marte à procura de sinais de vida para além do nosso planeta, vamos querer ter a certeza de que não se trata de coisas que nós levámos”, afirmou Andrew Needham, coautor do artigo científico, do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA e cientista responsável pelo controlo de contaminação do programa Artemis para amostras lunares.

Mesmo com procedimentos rigorosos de esterilização, alguns organismos revelam-se obstinadamente resistentes. Um bom exemplo é o fungo Aspergillus niger, que prospera em locais quentes e húmidos, como casas de banho domésticas e sistemas de aquecimento, ventilação e ar condicionado. Os astronautas recolheram amostras deste fungo no interior da Estação Espacial Internacional, e as experiências demonstram que o fungo também consegue sobreviver no exterior da estação. O Aspergillus niger foi um dos cinco micróbios, incluindo bactérias e fungos, selecionados para este estudo devido à sua conhecida resistência em ambientes de voos espaciais.

De acordo com Aaron Regberg, geomicrobiologista do Centro Espacial Johnson da NASA em Houston, o facto de os micróbios terem sobrevivido no exterior da estação espacial surpreendeu os cientistas. Estas espécies não são normalmente consideradas “extremófilos” capazes de suportar condições adversas, como o vácuo do espaço.

“Eu teria esperado que estes micróbios não tivessem resistido”, afirmou Regberg, que estuda as bactérias da estação espacial e foi coautor do artigo científico.

A astronauta da NASA, Kate Rubins, no dia 14 de outubro de 2016, a recolher micróbios no Módulo de Experiências Japonês a bordo da Estação Espacial Internacional.
Crédito: JAXA/Takuya Onishi

Ele salientou que a NASA costuma submeter as naves espaciais robóticas a temperaturas superiores a 200º C para reduzir o número de organismos vivos nelas presentes. Mas isso não é possível com os astronautas, pelo que as preocupações com a contaminação assumem um novo significado na exploração tripulada do ambiente do polo sul da Lua.

Para se ter uma ideia mais clara de onde os micróbios poderão sobreviver, é necessário compreender como a luz solar se comporta nos polos. Neste estudo, “sobrevivência” significa que o micróbio consegue manter-se vivo durante, pelo menos, um dia terrestre, o que não implica que consiga crescer e reproduzir-se.

Como a Lua tem uma inclinação muito pequena do seu eixo, a vista a partir dos seus polos é a de um Sol que parece pairar logo acima do horizonte, roçando a superfície como uma lanterna pousada sobre uma mesa. Consequentemente, partes elevadas da superfície, incluindo cristas de crateras, montanhas e até mesmo pequenas saliências, impedem que a luz alcance os terrenos mais baixos. Isto cria zonas de sombra que podem permanecer frias e preservar a água, bem como proteger moléculas frágeis e possíveis microrganismos da radiação letal.

Tendo em conta este contexto científico, a equipa decidiu testar quais os microrganismos terrestres capazes de sobreviver a condições polares extremas. Concentraram-se em organismos frequentemente encontrados em ambientes de voos espaciais e naqueles comuns na pele humana. Além do Aspergillus niger, estes incluíam o Bacillus subtilis, o Staphylococcus aureus, o Deinococcus radiodurans e várias espécies de Fusarium. Com base numa análise de estudos anteriores, os cientistas identificaram a quantidade máxima de calor e radiação ultravioleta (UV) que cada organismo consegue suportar.

Em seguida, os organismos foram testados em simulações de três regiões próximas do polo sul lunar – na borda da cratera Nobile, numa crista que liga as crateras Shackleton e De Gerlache e na borda da cratera De Gerlache. Essas simulações utilizaram mapas ambientais detalhados, elaborados a partir de dados de altitude e temperatura recolhidos por instrumentos a bordo da LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter) da NASA, combinados com modelos que simulam a forma como a radiação incide sobre a superfície.

Os modelos mostraram mapas de “nichos de sobrevivência” cujo tamanho varia desde o fundo de uma cratera com quilómetros de largura até à pegada da bota de um astronauta. O fungo Aspergillus niger, que se revelou o mais resistente à radiação UV, conseguiu sobreviver mesmo em áreas com alguma exposição à luz solar. A radiação UV é tão letal para a maioria dos micróbios que é utilizada para esterilização em hospitais.

“Quando pensamos na Lua, normalmente não pensamos em biologia”, afirmou Heather Graham, coautora do artigo científico no Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, que ajuda a desenvolver ferramentas e técnicas para detetar formas de vida que podem não se assemelhar em nada às da Terra. “Mas a Lua é um local onde uma célula pode sobreviver, pelo que a nossa primeira exploração destes lugares deve prestar especial atenção aos nossos ‘passageiros clandestinos’ microbianos e trabalhar arduamente para caracterizar a química lunar antes que as nossas visitas alterem o que iremos encontrar”.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Science Advances)

Saiba mais:

Lua:
Wikipedia
Polo sul (Wikipedia)
Cratera Nobile (Wikipedia)
Cratera Shackleton (Wikipedia)
Cratera De Gerlache (Wikipedia)

Aspergillus niger:
Wikipedia

Bacillus subtilis:
Wikipedia

Staphylococcus aureus:
Wikipedia

Deinococcus radiodurans:
Wikipedia

Fusarium:
Wikipedia

LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter):
NASA
Wikipedia

Sobre Miguel Montes

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