Úrano é mais quente do que se pensava

Esta imagem ampliada de Úrano, capturada pelo Telescópio Espacial James Webb da NASA a 6 de fevereiro de 2023, revela uma vista deslumbrante dos anéis de Úrano.
Crédito: NASA, ESA, CSA, STScI

Durante milénios, os astrónomos pensaram que Úrano não era mais do que uma estrela distante. Só no final do século XVIII é que Úrano foi universalmente aceite como um planeta. Ainda hoje, este mundo azul e com anéis subverte as expetativas dos cientistas, mas uma nova investigação da NASA ajuda a esclarecer alguma da mística do planeta.

Úrano é diferente de qualquer outro planeta do nosso Sistema Solar. Gira de lado, o que significa que cada polo está diretamente virado para o Sol durante um “verão” contínuo de 42 anos. Úrano também gira na direção oposta à de todos os planetas, exceto Vénus. Os dados do “flyby” da Voyager 2 da NASA por Úrano, em 1986, também sugerem que o planeta é invulgarmente frio no seu interior, desafiando os cientistas a reconsiderar as teorias fundamentais de como os planetas se formaram e evoluíram no nosso Sistema Solar.

“Desde o ‘flyby’ da Voyager 2, todos têm dito que Úrano não tem calor interno”, disse Amy Simon, cientista planetária do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland. “Mas tem sido muito difícil explicar porque é que isso acontece, especialmente quando comparado com os outros planetas gigantes”.

Estas projeções de Úrano foram feitas a partir de uma única medição de perto do calor emitido pelo planeta, feita pela Voyager 2: “Tudo depende desse único ponto de dados”, disse Simon. “Isso é parte do problema”.

Agora, usando uma técnica avançada de modelação por computador e revisitando décadas de dados, Simon e uma equipa de cientistas descobriram que Úrano gera, de facto, algum calor, como relataram a 16 de maio na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

O calor interno de um planeta pode ser calculado comparando a quantidade de energia que recebe do Sol com a quantidade de energia que liberta para o espaço sob a forma de luz refletida e calor emitido. Os outros planetas gigantes do Sistema Solar – Saturno, Júpiter e Neptuno – emitem mais calor do que o que recebem, o que significa que o calor extra vem do interior, em grande parte devido aos processos altamente energéticos que formaram os planetas há 4,5 mil milhões de anos. A quantidade de calor que um planeta emana pode ser uma indicação da sua idade: quanto menos calor libertado em relação ao calor absorvido do Sol, mais velho é o planeta.

Úrano destacava-se dos outros planetas porque parecia libertar tanto calor como o que recebia, o que implicava que não tinha calor próprio. Este facto intrigou os cientistas. Alguns levantaram a hipótese de que talvez o planeta seja muito mais velho do que todos os outros e tenha arrefecido completamente. Outros propuseram que uma colisão gigantesca – a mesma que pode ter colocado o planeta de lado – teria libertado todo o calor de Úrano. Mas nenhuma destas hipóteses satisfez os cientistas, motivando-os a resolver o caso parado de Úrano.

Estas imagens lado a lado de Úrano, tiradas com oito anos de intervalo pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA, mostram mudanças sazonais na refletividade do planeta. A imagem da esquerda mostra o planeta sete anos após o equinócio da primavera, quando o Sol brilhava mesmo acima do seu equador. A segunda fotografia, tirada seis anos antes do solstício de verão do planeta, mostra uma grande e brilhante calote polar norte.
Crédito: NASA, ESA, STScI, A. Simon (Centro de Voo Espacial Goddard da NASA), M. H. Wong (Universidade da Califórnia em Berkeley), J. DePasquale (STScI)

“Pensámos: ‘Será que não existe mesmo calor interno em Úrano?'”, disse Patrick Irwin, o autor principal do artigo científico e professor de física planetária na Universidade de Oxford, em Inglaterra. “Fizemos muitos cálculos para ver quanta luz solar é refletida por Úrano e percebemos que, na verdade, é mais refletivo do que as pessoas tinham estimado”.

Os investigadores propuseram-se determinar o orçamento energético total de Úrano: a quantidade de energia que recebe do Sol, a quantidade que reflete como luz solar e a quantidade que emite como calor. Para isso, precisavam de estimar a quantidade total de luz refletida pelo planeta em todos os ângulos. “É preciso ver a luz que se dispersa para os lados e não apenas a que vem diretamente para nós”, disse Simon.

Para obter a estimativa mais exata do orçamento energético de Úrano, os investigadores de Oxford desenvolveram um modelo informático que reuniu tudo o que se sabe sobre a atmosfera de Úrano a partir de décadas de observações de telescópios terrestres e espaciais, incluindo o Telescópio Espacial Hubble da NASA e o IRTF (Infrared Telescope Facility) da NASA no Hawaii. O modelo incluiu informações sobre as neblinas, nuvens e mudanças sazonais do planeta, que afetam a forma como a luz solar é refletida e como o calor escapa.

Os investigadores descobriram que Úrano liberta cerca de 15% mais energia do que a que recebe do Sol, um valor semelhante a outra estimativa recente de um estudo separado financiado em parte pela NASA, publicado a 14 de julho na revista Geophysical Research Letters. Estes estudos sugerem que Úrano tem o seu próprio calor, embora ainda muito menos do que o seu vizinho Neptuno, que emite mais do dobro da energia que recebe.

“Agora temos de compreender o que significa essa quantidade remanescente de calor em Úrano, bem como obter melhores medições do mesmo”, disse Simon.

Desvendar o passado de Úrano é útil não só para mapear a cronologia de quando os planetas do Sistema Solar se formaram e migraram para as suas órbitas atuais, mas também ajuda os cientistas a compreender melhor muitos dos planetas descobertos fora do Sistema Solar, chamados exoplanetas, a maioria dos quais têm o mesmo tamanho que Úrano.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Universidade de Houston (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
// Artigo científico #2 (Geophysical Research Letters)

Saiba mais:

Úrano:
NASA
The Nine Planets
Wikipedia

Voyager 2:
NASA
The Sky Live
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais
Arquivo de Ciências do eHST
Wikipedia

IRTF (Infrared Telescope Facility):
Página principal
Wikipedia

Sobre Miguel Montes

Veja também

O cometa 3I/ATLAS foi formado num ambiente muito mais frio do que o do Sistema Solar

Observações do radiotelescópio ALMA revelaram que o cometa interestelar 3I/ATLAS contém níveis muito elevados de água "semipesada" (com deutério), cerca de 30 vezes superiores aos dos cometas do Sistema Solar. Isto indica que se formou num ambiente extremamente frio, muito diferente do nosso, oferecendo pistas sobre a diversidade de sistemas planetários na Galáxia.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *