Rocha estudada pelo Perseverance personifica a razão pela qual o rover foi enviado para Marte

O 21.º núcleo rochoso obtido pelo Perseverance tem uma composição que o tornaria ótimo a reter e a preservar sinais de vida microbiana, caso alguma vez tenha existido. A amostra – que aqui se mostra a ser recolhida – foi extraída de “Bunsen Peak” no dia 11 de março, o 1088.º dia marciano, ou sol, da missão.
Crédito: NASA/JPL-Caltech

As análises efetuadas pelos instrumentos a bordo do rover Perseverance Mars da NASA indicam que a última rocha estudada pelo rover esteve mergulhada em água durante um longo período de tempo num passado distante, talvez como parte de uma antiga praia marciana. Recolhida a 11 de março, a amostra é a 24.ª do rover – uma contagem que inclui 21 tubos de amostragem com amostras de rocha, dois com rególito (rocha quebrada e poeira) e um com atmosfera marciana.

“Para simplificar, este é o tipo de rocha que esperávamos encontrar quando decidimos investigar a Cratera Jezero”, disse Ken Farley, cientista do projeto Perseverance no Caltech em Pasadena, no estado norte-americano da Califórnia. “Quase todos os minerais da rocha que acabámos de estudar foram produzidos em água; na Terra, os minerais depositados em água são muitas vezes bons a reter e a preservar material orgânico antigo e bioassinaturas. A rocha pode até dizer-nos mais acerca das condições climatéricas de Marte que estavam presentes quando se formou.”

A presença destes minerais específicos é considerada promissora para preservar um registo rico de um antigo ambiente habitável em Marte. Estas coleções de minerais são importantes para guiar os cientistas até às amostras mais valiosas para um eventual envio à Terra pela campanha MSR (Mars Sample Return).

Na orla da Cratera

Apelidada de “Peak Bunsen” em homenagem à montanha do Parque Nacional de Yellowstone, a rocha – com cerca de 1,7 metros de largura e 1 metro de altura – intrigou os cientistas do Perseverance porque o afloramento é alto no meio do terreno circundante e tem uma textura interessante numa das suas faces. Também estavam interessados na superfície rochosa vertical de Peak Bunsen, que fornece uma boa secção transversal da rocha e, por não ser plana, é menos poeirenta e, portanto, mais fácil de investigar pelos instrumentos científicos.

Antes de recolher a amostra, o Perseverance analisou a rocha utilizando os espetrómetros SuperCam e o espetrómetro de raios X PIXL (Planetary Instrument for X-ray Lithochemistry). Em seguida, o rover utilizou o rotor na extremidade do seu braço robótico para triturar (ou raspar) parte da superfície e voltou a analisar a rocha. Os resultados: Peak Bunsen parece ser composta por cerca de 75% de grãos de carbonato cimentados por sílica quase pura.

Este mosaico mostra uma rocha chamada “Bunsen Peak”, onde o rover Perseverance extraiu o seu 21.º núcleo e raspou uma zona circular para que investigasse a sua composição. Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS

“A sílica e partes do carbonato parecem ser microcristalinas, o que as torna extremamente boas para reter e preservar sinais de vida microbiana que possam ter vivido neste ambiente”, disse Sandra Siljeström, uma cientista do Perseverance no RISE (Research Institutes of Sweden) em Estocolmo. “Isto faz com que esta amostra seja ótima para estudos de bioassinaturas caso seja enviada para a Terra. Além disso, a amostra pode ser um dos núcleos mais antigos recolhidos até agora pelo Perseverance, e isso é importante porque Marte era mais habitável no início da sua história.” Uma potencial bioassinatura é uma substância ou estrutura que pode ser uma evidência de vida passada, mas também pode ter sido produzida sem a presença de vida.

A amostra de Peak Bunsen é a terceira que o Perseverance recolheu enquanto explorava “Margin Unit”, uma área geológica que abraça a orla interior da Cratera Jezero.

“Ainda estamos a explorar a margem e a recolher dados, mas os resultados até agora podem apoiar a nossa hipótese de que as rochas, aqui, se formaram ao longo das margens de um lago antigo”, disse Briony Horgan, cientista do Perseverance da Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana, EUA. “A equipa científica está também a considerar outras ideias para a origem de Margin Unit, uma vez que existem outras maneiras de formar carbonato e sílica. Mas independentemente do modo como esta rocha se formou, é muito excitante obter uma amostra”.

O rover está a avançar para a parte mais ocidental de Margin Unit. Na base da orla da cratera Jezero, um local apelidado de “Bright Angel” é de interesse para a equipa científica porque pode fornecer o primeiro encontro com as rochas muito mais antigas que compõem a orla da cratera. Uma vez terminada a exploração de Bright Angel, o Perseverance dará início a uma subida de vários meses até ao topo da orla.

// NASA (comunicado de imprensa)

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