{"id":6619,"date":"2023-12-22T07:51:28","date_gmt":"2023-12-22T06:51:28","guid":{"rendered":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/?p=6619"},"modified":"2023-12-22T07:51:29","modified_gmt":"2023-12-22T06:51:29","slug":"a-decada-de-descobertas-do-gaia-desvendando-as-complexidades-da-nossa-galaxia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/2023\/12\/22\/a-decada-de-descobertas-do-gaia-desvendando-as-complexidades-da-nossa-galaxia\/","title":{"rendered":"A d\u00e9cada de descobertas do Gaia: desvendando as complexidades da nossa Gal\u00e1xia"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.esa.int\/var\/esa\/storage\/images\/esa_multimedia\/images\/2022\/06\/gaia_observes_the_milky_way\/24305944-1-eng-GB\/Gaia_observes_the_Milky_Way.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"724\" src=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/FMBgRc66_o-1024x724.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6620\" srcset=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/FMBgRc66_o-1024x724.jpg 1024w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/FMBgRc66_o-300x212.jpg 300w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/FMBgRc66_o-768x543.jpg 768w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/FMBgRc66_o.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o do sat\u00e9lite Gaia da ESA a observar a Via L\u00e1ctea. A imagem de fundo do c\u00e9u \u00e9 compilada a partir de dados de mais de 1,8 mil milh\u00f5es de estrelas. Mostra o brilho total e a cor das estrelas observadas pelo Gaia, divulgados como parte do EDR3 (Early Data Release 3) do Gaia em dezembro de 2020.<br>Cr\u00e9dito: sat\u00e9lite &#8211; ESA\/ATG medialab; Via L\u00e1ctea &#8211; ESA\/Gaia\/DPAC; reconhecimento &#8211; A. Moitinho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O telesc\u00f3pio espacial Gaia da ESA foi lan\u00e7ado a 19 de dezembro de 2013 e tem estado a estudar os c\u00e9us desde 2014. Durante este tempo, a miss\u00e3o mudou a nossa compreens\u00e3o da Via L\u00e1ctea, desvendando a sua forma e estrutura e revelando como as fus\u00f5es afetaram as estrelas que chamam lar \u00e0 nossa Gal\u00e1xia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar dos muitos anos passados a observar o cosmos com telesc\u00f3pios cada vez mais potentes, ainda h\u00e1 muito para aprender sobre a Via L\u00e1ctea. N\u00e3o podemos sair da nossa Gal\u00e1xia para ter uma vis\u00e3o externa e completa da sua forma e propriedades, como fazemos quando estudamos outras gal\u00e1xias. Estamos inseridos nela, pelo que estamos limitados a mapear a Via L\u00e1ctea de dentro para fora &#8211; e a partir de um \u00fanico ponto de vista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio do mil\u00e9nio, tornou-se claro que, para compreender as complexidades da nossa Gal\u00e1xia, precis\u00e1vamos de dados precisos e abrangentes e de uma miss\u00e3o espacial dedicada e altamente avan\u00e7ada para os recolher. \u00c9 aqui que entra o Gaia. Desde que come\u00e7ou a vigiar os c\u00e9us em 2014, o sat\u00e9lite compilou um conjunto de dados inigual\u00e1vel sobre as posi\u00e7\u00f5es, dist\u00e2ncias e movimentos de cerca de 1,5 mil milh\u00f5es de estrelas, permitindo aos investigadores aprofundar a estrutura passada e atual da nossa Gal\u00e1xia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;As descobertas do Gaia representam uma mudan\u00e7a radical na forma como compreendemos a Via L\u00e1ctea. \u00c9 espantoso o que esta miss\u00e3o descobriu num espa\u00e7o de tempo relativamente curto&#8221;, afirma Timo Prusti, cientista do projeto Gaia na ESA. &#8220;O Gaia foi concebido unicamente para mapear os objetos celestes \u00e0 nossa volta. A miss\u00e3o est\u00e1 a construir uma vis\u00e3o mais detalhada e completa da Via L\u00e1ctea, e esta vis\u00e3o est\u00e1 a mudar fundamentalmente o que pens\u00e1vamos saber sobre a nossa Gal\u00e1xia natal.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este resumo apresenta apenas algumas das principais descobertas que o Gaia fez na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.esa.int\/var\/esa\/storage\/images\/esa_multimedia\/images\/2023\/12\/top-down_view_of_the_milky_way_annotated\/25373033-2-eng-GB\/Top-down_view_of_the_Milky_Way_annotated.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/b6\/83\/VL3QHLtE_o.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nesta imagem, vemos a Via L\u00e1ctea como se estiv\u00e9ssemos a pairar sobre ela. Podemos admirar a grande estrutura em espiral da nossa Gal\u00e1xia na sua beleza deslumbrante e identificar claramente as diferentes partes: uma barra central brilhante com v\u00e1rios bra\u00e7os espirais \u00e0 sua volta. O Sol situa-se na periferia da imensa espiral, a 26.600 anos-luz (8200 parsecs) do centro, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 parte inferior desta imagem. As anota\u00e7\u00f5es d\u00e3o os nomes e marcam a localiza\u00e7\u00e3o dos bra\u00e7os espirais.<br>Cr\u00e9dito: ESA\/Gaia\/DPAC, Stefan Payne-Wardenaar<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&#8220;Pesando&#8221; a Via L\u00e1ctea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A determina\u00e7\u00e3o da massa da Via L\u00e1ctea \u00e9 uma tarefa complicada. Existem m\u00faltiplas partes complexas da Gal\u00e1xia e m\u00faltiplas formas sofisticadas de as &#8220;pesar&#8221;, o que resulta numa incerteza significativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O material da Via L\u00e1ctea est\u00e1 espalhado por uma grande \u00e1rea, estendendo-se muito para al\u00e9m do disco estelar vis\u00edvel da Gal\u00e1xia. Esta parte alargada da Via L\u00e1ctea existe sob a forma do chamado halo de mat\u00e9ria escura &#8211; uma vasta cole\u00e7\u00e3o de material que parece ser dominada por mat\u00e9ria escura invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este halo est\u00e1 a ser estudado em profundidade pelo Gaia, para compreender a quantidade de mat\u00e9ria escura que a\u00ed se encontra e a sua distribui\u00e7\u00e3o pelo espa\u00e7o. Os cientistas est\u00e3o a usar o Gaia para explorar objetos dentro deste halo, longe do disco da Via L\u00e1ctea, incluindo correntes estelares e detritos, enxames de estrelas e gal\u00e1xias an\u00e3s. As gal\u00e1xias an\u00e3s cont\u00eam, no m\u00e1ximo, alguns milhares a alguns milhares de milh\u00f5es de estrelas e mais de 50 delas orbitam a Via L\u00e1ctea como sat\u00e9lites, sendo descobertas mais todos os anos. Uma vez que estes objetos se encontram t\u00e3o longe, precisamos das observa\u00e7\u00f5es precisas do Gaia para determinar as suas posi\u00e7\u00f5es e movimentos (astrometria). Em alguns casos, os dados do Gaia s\u00e3o complementados por observa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do Telesc\u00f3pio Espacial Hubble da NASA\/ESA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas investiga\u00e7\u00f5es trouxeram novos conhecimentos sobre as gal\u00e1xias an\u00e3s que orbitam a Via L\u00e1ctea, incluindo uma das mais pr\u00f3ximas: a Grande Nuvem de Magalh\u00e3es. Os dados do Gaia provaram que esta nuvem \u00e9 mais massiva do que se pensava, com cerca de 10% da massa da Via L\u00e1ctea. O Gaia tamb\u00e9m mostrou o quanto esta gal\u00e1xia inesperadamente volumosa influencia os movimentos de objetos mais afastados no halo da Via L\u00e1ctea, distorcendo as estimativas da massa da nossa Gal\u00e1xia que derivam do estudo destas gal\u00e1xias sat\u00e9lite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nossa imagem da Via L\u00e1ctea vai ficando cada vez melhor \u00e0 medida que o Gaia vai fornecendo mais dados. H\u00e1 ainda grandes incertezas em redor da sua massa total, com estimativas que variam entre algumas centenas de milhar de milh\u00f5es e alguns bili\u00f5es de vezes a massa do Sol. Mas \u00e0 medida que o Gaia continua a explorar o nosso lar c\u00f3smico e os seus componentes, compreenderemos melhor as complicadas partes distantes da nossa Gal\u00e1xia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refinando a forma da nossa Gal\u00e1xia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Gaia clarificou o aspeto da nossa Gal\u00e1xia, fornecendo uma vis\u00e3o mais exata da sua forma e simetria &#8211; ou falta dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Via L\u00e1ctea \u00e9 uma gal\u00e1xia espiral com uma &#8220;barra&#8221; central de estrelas que atravessa o seu n\u00facleo, v\u00e1rios bra\u00e7os espirais e um halo mais difuso que se estende para o exterior. Supunha-se que este halo era geralmente esf\u00e9rico e homog\u00e9neo, como uma bola de praia. No entanto, o Gaia mostrou que o halo da Via L\u00e1ctea parece alongado, inclinado e esticado, como uma bola de r\u00e2guebi que acabou de ser chutada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cientistas do Gaia tamb\u00e9m mapearam a estrutura geral da barra central da Via L\u00e1ctea e dos bra\u00e7os espirais rodopiantes, aperfei\u00e7oando a nossa compreens\u00e3o do seu comprimento, inclina\u00e7\u00e3o e assimetria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, sabemos desde a d\u00e9cada de 1950 que o disco da Via L\u00e1ctea \u00e9 deformado e assim\u00e9trico, mas n\u00e3o sab\u00edamos porqu\u00ea. O Gaia revelou que esta deforma\u00e7\u00e3o \u00e9 provocada por uma colis\u00e3o em curso com outra gal\u00e1xia mais pequena &#8211; provavelmente a gal\u00e1xia an\u00e3 de Sagit\u00e1rio, que j\u00e1 atravessou o disco da nossa Gal\u00e1xia tr\u00eas vezes no passado. Sagit\u00e1rio orbita a nossa Gal\u00e1xia h\u00e1 4 a 5 mil milh\u00f5es de anos e est\u00e1 a ser lentamente desfeita por uma fus\u00e3o em curso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas colis\u00f5es enviaram ondula\u00e7\u00f5es disruptivas que se espalharam pela Via L\u00e1ctea como uma pedra atirada \u00e0 \u00e1gua, fazendo com que a Gal\u00e1xia se deformasse e oscilasse. Podem ter sido o gatilho que provocou a forma\u00e7\u00e3o do Sol e do Sistema Solar: outro resultado do Gaia. De acordo com o Gaia, as ondula\u00e7\u00f5es causadas pela influ\u00eancia de Sagit\u00e1rio levaram a m\u00faltiplos surtos de forma\u00e7\u00e3o estelar, um dos quais se alinha no tempo com a altura em que pensamos que o Sol se formou, h\u00e1 cerca de 4,6 mil milh\u00f5es de anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Gaia mostrou que a Via L\u00e1ctea ainda est\u00e1 a sofrer algumas das ondula\u00e7\u00f5es causadas por uma quase colis\u00e3o com Sagit\u00e1rio, que fez com que as estrelas no disco da Gal\u00e1xia se movessem em padr\u00f5es distintos. Para algumas estrelas, o Gaia mede n\u00e3o s\u00f3 a sua posi\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m os seus movimentos completos em tr\u00eas dimens\u00f5es. Nestes dados, os investigadores identificaram um padr\u00e3o nunca antes visto que se parece um pouco com a concha de um caracol. Um estudo mais aprofundado levou \u00e0 conclus\u00e3o de que as estrelas se &#8220;lembravam&#8221; de terem sido perturbadas por Sagit\u00e1rio no passado, e ainda mostram sinais disso nos seus movimentos atuais.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.esa.int\/var\/esa\/storage\/images\/esa_multimedia\/images\/2020\/05\/sagittarius_collisions_trigger_star_formation_in_milky_way\/22031414-4-eng-GB\/Sagittarius_collisions_trigger_star_formation_in_Milky_Way.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/7f\/fe\/PozqQm81_o.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">A gal\u00e1xia an\u00e3 de Sagit\u00e1rio orbita a Via L\u00e1ctea h\u00e1 milhares de milh\u00f5es de anos. \u00c0 medida que a sua \u00f3rbita em torno da Via L\u00e1ctea, 10.000 mais massiva, se foi estreitando, come\u00e7ou a colidir com o disco da nossa Gal\u00e1xia. De acordo com um novo estudo, as tr\u00eas colis\u00f5es conhecidas entre Sagit\u00e1rio e a Via L\u00e1ctea desencadearam grandes epis\u00f3dios de forma\u00e7\u00e3o estelar, um dos quais poder\u00e1 ter dado origem ao Sistema Solar.<br>Cr\u00e9dito: ESA<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Juntando as pe\u00e7as da nossa \u00e1rvore geneal\u00f3gica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sagit\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica gal\u00e1xia que influenciou a Via L\u00e1ctea. A hist\u00f3ria inicial da nossa Gal\u00e1xia \u00e9 turbulenta; come\u00e7ou a formar-se h\u00e1 mais de 13 mil milh\u00f5es de anos e tornou-se maior e mais massiva ao fundir-se com outras gal\u00e1xias ao longo do tempo. \u00c0 medida que as gal\u00e1xias s\u00e3o incorporadas na Via L\u00e1ctea, o seu material forma correntes de estrelas que se deslocam no espa\u00e7o ao longo de trajet\u00f3rias distintas; cada corrente \u00e9 caracterizada por qu\u00edmicas diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Gaia revelou esta &#8220;\u00e1rvore geneal\u00f3gica&#8221; de gal\u00e1xias mais pequenas que ajudaram a fazer da Via L\u00e1ctea o que ela \u00e9 hoje. Crucialmente, o Gaia descobriu que a Via L\u00e1ctea se fundiu com uma gal\u00e1xia, designada Gaia-Salsicha-Enc\u00e9lado, no in\u00edcio da sua forma\u00e7\u00e3o &#8211; um grande avan\u00e7o na nossa compreens\u00e3o da hist\u00f3ria Gal\u00e1ctica. As 30.000 estrelas com movimentos estranhos que revelaram esta fus\u00e3o rodeiam-nos quase por completo; todas se movem de forma muito diferente da maioria das outras estrelas da Via L\u00e1ctea, movendo-se &#8220;para dentro e para fora&#8221; em vez de &#8220;\u00e0 volta&#8221;. A Via L\u00e1ctea e Gaia-Salsicha-Enc\u00e9lado fundiram-se h\u00e1 cerca de 10 mil milh\u00f5es de anos, e este acontecimento moldou significativamente a forma e a evolu\u00e7\u00e3o da nossa Gal\u00e1xia desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados do Gaia tamb\u00e9m revelaram outro evento de fus\u00e3o, Arjuna\/Sequoia\/I&#8217;itoi, que provavelmente ocorreu numa fase semelhante \u00e0 de Gaia-Salsicha-Enc\u00e9lado. Pensa-se que este evento encheu o halo da jovem Via L\u00e1ctea com enxames globulares e estrelas antigas de alta velocidade, todas a moverem-se de forma estranha e a orbitarem no sentido &#8220;errado&#8221; &#8211; na dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 rota\u00e7\u00e3o da espiral. Arjuna\/Sequoia\/I&#8217;itoi e Gaia-Salsicha-Enc\u00e9lado podem ter sido gal\u00e1xias associadas &#8211; talvez um par bin\u00e1rio &#8211; antes de se fundirem com a Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um estudo posterior do Gaia definiu seis grupos estelares distintos, representando seis fus\u00f5es diferentes: as j\u00e1 mencionadas an\u00e3 de Sagit\u00e1rio, Gaia-Salsicha-Enc\u00e9lado e Arjuna\/Sequoia\/I&#8217;itoi, Baleia, GNM-1\/Wukong e Ponto. Pensa-se que a maioria tenha ocorrido h\u00e1 oito-dez mil milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, sendo que apenas Sagit\u00e1rio \u00e9 mais recente. Outro estudo, utilizando dados do Gaia, explorou uma popula\u00e7\u00e3o de enxames globulares e descobriu que estes se alinham bem com uma s\u00e9tima fus\u00e3o prevista. Esta fus\u00e3o ter\u00e1 sido talvez a mais antiga a ocorrer h\u00e1 cerca de 11 mil milh\u00f5es de anos, com uma gal\u00e1xia agora referida como &#8220;Kraken&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o Gaia revelou que algumas partes da Via L\u00e1ctea s\u00e3o muito mais antigas do que se esperava e que houve duas fases-chave da hist\u00f3ria Gal\u00e1ctica. A primeira come\u00e7ou menos de mil milh\u00f5es de anos ap\u00f3s o Big Bang, quando as estrelas se come\u00e7aram a formar num disco espesso. Dois mil milh\u00f5es de anos mais tarde, foi desencadeada aqui uma segunda fase de forma\u00e7\u00e3o estelar, bem como no halo e no disco mais fino. Pensa-se que esta segunda fase foi despoletada quando Gaia-Salsicha-Enc\u00e9lado colidiu com a Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.esa.int\/var\/esa\/storage\/images\/esa_multimedia\/images\/2022\/02\/gaia_reveals_a_new_member_of_the_milky_way_family\/23954169-1-eng-GB\/Gaia_reveals_a_new_member_of_the_Milky_Way_family.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/1e\/ec\/QT1VZ5oj_o.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Esta imagem mostra a Via L\u00e1ctea vista pelo Gaia. Os quadrados representam a localiza\u00e7\u00e3o de enxames globulares, os tri\u00e2ngulos a localiza\u00e7\u00e3o de gal\u00e1xias sat\u00e9lite e os pequenos pontos s\u00e3o correntes estelares. Os pontos e quadrados a roxo s\u00e3o objetos trazidos para a Via L\u00e1ctea pela fus\u00e3o com a gal\u00e1xia Ponto.<br>Cr\u00e9dito: ESA\/Gaia\/DPAC<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Gaia tamb\u00e9m lan\u00e7ou o seu olhar sobre as gal\u00e1xias companheiras mais pequenas que se encontram atualmente no espa\u00e7o pr\u00f3ximo. Estas incluem a Grande e a Pequena Nuvem de Magalh\u00e3es e dezenas de outras gal\u00e1xias an\u00e3s que se pensa estarem a orbitar a Via L\u00e1ctea. No entanto, o Gaia estudou 40 destas companheiras e descobriu que se movem muito mais depressa do que as estrelas gigantes e os enxames de estrelas que se sabe estarem a orbitar a nossa Gal\u00e1xia; isto significa que podem ser visitantes que s\u00f3 chegaram \u00e0 nossa vizinhan\u00e7a nos \u00faltimos milhares de milh\u00f5es de anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Caracter\u00edsticas intrigantes e surpreendentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Via L\u00e1ctea est\u00e1 repleta de fascinantes estruturas onduladas feitas de g\u00e1s, cavidades vazias no espa\u00e7o, surtos de forma\u00e7\u00e3o estelar, grupos de enxames de estrelas que giram em torno do n\u00facleo da Via L\u00e1ctea, vizinhan\u00e7as estranhas cheias de estrelas antigas e sinais remanescentes de bra\u00e7os espirais &#8220;fossilizados&#8221;. Todas estas caracter\u00edsticas, e outras, foram detetadas e exploradas pelo Gaia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2020, o Gaia detetou a maior estrutura gasosa jamais vista na nossa Gal\u00e1xia: um conjunto longo, fino e ondulante de ber\u00e7\u00e1rios estelares interligados, localizado no bra\u00e7o espiral pr\u00f3ximo da Terra. Embora esta onda exista h\u00e1 muitos milh\u00f5es de anos, os cientistas precisavam dos dados do Gaia sobre a estrutura 3D da Via L\u00e1ctea para a encontrar e revelar a sua forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As medi\u00e7\u00f5es precisas do Gaia, das posi\u00e7\u00f5es e movimentos das estrelas, revelaram tamb\u00e9m a forma e a espessura das regi\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o estelar em tr\u00eas dimens\u00f5es &#8211; a primeira vez que estas chamadas nuvens moleculares foram cartografadas desta forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mapeamento posterior revelou a origem e o impacto da Bolha Local, uma zona de espa\u00e7o relativamente vazio, em forma de amendoim, que o Sol atravessa na sua \u00f3rbita atrav\u00e9s da Via L\u00e1ctea. H\u00e1 j\u00e1 algum tempo que sabemos da exist\u00eancia da Bolha Local, mas o Gaia descobriu mais detalhes. Os cientistas do Gaia descobriram que uma s\u00e9rie de explos\u00f5es estelares empurraram o g\u00e1s para fora, criando esta bolha e desencadeando a forma\u00e7\u00e3o de todas as jovens estrelas que vemos na nossa vizinhan\u00e7a Gal\u00e1ctica.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/stsci-opo.org\/STScI-01FS4XCQP8VG7MMZ26VG4QSF81.png\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/9f\/5a\/W38Z5v5u_o.png\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o art\u00edstica da Bolha Local com forma\u00e7\u00e3o de estrelas a ocorrer na superf\u00edcie da bolha. Os cientistas mostraram agora como uma cadeia de acontecimentos, iniciada h\u00e1 14 milh\u00f5es de anos com um conjunto de poderosas supernovas, levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da vasta bolha, respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o de todas as jovens estrelas num raio de 500 anos-luz do Sol e da Terra. Cr\u00e9dito: CfA, Leah Hustak (STScI)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhando mais longe na Via L\u00e1ctea, os cientistas utilizaram os dados do Gaia para mapear estruturas no disco exterior da nossa Gal\u00e1xia, revelando um grande n\u00famero de filamentos girat\u00f3rios. Os cientistas sugerem que estes filamentos s\u00e3o, de facto, os remanescentes de bra\u00e7os espirais do passado. Estas estruturas ficaram excitadas ao longo do tempo, \u00e0 medida que diferentes gal\u00e1xias sat\u00e9lites passavam e interagiam com a nossa Gal\u00e1xia, provocando a sua rota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente \u00e0s estruturas, o Gaia est\u00e1 a observar de perto as estrelas. A miss\u00e3o encontrou milhares de novos enxames estelares, muitos mais do que os que conhec\u00edamos anteriormente, gra\u00e7as \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o pelos cientistas de novas t\u00e9cnicas de aprendizagem de m\u00e1quina aos dados do Gaia. Numa das descobertas mais importantes, os astr\u00f3nomos utilizaram os dados do Gaia para fazer &#8220;arqueologia gal\u00e1ctica&#8221; e descobrir que o n\u00facleo da Via L\u00e1ctea est\u00e1 cheio de estrelas verdadeiramente antigas: t\u00e3o antigas que n\u00e3o possuem os metais mais pesados criados mais tarde na vida do Universo. Os investigadores identificaram estas estrelas explorando dois milh\u00f5es de estrelas gigantes brilhantes nas regi\u00f5es interiores da nossa Gal\u00e1xia, mapeando o &#8220;pobre cora\u00e7\u00e3o velho&#8221; da Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A ponta do icebergue<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas descobertas s\u00e3o apenas alguns dos resultados inovadores do Gaia. Estas e outras resultaram numa vis\u00e3o renovada, mais clara e mais detalhada da estrutura, conte\u00fado e hist\u00f3ria da Via L\u00e1ctea, dando-nos uma compreens\u00e3o muito mais completa da nossa Gal\u00e1xia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Para al\u00e9m de refinar e desmistificar algumas das coisas que j\u00e1 sab\u00edamos, o Gaia questionou e, em \u00faltima an\u00e1lise, rejeitou uma s\u00e9rie de suposi\u00e7\u00f5es que t\u00ednhamos sobre a Via L\u00e1ctea&#8221;, diz Paul McMillan da Universidade de Leicester. &#8220;N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que o Gaia est\u00e1 a reescrever a hist\u00f3ria c\u00f3smica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Gaia lan\u00e7a dados em lotes. O primeiro, o segundo, parte do terceiro e a totalidade do terceiro foram lan\u00e7ados em 2016, 2018, 2020 e 2022, respetivamente, com um subsequente FPR (&#8220;focused product release&#8221;) h\u00e1 apenas alguns meses. Este texto centra-se nas descobertas feitas desde o terceiro lan\u00e7amento de dados do Gaia em 2020 e reflete apenas uma sele\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o proveniente da miss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.esa.int\/Science_Exploration\/Space_Science\/Gaia\/Gaia_s_decade_of_discoveries_unravelling_the_intricacies_of_our_galaxy\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\/\/ ESA (comunicado de imprensa)<\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Saiba mais:<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Via L\u00e1ctea:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Milky_Way\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><br><a href=\"http:\/\/messier.seds.org\/more\/mw.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">SEDS<\/a><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/List_of_stellar_streams\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lista de correntes estelares da Via L\u00e1ctea (Wikipedia)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gal\u00e1xia sat\u00e9lite:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Satellite_galaxy\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gal\u00e1xias sat\u00e9lites da Via L\u00e1ctea:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Satellite_galaxies_of_the_Milky_Way\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Grande Nuvem de Magalh\u00e3es:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Large_Magellanic_Cloud\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><br><a href=\"http:\/\/messier.seds.org\/xtra\/ngc\/lmc.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">SEDS<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>An\u00e3 de Sagit\u00e1rio:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/www.solstation.com\/x-objects\/sag-deg.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">SolStation.com<\/a><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Sagittarius_Dwarf_Spheroidal_Galaxy\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gaia-Salsicha-Enc\u00e9lado:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Gaia_Sausage\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mat\u00e9ria escura:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Dark_matter\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gaia:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/sci.esa.int\/gaia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ESA<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.esa.int\/Our_Activities\/Space_Science\/Gaia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ESA &#8211; 2<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.cosmos.esa.int\/web\/gaia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Gaia\/ESA<\/a><br><a href=\"http:\/\/gsaweb.ast.cam.ac.uk\/alerts\/home\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Programa Alertas de Ci\u00eancia Fotom\u00e9trica do Gaia<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.cosmos.esa.int\/web\/gaia\/data-release-3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cat\u00e1logo DR3 do Gaia<\/a><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Gaia_(spacecraft)\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ilustra\u00e7\u00e3o do sat\u00e9lite Gaia da ESA a observar a Via L\u00e1ctea. 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