{"id":6397,"date":"2023-09-29T06:24:43","date_gmt":"2023-09-29T05:24:43","guid":{"rendered":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/?p=6397"},"modified":"2023-09-29T06:24:43","modified_gmt":"2023-09-29T05:24:43","slug":"a-nova-revisao-da-massa-da-via-lactea-coloca-a-muito-abaixo-das-expetativas-da-cosmologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/2023\/09\/29\/a-nova-revisao-da-massa-da-via-lactea-coloca-a-muito-abaixo-das-expetativas-da-cosmologia\/","title":{"rendered":"A nova revis\u00e3o da massa da Via L\u00e1ctea coloca-a muito abaixo das expetativas da cosmologia"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/vQm3V9ZO_o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"985\" height=\"554\" src=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/vQm3V9ZO_o.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6398\" srcset=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/vQm3V9ZO_o.jpg 985w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/vQm3V9ZO_o-300x169.jpg 300w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/vQm3V9ZO_o-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 985px) 100vw, 985px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Impress\u00e3o de artista da estrutura da Via L\u00e1ctea.<br>Cr\u00e9dito: NASA\/JPL-Caltech<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gra\u00e7as ao cat\u00e1logo mais recente do sat\u00e9lite Gaia da ESA, uma equipa internacional liderada por astr\u00f3nomos do Observat\u00f3rio de Paris &#8211; PSL e do CNRS (Centre national de la recherche scientifique) obteve a medi\u00e7\u00e3o mais precisa da massa da Via L\u00e1ctea. Publicado na revista Astronomy &amp; Astrophysics no passado dia 27 de setembro de 2023, este estudo abre quest\u00f5es importantes na cosmologia, nomeadamente acerca da quantidade de mat\u00e9ria escura contida na nossa Gal\u00e1xia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A massa total da Via L\u00e1ctea est\u00e1 estimada em apenas 200 mil milh\u00f5es de vezes a do Sol (2,06&#215;10<sup>11<\/sup>&nbsp;massas solares), o que representa uma revis\u00e3o em baixa significativa &#8211; cerca de quatro a cinco vezes inferior \u00e0s estimativas anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este novo valor foi obtido a partir do terceiro lan\u00e7amento de dados do cat\u00e1logo Gaia, publicado em 2022, que fornece dados abrangentes sobre 1,8 mil milh\u00f5es de estrelas, englobando as tr\u00eas componentes espaciais e as tr\u00eas componentes de velocidade num espa\u00e7o de seis dimens\u00f5es dentro da Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A leveza suport\u00e1vel da Via L\u00e1ctea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Utilizando os dados do Gaia, os cientistas conseguiram construir a curva de rota\u00e7\u00e3o mais exata alguma vez observada para uma gal\u00e1xia espiral, neste caso a nossa pr\u00f3pria Gal\u00e1xia, e deduzir a sua massa. Antes do Gaia, obter uma curva de rota\u00e7\u00e3o robusta para a nossa Gal\u00e1xia era um desafio, ao contr\u00e1rio do que acontecia com as outras gal\u00e1xias espirais. Este desafio resultava da nossa posi\u00e7\u00e3o no interior da Via L\u00e1ctea, o que tornava imposs\u00edvel distinguir com precis\u00e3o os movimentos e as dist\u00e2ncias das estrelas no disco gal\u00e1ctico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No estudo publicado a 27 de setembro de 2023, na revista Astronomy and Astrophysics, a curva de rota\u00e7\u00e3o da nossa Gal\u00e1xia \u00e9 at\u00edpica: ao contr\u00e1rio das determinadas para outras grandes gal\u00e1xias espirais, n\u00e3o \u00e9 achatada.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/45\/8b\/CyqbOrZC_o.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/45\/8b\/CyqbOrZC_o.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">A curva de rota\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea, que representa a velocidade das estrelas em fun\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia ao Centro Gal\u00e1ctico. Os pontos brancos e as barras de erro representam as medi\u00e7\u00f5es obtidas a partir do cat\u00e1logo Gaia DR3. A curva azul representa o melhor ajuste da curva de rota\u00e7\u00e3o por um modelo que inclui mat\u00e9ria comum e mat\u00e9ria escura. A parte amarela da curva mostra o decl\u00ednio Kepleriano com V a diminuir com R-1\/2, que come\u00e7a para al\u00e9m do disco \u00f3tico da nossa Gal\u00e1xia. Isto significa que para al\u00e9m do disco \u00f3tico da Gal\u00e1xia, a sua atra\u00e7\u00e3o gravitacional \u00e9 semelhante \u00e0 de uma massa pontual. Uma velocidade de rota\u00e7\u00e3o constante \u00e9 rejeitada com uma probabilidade de 99,7%.<br>Cr\u00e9dito: Jiao, Hammer et al.\/Observat\u00f3rio de Paris &#8211; PSL\/CNRS\/ESA\/Gaia\/ESO\/S. Brunier<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo contr\u00e1rio, na periferia do disco da nossa Gal\u00e1xia, esta curva come\u00e7a a diminuir rapidamente, seguindo a previs\u00e3o conhecida como decl\u00ednio Kepleriano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Questionando a cosmologia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obten\u00e7\u00e3o de uma curva de rota\u00e7\u00e3o para a Via L\u00e1ctea que exiba um decl\u00ednio Kepleriano exige que a nossa Gal\u00e1xia seja enquadrada num contexto cosmol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De facto, um dos maiores avan\u00e7os da astronomia moderna foi a constata\u00e7\u00e3o de que as velocidades de rota\u00e7\u00e3o dos grandes discos das gal\u00e1xias espirais eram muito mais r\u00e1pidas do que seria de esperar de um decl\u00ednio Kepleriano. Na d\u00e9cada de 1970, os astr\u00f3nomos Vera Rubin, que utilizou observa\u00e7\u00f5es de g\u00e1s ionizado, e Albert Bosma, que estudou g\u00e1s neutro, demonstraram que a velocidade de rota\u00e7\u00e3o das gal\u00e1xias espirais permanece constante, muito para al\u00e9m dos seus discos \u00f3ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A consequ\u00eancia imediata desta descoberta foi a proposta da exist\u00eancia de mat\u00e9ria escura &#8211; adicional \u00e0 mat\u00e9ria observ\u00e1vel &#8211; distribu\u00edda num halo que envolve os discos das gal\u00e1xias espirais. Sem esta mat\u00e9ria escura, as curvas de rota\u00e7\u00e3o teriam seguido um decl\u00ednio chamado &#8220;Kepleriano&#8221;. Este \u00faltimo indica a aus\u00eancia de quantidades significativas de mat\u00e9ria fora do disco \u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o caso da Via L\u00e1ctea, segundo o estudo atual. Considerando que a mat\u00e9ria comum (estrelas e g\u00e1s frio) da Via L\u00e1ctea \u00e9 geralmente estimada em pouco mais de 0,6&#215;10<sup>11<\/sup>&nbsp;massas solares, representa cerca de um-ter\u00e7o da mat\u00e9ria total.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este facto constitui uma revolu\u00e7\u00e3o na cosmologia, uma vez que at\u00e9 agora se concordava que a mat\u00e9ria escura deveria ser pelo menos seis vezes mais abundante do que a mat\u00e9ria comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Duas explica\u00e7\u00f5es preliminares<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a maioria das outras grandes gal\u00e1xias espirais n\u00e3o exibe uma curva de rota\u00e7\u00e3o com um decl\u00ednio Kepleriano, o que \u00e9 que torna a nossa Gal\u00e1xia t\u00e3o diferente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel pode vir do facto da Via L\u00e1ctea ter sofrido relativamente poucas perturba\u00e7\u00f5es devido a colis\u00f5es violentas entre gal\u00e1xias. A sua \u00faltima grande fus\u00e3o ocorreu h\u00e1 cerca de 9 mil milh\u00f5es de anos, em contraste com a m\u00e9dia de 6 mil milh\u00f5es de anos para outras gal\u00e1xias espirais. Em qualquer caso, isto indica que a curva de rota\u00e7\u00e3o obtida para a Via L\u00e1ctea \u00e9 particularmente precisa, n\u00e3o sendo afetada pelos res\u00edduos de uma colis\u00e3o t\u00e3o antiga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda possibilidade pode surgir das diferen\u00e7as metodol\u00f3gicas entre a curva de rota\u00e7\u00e3o derivada dos dados de seis dimens\u00f5es de estrelas fornecidos pelo sat\u00e9lite Gaia, por exemplo, para a nossa Gal\u00e1xia, e as curvas de rota\u00e7\u00e3o derivadas usando g\u00e1s neutro para outras gal\u00e1xias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este trabalho abre caminho para uma reavalia\u00e7\u00e3o das curvas de rota\u00e7\u00e3o das grandes gal\u00e1xias espirais e do seu conte\u00fado em mat\u00e9ria comum e escura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.observatoiredeparis.psl.eu\/the-revisited-mass-of-the.html?lang=en\" target=\"_blank\">\/\/ Observat\u00f3rio de Paris-PSL (comunicado de imprensa)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.aanda.org\/component\/article?access=doi&amp;doi=10.1051\/0004-6361\/202347513\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (Astronomy &amp; Astrophysics)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/2309.00048\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (arXiv.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Saiba mais:<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Via L\u00e1ctea:<\/strong><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Milky_Way\" target=\"_blank\">Wikipedia<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/messier.seds.org\/more\/mw.html\" target=\"_blank\">SEDS<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Curva de rota\u00e7\u00e3o gal\u00e1ctica:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Galaxy_rotation_curve\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mat\u00e9ria escura:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Dark_matter\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gaia:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/sci.esa.int\/gaia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ESA<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.esa.int\/Our_Activities\/Space_Science\/Gaia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ESA &#8211; 2<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.cosmos.esa.int\/web\/gaia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Gaia\/ESA<\/a><br><a href=\"http:\/\/gsaweb.ast.cam.ac.uk\/alerts\/home\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Programa Alertas de Ci\u00eancia Fotom\u00e9trica do Gaia<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.cosmos.esa.int\/web\/gaia\/data-release-3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cat\u00e1logo DR3 do Gaia<\/a><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Gaia_(spacecraft)\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Impress\u00e3o de artista da estrutura da Via L\u00e1ctea.Cr\u00e9dito: NASA\/JPL-Caltech Gra\u00e7as ao cat\u00e1logo mais recente do sat\u00e9lite Gaia da ESA, uma equipa internacional liderada por astr\u00f3nomos do Observat\u00f3rio de Paris &#8211; PSL e do CNRS (Centre national de la recherche scientifique) obteve a medi\u00e7\u00e3o mais precisa da massa da Via L\u00e1ctea. 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