{"id":5692,"date":"2022-12-30T07:14:32","date_gmt":"2022-12-30T06:14:32","guid":{"rendered":"http:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/?p=5692"},"modified":"2022-12-30T07:14:33","modified_gmt":"2022-12-30T06:14:33","slug":"os-astronomos-identificaram-o-antigo-coracao-da-via-lactea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/2022\/12\/30\/os-astronomos-identificaram-o-antigo-coracao-da-via-lactea\/","title":{"rendered":"<strong>Os astr\u00f3nomos identificaram o antigo cora\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p>Um grupo de astr\u00f3nomos conseguiu identificar o &#8220;pobre cora\u00e7\u00e3o velho da Via L\u00e1ctea&#8221; &#8211; uma popula\u00e7\u00e3o de estrelas remanescente da hist\u00f3ria inicial da nossa Gal\u00e1xia, que reside nas regi\u00f5es centrais. Para este feito de &#8220;arqueologia gal\u00e1ctica&#8221;, os investigadores analisaram dados do mais recente cat\u00e1logo da miss\u00e3o Gaia da ESA, utilizando uma rede neuronal para extrair as metalicidades de dois milh\u00f5es de estrelas gigantes e brilhantes na regi\u00e3o interior da nossa Gal\u00e1xia. A dete\u00e7\u00e3o destas estrelas, mas tamb\u00e9m das suas propriedades observadas, fornece uma bem-vinda corrobora\u00e7\u00e3o para simula\u00e7\u00f5es cosmol\u00f3gicas da hist\u00f3ria mais antiga da Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n\n<p>A nossa Gal\u00e1xia, a Via L\u00e1ctea, formou-se gradualmente ao longo de quase toda a hist\u00f3ria do Universo, abrangendo 13 mil milh\u00f5es de anos. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os astr\u00f3nomos conseguiram reconstruir diferentes \u00e9pocas da hist\u00f3ria gal\u00e1ctica da mesma forma que os arque\u00f3logos conseguem reconstruir a hist\u00f3ria de uma cidade: alguns edif\u00edcios v\u00eam com datas expl\u00edcitas de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para outros, a utiliza\u00e7\u00e3o de materiais de constru\u00e7\u00e3o mais primitivos ou estilos de constru\u00e7\u00e3o mais antigos implica que surgiram antes, tal como a situa\u00e7\u00e3o em que os restos s\u00e3o encontrados por baixo de outras estruturas (e, portanto, mais recentes). Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, os padr\u00f5es espaciais s\u00e3o essenciais &#8211; para muitas cidades, haver\u00e1 uma &#8220;cidade velha&#8221; central rodeada por zonas que s\u00e3o claramente mais recentes.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.mpia.de\/5950097\/mpia_pm_rix_pooroldheart_teaser-1671469832.jpg?t=eyJkb19ub3RfdHJhbnNmb3JtIjp0cnVlLCJvYmpfaWQiOjU5NTAwOTd9--e5d87db7b3c8d0801da02eedddcf3a7683279f66\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"551\" src=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/bd3uimjo_o-1024x551.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5693\" srcset=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/bd3uimjo_o-1024x551.jpg 1024w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/bd3uimjo_o-300x161.jpg 300w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/bd3uimjo_o-768x413.jpg 768w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/bd3uimjo_o.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mapas de estrelas gigantes, especialmente pobres em metais, identificadas a partir de dados do DR3 do Gaia que mostram, como uma regi\u00e3o concentrada (marcada com um c\u00edrculo), as estrelas do &#8220;pobre cora\u00e7\u00e3o velho&#8221; da Via L\u00e1ctea. O mapa mostra todo o c\u00e9u noturno da mesma forma que certos mapas do mundo mostram a superf\u00edcie da Terra. No centro do mapa est\u00e1 o Centro Gal\u00e1ctico.<br>Cr\u00e9dito: H.-W. Rix\/Instituto Max Planck para Astronomia<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Para as gal\u00e1xias, e em particular para a nossa, a arqueologia c\u00f3smica segue linhas muito semelhantes. Os blocos b\u00e1sicos de constru\u00e7\u00e3o de uma gal\u00e1xia s\u00e3o as suas estrelas. Para um pequeno subconjunto de estrelas, os astr\u00f3nomos podem deduzir com precis\u00e3o a sua idade. Por exemplo, isto \u00e9 verdade para as chamadas subgigantes, uma breve fase da evolu\u00e7\u00e3o estelar onde o brilho e temperatura de uma estrela podem ser usados para deduzir a sua idade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estimando a idade a partir da qu\u00edmica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mais geralmente, para quase todas as estrelas, existe um &#8220;estilo de constru\u00e7\u00e3o&#8221; que permite um veredicto geral acerca da idade: a chamada metalicidade de uma estrela, definida como a quantidade de elementos qu\u00edmicos mais pesados do que o h\u00e9lio na atmosfera da estrela. Tais elementos, a que os astr\u00f3nomos chamam &#8220;metais&#8221;, s\u00e3o produzidos dentro das estrelas atrav\u00e9s da fus\u00e3o nuclear e libertados perto ou no final da sua vida &#8211; alguns quando a atmosfera de uma estrela de baixa massa se dispersa; os elementos mais pesados, mais violentamente, quando uma estrela massiva explode como uma supernova. Desta forma, cada gera\u00e7\u00e3o de estrelas &#8220;semeia&#8221; o g\u00e1s interestelar a partir do qual se forma a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de estrelas e, geralmente, cada gera\u00e7\u00e3o ter\u00e1 uma metalicidade mais elevada do que as anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0s estruturas de maior escala, tal como numa cidade, a distribui\u00e7\u00e3o espacial tamb\u00e9m conta. Mas dado que uma gal\u00e1xia \u00e9 menos est\u00e1tica do que uma cidade &#8211; os edif\u00edcios n\u00e3o se deslocam, ao passo que as estrelas t\u00eam movimento &#8211; os padr\u00f5es de movimento codificam tamb\u00e9m informa\u00e7\u00e3o importante. As estrelas da Via L\u00e1ctea podem estar confinadas \u00e0s regi\u00f5es centrais, ou podem fazer parte de um movimento ordenado em torno dessas regi\u00f5es, posicionadas no disco fino ou no disco espesso da Via L\u00e1ctea. Ou ent\u00e3o podem fazer parte do caos de \u00f3rbitas no halo da nossa Gal\u00e1xia &#8211; incluindo aquelas estrelas muito exc\u00eantricas, que mergulham repetidamente atrav\u00e9s das regi\u00f5es interiores e exteriores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como as gal\u00e1xias crescem com o tempo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao passo que as cidades podem ser submetidas a per\u00edodos de constru\u00e7\u00e3o ou remodela\u00e7\u00e3o intensiva, a hist\u00f3ria gal\u00e1ctica \u00e9 moldada por fus\u00f5es e colis\u00f5es, bem como pelas vastas quantidades de hidrog\u00e9nio gasoso que fluem para as gal\u00e1xias ao longo de milhares de milh\u00f5es de anos, a mat\u00e9ria-prima para a constru\u00e7\u00e3o de estrelas por parte da gal\u00e1xia. A hist\u00f3ria de uma gal\u00e1xia come\u00e7a com protogal\u00e1xias mais pequenas: regi\u00f5es densas pouco depois do Big Bang, onde as nuvens de g\u00e1s colapsam para formar estrelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como tal, as protogal\u00e1xias colidem e fundem-se, formando gal\u00e1xias maiores. Acrescente-se uma protogal\u00e1xia a estes objetos j\u00e1 um pouco maiores, nomeadamente uma protogal\u00e1xia com um grande momento angular orbital, e podemos ficar com um disco de estrelas. Na fus\u00e3o de duas gal\u00e1xias suficientemente grandes, os seus reservat\u00f3rios de g\u00e1s v\u00e3o aquecer, formando uma complicada gal\u00e1xia el\u00edptica que combina uma escassez de nova forma\u00e7\u00e3o estelar com um padr\u00e3o complexo de \u00f3rbitas para estrelas mais antigas e existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o deste tipo de hist\u00f3ria \u00e9 uma quest\u00e3o de combinar observa\u00e7\u00f5es cada vez mais informativas com simula\u00e7\u00f5es cada vez mais sofisticadas. E embora o quadro geral do que acontece \u00e0 medida que as gal\u00e1xias se formam e evoluem j\u00e1 exista h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, as especificidades s\u00f3 surgiram comparativamente h\u00e1 pouco tempo &#8211; em grande parte gra\u00e7as a levantamentos que produziram melhores dados e mais abrangentes. A nossa Gal\u00e1xia, a Via L\u00e1ctea, desempenha um papel especial neste contexto. Por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 a gal\u00e1xia cujas estrelas podemos examinar melhor e da forma mais detalhada. A arqueologia gal\u00e1ctica, definida como o estudo da hist\u00f3ria da nossa Via L\u00e1ctea, n\u00e3o s\u00f3 nos permite reconstruir partes da nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria mais ampla, mas tamb\u00e9m aprender algo sobre a evolu\u00e7\u00e3o gal\u00e1ctica em geral.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que veio antes dos emocionantes anos da adolesc\u00eancia da Via L\u00e1ctea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este epis\u00f3dio particular da arqueologia gal\u00e1ctica come\u00e7ou com uma reconstru\u00e7\u00e3o publicada na primavera de 2022: os investigadores Maosheng Xiang e Hans-Walter Rix, do Instituto Max Planck para Astronomia, utilizaram dados do sat\u00e9lite Gaia da ESA e do levantamento espectral LAMOST para determinar as idades de estrelas numa amostra sem precedentes de 250.000 subgigantes. A partir desta an\u00e1lise, os astr\u00f3nomos foram capazes de reconstruir as consequ\u00eancias da emocionante adolesc\u00eancia da Via L\u00e1ctea, h\u00e1 11 mil milh\u00f5es de anos, e da sua subsequente idade adulta mais calma (ou &#8220;aborrecida&#8221;).<\/p>\n\n\n\n<p>(Os anos da sua adolesc\u00eancia coincidiram com a \u00faltima grande fus\u00e3o com outra gal\u00e1xia, de nome Gaia Enc\u00e9lado\/Salsicha, cujos remanescentes foram encontrados em 2018. Despoletou uma fase de intensa forma\u00e7\u00e3o estelar e levou a um disco estelar comparativamente espesso que podemos ver hoje em dia. A fase adulta consistiu de um fluxo moderado de hidrog\u00e9nio gasoso, que se instalou no disco fino e alargado da nossa Gal\u00e1xia, com uma lenta, mas cont\u00ednua forma\u00e7\u00e3o estelar ao longo de milhares de milh\u00f5es de anos.)<\/p>\n\n\n\n<p>O que os astr\u00f3nomos notaram na altura foi que as estrelas mais velhas na sua amostra da adolesc\u00eancia j\u00e1 tinham uma metalicidade consider\u00e1vel, cerca de 10% da metalicidade do nosso Sol. Claramente, antes da forma\u00e7\u00e3o dessas estrelas, devem ter existido ainda gera\u00e7\u00f5es anteriores que polu\u00edram o meio interestelar com metais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que nos dizem as simula\u00e7\u00f5es acerca do n\u00facleo antigo da Via L\u00e1ctea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De facto, a exist\u00eancia dessas gera\u00e7\u00f5es anteriores estava em linha com as previs\u00f5es das simula\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria c\u00f3smica. E, al\u00e9m disso, essas simula\u00e7\u00f5es previam onde as representantes, sobreviventes dessas gera\u00e7\u00f5es anteriores, poderiam razoavelmente ser encontradas! Especificamente, nestas simula\u00e7\u00f5es, a forma\u00e7\u00e3o inicial do que mais tarde se tornou na nossa Via L\u00e1ctea, envolveu tr\u00eas ou quatro protogal\u00e1xias que se tinham formado em estreita proximidade e que depois se fundiram umas com as outras, as suas estrelas assentando como um n\u00facleo comparativamente compacto, com n\u00e3o mais do que alguns milhares de anos-luz de di\u00e2metro.<\/p>\n\n\n\n<p>Adi\u00e7\u00f5es posteriores de gal\u00e1xias mais pequenas levariam \u00e0 cria\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias estruturas de disco e do halo. Mas, de acordo com as simula\u00e7\u00f5es, parte desse n\u00facleo inicial poderia ter sobrevivido, relativamente inc\u00f3lume, a estes desenvolvimentos posteriores. Deveria ser poss\u00edvel encontrar estrelas do n\u00facleo compacto inicial, o antigo cora\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea, ainda hoje perto e nas regi\u00f5es centrais da nossa Gal\u00e1xia, milhares de milh\u00f5es de anos mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em busca de estrelas do antigo n\u00facleo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta altura, Rix interessou-se por formas de efetivamente encontrar estrelas do n\u00facleo antigo da nossa Gal\u00e1xia. Mas ele sabia que para encontrar mais do que apenas algumas d\u00fazias dessas estrelas, precisaria de uma nova estrat\u00e9gia de observa\u00e7\u00e3o. O telesc\u00f3pio LAMOST, utilizado no estudo anterior, devido \u00e0 sua localiza\u00e7\u00e3o na Terra e \u00e0 sua incapacidade de observar durante os meses das mon\u00e7\u00f5es no ver\u00e3o, n\u00e3o pode de todo observar as regi\u00f5es do n\u00facleo da Via L\u00e1ctea. E as subgigantes, como escolha anterior, s\u00e3o demasiado fracas para serem observ\u00e1veis para al\u00e9m de dist\u00e2ncias de cerca de 7000 anos-luz, colocando as regi\u00f5es centrais da nossa Gal\u00e1xia fora de alcance.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembremo-nos que, em adi\u00e7\u00e3o \u00e0quelas raras estrelas onde podemos determinar idades espec\u00edficas, existe o indicador muito mais geral da metalicidade estelar &#8211; os &#8220;estilos vari\u00e1veis de constru\u00e7\u00e3o&#8221; que permitem classificar as estrelas como mais velhas ou mais jovens. Felizmente, em junho de 2022 foi divulgado o DR3 (Data Release 3) da miss\u00e3o Gaia da ESA. Desde 2014, o Gaia tem vindo a medir par\u00e2metros altamente precisos de posi\u00e7\u00e3o e movimento para mais de mil milh\u00f5es de estrelas, revolucionando (entre outros subcampos) a astronomia gal\u00e1ctica. O DR3 foi o primeiro cat\u00e1logo de dados a incluir alguns dos espectros reais que o Gaia tinha observado: espectros para 220 milh\u00f5es de objetos astron\u00f3micos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gigantes vermelhas do Gaia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os espectros s\u00e3o onde os astr\u00f3nomos encontram informa\u00e7\u00f5es sobre a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da atmosfera de uma estrela, incluindo a metalicidade. Mas ao passo que os espectros do Gaia s\u00e3o de alta qualidade, e em n\u00fameros sem igual, a resolu\u00e7\u00e3o espectral &#8211; qu\u00e3o finamente a luz de um objeto \u00e9 dividida por comprimento de onda nas cores elementares do arco-\u00edris &#8211; \u00e9 comparativamente baixa por defeito. A extra\u00e7\u00e3o de valores fi\u00e1veis da metalicidade a partir dos dados do Gaia exigiria uma an\u00e1lise extra, e foi isto que Hans-Walter Rix e Ren\u00e9 Andrae, investigador do Gaia no Instituto Max Planck para Astronomia, abordaram num projeto com o estudante visitante de ver\u00e3o Vedant Chandra da Universidade de Harvard.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sabiam que a sua an\u00e1lise era necess\u00e1ria para alcan\u00e7ar as regi\u00f5es centrais da Via L\u00e1ctea, os tr\u00eas astr\u00f3nomos olharam especificamente para as estrelas gigantes vermelhas na amostra do Gaia. As gigantes vermelhas t\u00edpicas s\u00e3o cerca de cem vezes mais brilhantes do que as subgigantes e facilmente observ\u00e1veis at\u00e9 nas distantes regi\u00f5es do n\u00facleo da nossa Gal\u00e1xia. Estas estrelas t\u00eam tamb\u00e9m a vantagem adicional de as caracter\u00edsticas espectrais que codificam a sua metalicidade serem comparativamente evidentes, tornando-as particularmente adequadas para o tipo de an\u00e1lise que os astr\u00f3nomos estavam a planear.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Extraindo metalicidades com aprendizagem de m\u00e1quina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para a an\u00e1lise propriamente dita, os astr\u00f3nomos recorreram a m\u00e9todos de aprendizagem de m\u00e1quina. Atualmente, muitos de n\u00f3s j\u00e1 se ter\u00e3o deparado com aplica\u00e7\u00f5es desta t\u00e9cnica inovadora: o software como o DALL-E que gera imagens adequadas a partir de simples descri\u00e7\u00f5es textuais, ou o ChatGPT que consegue responder mais ou menos competentemente a perguntas e satisfazer pedidos de escrita. A propriedade chave da aprendizagem de m\u00e1quina \u00e9 que as estrat\u00e9gias de solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o programadas explicitamente. Ao inv\u00e9s, no n\u00facleo do algoritmo est\u00e1 uma chamada rede neuronal, com semelhan\u00e7as superficiais com a forma como os neur\u00f3nios est\u00e3o dispostos no c\u00e9rebro humano. Essa rede neuronal \u00e9 ent\u00e3o treinada: s\u00e3o-lhe fornecidas combina\u00e7\u00f5es de tarefas e as solu\u00e7\u00f5es, e as liga\u00e7\u00f5es entre &#8220;input&#8221; e &#8220;output&#8221; ajustadas de modo a que, pelo menos para o conjunto de treino, a rede produza &#8220;outputs&#8221; corretos dado um &#8220;input&#8221; espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste caso em concreto, a rede neuronal foi treinada utilizando espectros selecionados do Gaia como &#8220;input&#8221; &#8211; especificamente: espectros do Gaia para os quais a resposta certa, a metalicidade, j\u00e1 era conhecida de outro levantamento (APOGEE, observa\u00e7\u00f5es espectrais de alta resolu\u00e7\u00e3o como parte do SDSS [Sloan Digital Sky Survey]). A estrutura interna da rede adaptou-se para que, pelo menos para o conjunto de treino, pudesse reproduzir as metalicidades corretas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Metalicidades fi\u00e1veis para 2 milh\u00f5es de gigantes brilhantes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um desafio geral na utiliza\u00e7\u00e3o de aprendizagem de m\u00e1quina na ci\u00eancia \u00e9 que, pela sua pr\u00f3pria natureza, a rede neuronal \u00e9 uma &#8220;caixa negra&#8221; &#8211; a sua estrutura interna foi formada pelo processo de treino e n\u00e3o est\u00e1 sob o controlo direto dos cientistas. \u00c9 por isso que, para come\u00e7ar, Andrae, Chandra e Rix treinaram a sua rede neuronal apenas com metade dos dados do APOGEE. Num segundo passo, o algoritmo foi ent\u00e3o configurado para provar o seu valor em rela\u00e7\u00e3o ao resto dos dados desse levantamento &#8211; com resultados espetaculares: a rede neuronal foi capaz de deduzir metalicidades precisas mesmo para estrelas que nunca tinha encontrado antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora que os investigadores n\u00e3o s\u00f3 tinham treinado a sua rede neuronal, mas tamb\u00e9m assegurado que poderiam obter resultados precisos para espectros que n\u00e3o tinha encontrado durante o seu treino, os investigadores aplicaram o algoritmo \u00e0 totalidade do seu conjunto de dados de espectros de gigantes vermelhas obtido pelo Gaia. Uma vez obtidos os resultados, os investigadores tiveram acesso a uma amostra de metalicidades precisas com um tamanho sem precedentes, consistindo em 2 milh\u00f5es de gigantes brilhantes na regi\u00e3o interna da Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mapeando o antigo cora\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com essa amostra, provou-se comparativamente f\u00e1cil a identifica\u00e7\u00e3o do antigo cora\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea &#8211; uma popula\u00e7\u00e3o de estrelas que Rix apelidou de &#8220;pobre cora\u00e7\u00e3o velho&#8221;, dada a sua baixa metalicidade, idade avan\u00e7ada inferida e localiza\u00e7\u00e3o central. Num mapa do c\u00e9u, estas estrelas parecem estar concentradas em torno do Centro Gal\u00e1ctico. As dist\u00e2ncias convenientemente fornecidas pelo Gaia (atrav\u00e9s do m\u00e9todo de paralaxe) permitem uma reconstru\u00e7\u00e3o 3D que mostra essas estrelas confinadas a uma regi\u00e3o comparativamente pequena em torno do centro, com aproximadamente 30.000 anos-luz de di\u00e2metro.<\/p>\n\n\n\n<p>As estrelas em quest\u00e3o complementam perfeitamente o estudo anterior de Xiang e Rix sobre os anos da adolesc\u00eancia da Via L\u00e1ctea: possuem a metalicidade certa para terem trazido \u00e0 ribalta as estrelas mais pobres em metais que, mais tarde, formaram o disco espesso da Via L\u00e1ctea. Tendo em conta que esse estudo anterior forneceu uma cronologia para a forma\u00e7\u00e3o dos discos espessos, isto faz com que o antigo cora\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea tenha 12,5 mil milh\u00f5es de anos ou mais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Corrobora\u00e7\u00e3o a partir da qu\u00edmica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para o pequeno subconjunto de objetos para os quais os espectros do APOGEE est\u00e3o dispon\u00edveis, \u00e9 poss\u00edvel ir um passo mais al\u00e9m: estes espectros fornecem propriedades adicionais das estrelas do pobre cora\u00e7\u00e3o velho neste subconjunto, especificamente a abund\u00e2ncia de elementos como o oxig\u00e9nio, sil\u00edcio e n\u00e9on. Esses elementos podem ser obtidos atrav\u00e9s da adi\u00e7\u00e3o sucessiva de part\u00edculas alfa (n\u00facleos de h\u00e9lio-4) aos n\u00facleos existentes, num processo chamado &#8220;melhoramento alfa&#8221;. A sua presen\u00e7a em tais quantidades indica que as primeiras estrelas obtiveram os seus metais de um ambiente em que elementos mais pesados foram produzidos em escalas de tempo comparativamente curtas atrav\u00e9s das explos\u00f5es de supernova de estrelas massivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9 muito mais consistente com o facto destas estrelas se terem formado diretamente ap\u00f3s as primeiras protogal\u00e1xias se terem fundido para formar o n\u00facleo inicial da Via L\u00e1ctea, em vez de j\u00e1 terem estado presentes nas gal\u00e1xias an\u00e3s que formaram o n\u00facleo inicial ou que se fundiram com a Via L\u00e1ctea posteriormente. Constitui mais uma corrobora\u00e7\u00e3o do que as simula\u00e7\u00f5es cosmol\u00f3gicas t\u00eam a dizer sobre a hist\u00f3ria mais antiga da nossa Gal\u00e1xia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um percurso para encontrar as gal\u00e1xias progenitoras da Via L\u00e1ctea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora a informa\u00e7\u00e3o obtida a partir da vis\u00e3o global do Gaia seja pioneira na demonstra\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia cont\u00ednua do &#8220;pobre cora\u00e7\u00e3o velho&#8221; da Via L\u00e1ctea, esta descoberta faz com que os astr\u00f3nomos queiram imediatamente mais: ser\u00e1 que podemos obter mais espectros detalhados para todas essas estrelas, que permitem uma an\u00e1lise detalhada da sua composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica? Ser\u00e1 que todas elas mostram melhoramento alfa, consistente com a sua forma\u00e7\u00e3o no n\u00facleo inicial da Via L\u00e1ctea? Os espectros de acompanhamento obtidos no \u00e2mbito do rec\u00e9m-lan\u00e7ado levantamento SDSS-V ou do futuro 4MOST, prometem permitir ao grupo obter a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para responder a estas quest\u00f5es chave.<\/p>\n\n\n\n<p>Se as coisas correrem excecionalmente bem, os dados adicionais podem at\u00e9 permitir aos investigadores identificar quais as estrelas na regi\u00e3o central que pertencem \u00e0s gal\u00e1xias progenitoras da Via L\u00e1ctea: para uma estrela mais velha, os dados adicionais sobre a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e temperatura permitem uma estimativa fi\u00e1vel da luminosidade da estrela. Em compara\u00e7\u00e3o com a luminosidade dessa estrela no c\u00e9u, pode-se deduzir a dist\u00e2ncia \u00e0 estrela &#8211; quanto mais distante estiver uma estrela, mais fraca parecer-nos-\u00e1. Para as estrelas comparativamente muito distantes em quest\u00e3o, os valores de dist\u00e2ncia obtidos desta forma s\u00e3o consideravelmente mais precisos do que os resultados das medi\u00e7\u00f5es de paralaxe pelo Gaia.<\/p>\n\n\n\n<p>A combina\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de uma estrela no c\u00e9u e a sua dist\u00e2ncia d\u00e1-nos a localiza\u00e7\u00e3o tridimensional da estrela dentro da Via L\u00e1ctea. A informa\u00e7\u00e3o sobre o movimento das estrelas na nossa dire\u00e7\u00e3o ou na dire\u00e7\u00e3o oposta &#8211; medido pelo efeito Doppler das suas linhas espectrais -, combinada com os seus movimentos aparentes no c\u00e9u, permite a reconstru\u00e7\u00e3o das \u00f3rbitas das estrelas dentro da nossa Gal\u00e1xia. Se tal an\u00e1lise mostrar que as estrelas do pobre cora\u00e7\u00e3o velho pertencem a dois ou tr\u00eas grupos diferentes, cada um com o seu pr\u00f3prio padr\u00e3o de movimento, \u00e9 prov\u00e1vel que esses grupos correspondam \u00e0s diferentes duas ou tr\u00eas gal\u00e1xias progenitoras cuja fus\u00e3o inicial criou a arcaica Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.mpia.de\/news\/science\/2022-19-ancient-heart\" target=\"_blank\">\/\/ Instituto Max Planck para Astronomia (comunicado de imprensa)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/iopscience.iop.org\/article\/10.3847\/1538-4357\/ac9e01\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (The Astrophysical Journal)<\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Saiba mais:<\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Via L\u00e1ctea:<\/strong><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Milky_Way\" target=\"_blank\">Wikipedia<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/messier.seds.org\/more\/mw.html\" target=\"_blank\">SEDS<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Galactic_Center\" target=\"_blank\">Centro Gal\u00e1ctico (Wikipedia)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estrela subgigante:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Subgiant\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gigante vermelha:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Red_giant\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gaia-Salsicha-Enc\u00e9lado:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Gaia_Sausage\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8T2EdRZ_iE4\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Simula\u00e7\u00e3o da Salsicha Gaia (Denis Erkal via YouTube)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Forma\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o gal\u00e1ctica:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Galaxy_formation_and_evolution\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gaia:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/sci.esa.int\/gaia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ESA<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.esa.int\/Our_Activities\/Space_Science\/Gaia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ESA &#8211; 2<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.cosmos.esa.int\/web\/gaia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Gaia\/ESA<\/a><br><a href=\"http:\/\/gsaweb.ast.cam.ac.uk\/alerts\/home\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Programa Alertas de Ci\u00eancia Fotom\u00e9trica do Gaia<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.cosmos.esa.int\/web\/gaia\/data-release-3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cat\u00e1logo DR3 do Gaia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>LAMOST:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/www.lamost.org\/public\/?locale=en\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">P\u00e1gina principal<\/a><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/LAMOST\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>APOGEE:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/www.sdss3.org\/surveys\/apogee.php\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">SDSS<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um grupo de astr\u00f3nomos conseguiu identificar o &#8220;pobre cora\u00e7\u00e3o velho da Via L\u00e1ctea&#8221; &#8211; uma popula\u00e7\u00e3o de estrelas remanescente da hist\u00f3ria inicial da nossa Gal\u00e1xia, que reside nas regi\u00f5es centrais. Para este feito de &#8220;arqueologia gal\u00e1ctica&#8221;, os investigadores analisaram dados do mais recente cat\u00e1logo da miss\u00e3o Gaia da ESA, utilizando uma rede neuronal para extrair &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5693,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50,60,16,1,59],"tags":[966,1309,534,311,511,506,629,939,180],"class_list":["post-5692","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","","category-estrelas","category-galaxias","category-sondas-missoes-espaciais","category-telescopios-profissionais","category-via-lactea","tag-apogee","tag-estrela-subgigante","tag-formacao-galactica","tag-gaia","tag-gaia-encelado","tag-gigante-vermelha","tag-lamost","tag-salsicha-gaia","tag-via-lactea"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5692","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5692"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5692\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5694,"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5692\/revisions\/5694"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5693"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}