{"id":4304,"date":"2021-07-13T06:30:17","date_gmt":"2021-07-13T05:30:17","guid":{"rendered":"http:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/?p=4304"},"modified":"2021-07-13T06:30:18","modified_gmt":"2021-07-13T05:30:18","slug":"ver-alguns-emissores-cosmicos-de-raios-x-pode-ser-uma-questao-de-perspetiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/2021\/07\/13\/ver-alguns-emissores-cosmicos-de-raios-x-pode-ser-uma-questao-de-perspetiva\/","title":{"rendered":"Ver alguns emissores c\u00f3smicos de raios-X pode ser uma quest\u00e3o de perspetiva"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o notar o feixe de uma lanterna apontada diretamente para n\u00f3s. Mas esse feixe visto de lado parece significativamente mais t\u00e9nue. O mesmo \u00e9 v\u00e1lido para alguns objetos c\u00f3smicos: como uma lanterna, irradiam principalmente numa dire\u00e7\u00e3o e parecem dramaticamente diferentes dependendo se o feixe aponta para longe da Terra (e telesc\u00f3pios espaciais pr\u00f3ximos) ou diretamente para ela.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.nasa.gov\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/1-ss_433_cannibalizing_a_star.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"985\" height=\"554\" src=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/9NNQfTMv_o.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4305\" srcset=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/9NNQfTMv_o.jpg 985w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/9NNQfTMv_o-300x169.jpg 300w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/9NNQfTMv_o-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 985px) 100vw, 985px\" \/><\/a><figcaption>Esta ilustra\u00e7\u00e3o mostra SS 433, um buraco negro ou uma estrela de neutr\u00f5es, enquanto puxa material da sua estrela companheira. O material estelar forma um disco em torno de SS 433, e algum do material \u00e9 expelido para o espa\u00e7o na forma de dois jatos finos (rosa) que viajam em dire\u00e7\u00f5es opostas para longe de SS 433.<br>Cr\u00e9dito: DESY\/Science Communication Lab<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Novos dados do observat\u00f3rio espacial NuSTAR da NASA indicam que este fen\u00f3meno \u00e9 verdadeiro para alguns dos mais proeminentes emissores de raios-X no Universo local: as fontes ultraluminosas de raios-X ou ULXs (abreviatura inglesa para &#8220;ultraluminous X-ray sources&#8221;). A maioria dos objetos c\u00f3smicos, incluindo estrelas, irradiam poucos raios-X, particularmente na gama altamente energ\u00e9tica vista pelo NuSTAR. As ULXs, em contraste, s\u00e3o como far\u00f3is de raios-X que cortam a escurid\u00e3o. Para ser considerada uma ULX, uma fonte deve ter uma luminosidade de raios-X cerca de um milh\u00e3o de vezes mais brilhante do que o output total de luz do Sol (em todos os comprimentos de onda). As ULXs s\u00e3o t\u00e3o brilhantes que podem ser vistas a milh\u00f5es de anos-luz de dist\u00e2ncia, noutras gal\u00e1xias.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo estudo mostra que o objeto conhecido como SS 433, localizado na Via L\u00e1ctea e a apenas mais ou menos 20.000 anos-luz da Terra, \u00e9 uma ULX, embora pare\u00e7a ser cerca de 1000 mais fraco do que o limite m\u00ednimo para ser considerado uma.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o estudo, este pouco brilho \u00e9 um truque de perspetiva: os raios-X altamente energ\u00e9ticos de SS 433 est\u00e3o inicialmente confinados a dois cones de g\u00e1s que se estendem para lados opostos do objeto central. Estes cones s\u00e3o semelhantes a uma tigela espelhada que envolve a l\u00e2mpada de uma lanterna: &#8220;encurralam&#8221; os raios-X de SS 433 num feixe estreito, at\u00e9 que escapa e \u00e9 detetado pelo NuSTAR. Mas como os cones n\u00e3o apontam diretamente para a Terra, o NuSTAR n\u00e3o consegue ver o brilho total do objeto.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/ec\/88\/pXxenmUh_o.gif\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/ec\/88\/pXxenmUh_o.gif\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption>Esta ilustra\u00e7\u00e3o mostra SS 433, um buraco negro ou uma estrela de neutr\u00f5es, enquanto puxa material da sua estrela companheira. O material estelar forma um disco em torno de SS 433, e algum do material \u00e9 expelido para o espa\u00e7o na forma de dois jatos finos (rosa) que viajam em dire\u00e7\u00f5es opostas para longe de SS 433.<br>Cr\u00e9dito: DESY\/Science Communication Lab<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 muito que suspeitamos que algumas ULXs emitem luz em colunas estreitas, em vez de em todas as dire\u00e7\u00f5es como uma l\u00e2mpada,&#8221; disse Matt Middleton, professor de astrof\u00edsica da Universidade de Southampton no Reino Unido e autor principal do estudo. &#8220;No nosso estudo, confirmamos esta hip\u00f3tese mostrando que SS 433 qualificar-se-ia como uma ULX para um observador que o visse de frente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Se uma ULX relativamente perto da Terra pode esconder o seu brilho verdadeiro devido \u00e0 sua orienta\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o provavelmente existem mais ULXs &#8211; particularmente noutras gal\u00e1xias &#8211; disfar\u00e7adas de maneira semelhante. Isto significa que a popula\u00e7\u00e3o total de ULXs deve ser muito maior do que os cientistas observam atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cone da Escurid\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 foram encontradas cerca de 500 ULXs noutras gal\u00e1xias, e a sua dist\u00e2ncia da Terra significa que muitas vezes \u00e9 quase imposs\u00edvel dizer que tipo de objeto gera a emiss\u00e3o de raios-X. Os raios-X provavelmente v\u00eam de uma grande quantidade de g\u00e1s sendo aquecido a temperaturas extremas ao ser puxado pela gravidade de um objeto muito denso. Esse objeto pode ser uma estrela de neutr\u00f5es (o remanescente de uma estrela colapsada) ou um pequeno buraco negro, que n\u00e3o tem mais do que cerca de 30 vezes a massa do nosso Sol. O g\u00e1s forma um disco em torno do objeto, como \u00e1gua num ralo. O atrito no disco aumenta a temperatura, fazendo com que irradie, \u00e0s vezes ficando t\u00e3o quente que o sistema entra em erup\u00e7\u00e3o com raios-X. Quanto mais depressa o material cai sobre o objeto central, mais brilhantes s\u00e3o os raios-X.<\/p>\n\n\n\n<p>Os astr\u00f3nomos suspeitam que o objeto no cora\u00e7\u00e3o de SS 433 \u00e9 um buraco negro com aproximadamente 10 vezes a massa do nosso Sol. O que se sabe com certeza \u00e9 que est\u00e1 a canibalizar uma estrela grande pr\u00f3xima, a sua gravidade sugando material a um ritmo r\u00e1pido: num \u00fanico ano, SS 433 rouba o equivalente a cerca de 30 vezes a massa da Terra da sua vizinha, o que o torna o buraco negro ou estrela de neutr\u00f5es mais gananciosa conhecida na nossa Gal\u00e1xia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 muito tempo que se sabe que este objeto &#8216;come&#8217; a um ritmo fenomenal,&#8221; disse Middleton. &#8220;Isto \u00e9 o que separa as ULXs de outros objetos, e \u00e9 provavelmente a causa das grandes quantidades de raios-X que vemos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O objeto em SS 433 tem olhos maiores do que o seu est\u00f4mago: est\u00e1 a roubar mais material do que pode consumir. Parte do excesso de material \u00e9 expelido do disco e forma dois hemisf\u00e9rios em lados opostos do disco. Dentro de cada um h\u00e1 um vazio em forma de cone que se abre para o espa\u00e7o. Estes s\u00e3o os cones que envolvem os raios-X altamente energ\u00e9ticos num feixe. Qualquer pessoa que olhasse diretamente para um dos cones veria uma \u00f3bvia ULX. Embora compostos apenas de g\u00e1s, os cones s\u00e3o t\u00e3o espessos e massivos que agem como um painel de chumbo numa sala de raios-X e bloqueiam a passagem dos raios-X para o exterior.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.nasa.gov\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/3-pia24574-nustar_infograph_horizontal.png\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images2.imgbox.com\/b3\/64\/vuxirEFN_o.png\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption>O objeto c\u00f3smico SS 433 cont\u00e9m uma fonte brilhante de raios-X rodeada por dois hemisf\u00e9rios de g\u00e1s quente. O g\u00e1s &#8220;encurrala&#8221; os raios-X em feixes que apontam em dire\u00e7\u00f5es opostas para longe da fonte. SS 433 inclina-se periodicamente, fazendo com que o um dos feixes aponte na dire\u00e7\u00e3o da Terra.<br>Cr\u00e9dito: NASA\/JPL-Caltech<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Os cientistas suspeitam que algumas ULXs pode estar escondidas por esta raz\u00e3o. SS 433 fornece uma oportunidade \u00fanica de testar esta ideia porque, como um pi\u00e3o, oscila no seu eixo &#8211; um processo que os astr\u00f3nomos chamam de precess\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria das vezes, ambos os cones de SS 433 apontam bem para longe da Terra. Mas, devido \u00e0 forma como SS 433 precessa, um cone periodicamente inclina-se levemente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra, de modo que os cientistas podem ver um pouco dos raios-X que saem do topo do cone. No novo estudo, os cientistas observaram como os raios-X vistos pelo NuSTAR mudam conforme SS 433 se move. Eles mostram que se o cone continuasse a inclinar-se em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra para que os cientistas pudessem olhar diretamente para baixo, veriam raios-X suficientes para classificar oficialmente SS 433 como uma ULX.<\/p>\n\n\n\n<p>Os buracos negros que se alimentam a ritmos t\u00e3o extremos moldaram a hist\u00f3ria do nosso Universo. Os buracos negros supermassivos, que t\u00eam milh\u00f5es a milhares de milh\u00f5es de vezes a massa do Sol, podem afetar profundamente a sua gal\u00e1xia hospedeira quando se alimentam. No in\u00edcio da hist\u00f3ria do Universo, alguns destes enormes buracos negros podem ter-se alimentado t\u00e3o depressa quando SS 433, libertando enormes quantidades de radia\u00e7\u00e3o que remodelaram os ambientes locais. Os fluxos exteriores (como os cones em SS 433) redistribu\u00edram a mat\u00e9ria que poderia eventualmente formar estrelas e outros objetos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas dado que estes gigantes vorazes residem em gal\u00e1xias incrivelmente distantes (o buraco negro situado no cora\u00e7\u00e3o da Via L\u00e1ctea atualmente n\u00e3o est\u00e1 a comer muito), permanecem dif\u00edceis de estudar. Com SS 433, os cientistas encontraram um exemplo em miniatura deste processo, muito mais perto de casa e muito mais f\u00e1cil de estudar, e o NuSTAR forneceu novas informa\u00e7\u00f5es sobre a atividade que a\u00ed ocorre.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando lan\u00e7\u00e1mos o NuSTAR, n\u00e3o acho que ningu\u00e9m esperava que as ULXs fossem uma \u00e1rea de investiga\u00e7\u00e3o t\u00e3o rica,&#8221; disse Fiona Harrison, investigadora principal do NuSTAR e professora de f\u00edsica no Caltech em Pasadena, no estado norte-americano da Calif\u00f3rnia. &#8220;Mas o NuSTAR \u00e9 o \u00fanico que pode ver quase toda a gama de comprimentos de onda de raios-X emitidos por estes objetos, e isso d\u00e1-nos uma vis\u00e3o sobre os processos extremos que os impulsionam.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.nasa.gov\/feature\/jpl\/seeing-some-cosmic-x-ray-emitters-might-be-a-matter-of-perspective\" target=\"_blank\">\/\/ NASA (comunicado de imprensa)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/academic.oup.com\/mnras\/advance-article-abstract\/doi\/10.1093\/mnras\/stab1280\/6270899?redirectedFrom=fulltext\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/1810.10518\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (arXiv.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Saiba mais:<\/h4>\n\n\n\n<p><strong>SS 433:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/simbad.u-strasbg.fr\/simbad\/sim-id?Ident=SS%20433\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Simbad<\/a><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/SS_433\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fontes Ultraluminosas de raios-X (ULX, &#8220;ultraluminous X-ray sources&#8221;):<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ultraluminous_X-ray_source\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>NuSTAR:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/www.nasa.gov\/mission_pages\/nustar\/main\/index.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">NASA<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.nustar.caltech.edu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Caltech<\/a><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/NuSTAR\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o notar o feixe de uma lanterna apontada diretamente para n\u00f3s. 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