{"id":3757,"date":"2020-12-15T06:38:19","date_gmt":"2020-12-15T06:38:19","guid":{"rendered":"http:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/?p=3757"},"modified":"2020-12-15T06:38:21","modified_gmt":"2020-12-15T06:38:21","slug":"erosita-encontra-bolhas-enormes-no-halo-da-via-lactea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/2020\/12\/15\/erosita-encontra-bolhas-enormes-no-halo-da-via-lactea\/","title":{"rendered":"eROSITA encontra bolhas enormes no halo da Via L\u00e1ctea"},"content":{"rendered":"\n<p>O primeiro levantamento de todo o c\u00e9u realizado pelo telesc\u00f3pio de raios-X eROSITA a bordo do observat\u00f3rio SRG (Spektrum-Roentgen-Gamma) revelou uma grande estrutura em forma de ampulheta na Via L\u00e1ctea. Estas &#8220;bolhas eROSITA&#8221; mostram uma semelhan\u00e7a impressionante com as bolhas de Fermi, detetadas h\u00e1 uma d\u00e9cada a energias ainda mais altas. A explica\u00e7\u00e3o mais prov\u00e1vel para estas caracter\u00edsticas \u00e9 uma inje\u00e7\u00e3o massiva de energia no Centro Gal\u00e1ctico no passado, levando a choques no inv\u00f3lucro de g\u00e1s quente da nossa Gal\u00e1xia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/i.imgur.com\/ciuoxvA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"521\" src=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/ciuoxvA-1024x521.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3758\" srcset=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/ciuoxvA-1024x521.jpg 1024w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/ciuoxvA-300x153.jpg 300w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/ciuoxvA-768x390.jpg 768w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/ciuoxvA-1536x781.jpg 1536w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/ciuoxvA.jpg 1800w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>O mapa de todo o c\u00e9u pelo eROSITA do Observat\u00f3rio SRG como uma imagem em cores falsas (vermelho para energias de 0,3-0,6 keV, verde para 0,6-1,0 keV, azul para 1,0-2,3 keV). A imagem original, com uma resolu\u00e7\u00e3o de aproximadamente 12&#8243;, foi modificada a fim de gerar a foto acima.<br>Cr\u00e9dito: Universidade de Tubinga<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os astr\u00f3nomos detetaram uma nova caracter\u00edstica not\u00e1vel no primeiro mapa de todo o c\u00e9u produzido pelo telesc\u00f3pio de raios-X eROSITA no SRG: uma enorme estrutura circular de g\u00e1s quente abaixo do plano da Via L\u00e1ctea ocupando a maior parte do c\u00e9u do sul. Uma estrutura semelhante no c\u00e9u norte, a &#8220;espora polar norte&#8221;, \u00e9 conhecida h\u00e1 muito tempo e pensava-se que fosse o vest\u00edgio de uma velha explos\u00e3o de supernova. Juntas, as estruturas do norte e do sul, ao inv\u00e9s, s\u00e3o um remanescente de um \u00fanico conjunto de bolhas em forma de ampulheta emergindo do Centro Gal\u00e1ctico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Gra\u00e7as \u00e0 sua sensibilidade, resolu\u00e7\u00e3o espectral e angular, o eROSITA foi capaz de mapear todo o c\u00e9u em raios-X a uma profundidade sem precedentes, revelando a bolha do sul sem qualquer espa\u00e7o para d\u00favidas,&#8221; explica Michael Freyberg, cientista s\u00e9nior que trabalha com o eROSITA no Instituto Max Planck para F\u00edsica Extraterrestre. O eROSITA varre todo o c\u00e9u a cada seis meses e os dados permitem que os cientistas procurem estruturas que cobrem uma parte significativa de todo o c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Limites acentuados<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A emiss\u00e3o de raios-X em grande escala observada pelo eROSITA na sua banda de energia m\u00e9dia (0,6-1,0 keV) mostra que o tamanho intr\u00ednseco das bolhas \u00e9 de v\u00e1rios kiloparsecs (ou at\u00e9 50.000 anos-luz) de di\u00e2metro, quase t\u00e3o grande quanto toda a Via L\u00e1ctea. Estas &#8220;bolhas eROSITA&#8221; mostram semelhan\u00e7as morfol\u00f3gicas impressionantes com as bem conhecidas &#8220;bolhas de Fermi&#8221; detetadas em raios-gama pelo Telesc\u00f3pio Fermi, mas s\u00e3o maiores e mais energ\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os contornos n\u00edtidos destas bolhas provavelmente tra\u00e7am choques provocados pela inje\u00e7\u00e3o massiva de energia da parte interna da nossa Gal\u00e1xia no Halo Gal\u00e1ctico,&#8221; aponta Peter Predehl, autor principal do estudo agora publicado na revista Nature. &#8220;Tal explica\u00e7\u00e3o tinha sido sugerida anteriormente paras as bolhas de Fermi, e agora com o eROSITA a sua extens\u00e3o completa e morfologia tornaram-se evidentes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta descoberta vai ajudar os astr\u00f3nomos a compreender o ciclo c\u00f3smico da mat\u00e9ria dentro e em torno da Via L\u00e1ctea e das outras gal\u00e1xias. A maior parte da mat\u00e9ria comum (bari\u00f3nica) do Universo \u00e9 invis\u00edvel aos nossos olhos, com todas as estrelas e gal\u00e1xias que observamos com telesc\u00f3pios \u00f3ticos compreendendo menos de 10% da sua massa total. Pensa-se que vastas quantidades de mat\u00e9ria bari\u00f3nica n\u00e3o observada residam em halos t\u00e9nues enrolados como casulos em torno das gal\u00e1xias e dos filamentos entre elas na teia c\u00f3smica. Estes halos s\u00e3o quentes, com uma temperatura de milh\u00f5es de graus e, portanto, vis\u00edveis apenas com telesc\u00f3pios sens\u00edveis \u00e0 radia\u00e7\u00e3o altamente energ\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Enorme liberta\u00e7\u00e3o de energia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As bolhas agora observadas com o eROSITA tra\u00e7am perturba\u00e7\u00f5es neste inv\u00f3lucro de g\u00e1s quente em torno da nossa Via L\u00e1ctea, provocadas por um surto de forma\u00e7\u00e3o estelar ou por uma explos\u00e3o do buraco negro supermassivo no Centro Gal\u00e1ctico. Embora agora dormente, o buraco negro pode muito bem ter estado ativo no passado, ligando-o a n\u00facleos gal\u00e1cticos ativos (NGAs) com buracos negros de crescimento r\u00e1pido vistos em gal\u00e1xias distantes. Em qualquer caso, a energia necess\u00e1ria para alimentar a forma\u00e7\u00e3o destas bolhas gigantescas deve ter sido enorme a 10^56 ergs, o equivalente \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica de 100.000 supernovas, e semelhante \u00e0s estimativas de explos\u00f5es dos NGAs.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/i.imgur.com\/hypmXgZ.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/hypmXgZ.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption>Vista esquem\u00e1tica das bolhas eROSITA (a amarelo) e das bolhas Femi (a roxo). O disco gal\u00e1ctico \u00e9 indicado com os bra\u00e7os espirais e a posi\u00e7\u00e3o do Sistema Solar est\u00e1 assinalada. As bolhas eROSITA s\u00e3o consideravelmente maiores do que as bolhas de Fermi, indicando que estas estruturas s\u00e3o compar\u00e1veis em tamanho com toda a Gal\u00e1xia.<br>Cr\u00e9dito: Universidade de Tubinga<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;As cicatrizes deixadas por estas explos\u00f5es levam muito tempo a &#8216;curar&#8217; nestes halos,&#8221; acrescenta Andrea Merloni, investigador principal do eROSITA. &#8220;Os cientistas t\u00eam procurado no passado impress\u00f5es digitais gigantescas deste tipo de atividades violentas em torno de muitas gal\u00e1xias&#8221;. As bolhas eROSITA fornecem agora forte suporte para intera\u00e7\u00f5es em grande escala entre o n\u00facleo da nossa Gal\u00e1xia e o halo em seu redor, que s\u00e3o energ\u00e9ticas o suficiente para perturbar a estrutura, o conte\u00fado energ\u00e9tico e o enriquecimento qu\u00edmico do meio circumgal\u00e1ctico da Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O eROSITA est\u00e1 atualmente a concluir a segunda varredura de todo o c\u00e9u, duplicando o n\u00famero de fot\u00f5es de raios-X provenientes das bolhas que descobrimos,&#8221; aponta Rashid Sunyaev, cientista-chefe do Observat\u00f3rio SRG na R\u00fassia. &#8220;Temos muito trabalho pela frente, porque os dados do eROSITA tornam poss\u00edvel destacar muitas linhas espectrais de raios-X emitidas por g\u00e1s altamente ionizado. Isto significa que a porta est\u00e1 aberta para o estudo da abund\u00e2ncia de elementos qu\u00edmicos, o grau da sua ioniza\u00e7\u00e3o, a densidade e temperatura do g\u00e1s emitente nas bolhas, para identificar os locais das ondas de choque e estimar escalas de tempo caracter\u00edsticas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O IAAT (Institute for Astronomy and Astrophysics) da Universidade de Tubinga, Alemanha, \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es centrais do cons\u00f3rcio alem\u00e3o eROSITA; esteve envolvido no desenvolvimento das sete c\u00e2maras do telesc\u00f3pio e noutras atividades pr\u00e9-lan\u00e7amento, incluindo a avalia\u00e7\u00e3o do fundo em \u00f3rbita e simula\u00e7\u00f5es do observat\u00f3rio em a\u00e7\u00e3o. Desde o in\u00edcio do levantamento, os cientistas de Tubinga t\u00eam trabalhado na an\u00e1lise dos dados \u00e0 medida que chegam, com foco em objetos gal\u00e1cticos como estrelas de neutr\u00f5es em acre\u00e7\u00e3o, buracos negros, remanescentes de supernova e, claro, as rec\u00e9m-descobertas bolhas eROSITA.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/i.imgur.com\/9r8a9Ik.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.imgur.com\/9r8a9Ik.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o de como as bolhas eROSITA e Fermi (a azul\/verde e laranja, respetivamente) pareceriam no nosso c\u00e9u, caso o olho humano a pudesse observar &#8211; e caso Tubinga estivesse localizada perto do equador. Na verdade, s\u00f3 a parte norte das bolhas \u00e9 vis\u00edvel a partir de Tubinga.<br>Cr\u00e9dito: Universidade de Tubinga<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Estamos apenas a come\u00e7ar a estudar esta estrutura gigantesca em detalhe e todos os dias recebemos mais luz que transporta informa\u00e7\u00e3o. Em breve seremos capazes de estudar as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas em v\u00e1rias partes da bolha. Isto \u00e9 algo que apenas o eROSITA pode fazer, e algo que esperan\u00e7osamente nos permitir\u00e1 entender melhor o presente e o passado da nossa pr\u00f3pria Gal\u00e1xia e de outras gal\u00e1xias onde s\u00e3o observadas v\u00e1rias formas de atividade no n\u00facleo,&#8221; diz Victor Doroshenko, cientista s\u00e9nior do IAAT. &#8220;O que mais me impressiona nesta estrutura \u00e9 a sua vasta extens\u00e3o, e que permaneceu por descobrir durante a maior parte da nossa hist\u00f3ria. Isto porque s\u00f3 um levantamento de todo o c\u00e9u em raios-X poderia revelar uma estrutura t\u00e3o grande e isto \u00e9 realmente complexo e envolve enormes desafios t\u00e9cnicos que n\u00e3o puderam ser superados at\u00e9 recentemente. Mesmo agora, projetos a esta escala exigem um esfor\u00e7o conjunto de muitas institui\u00e7\u00f5es e na\u00e7\u00f5es, e estou feliz que o IAAT possa manter-se competitivo,&#8221; acrescenta Doroshenko.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/uni-tuebingen.de\/en\/university\/news-and-publications\/press-releases\/press-releases\/article\/erosita-finds-large-scale-bubbles-in-the-halo-of-the-milky-way\/\" target=\"_blank\">\/\/ Universidade de Tubinga (comunicado de imprensa)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.mpe.mpg.de\/7540556\/news20201210\" target=\"_blank\">\/\/ Instituto Max Planck para F\u00edsica Extraterrestre (comunicado de imprensa)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-020-2979-0\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (Nature)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/2012.05840\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (arXiv.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Saiba mais:<\/h4>\n\n\n\n<p><strong>Not\u00edcias relacionadas:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/www.newscientist.com\/article\/2262113-the-milky-ways-black-hole-burped-out-two-colossal-x-ray-bubbles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">New Scientist<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.sciencealert.com\/there-are-colossal-x-ray-bubbles-expanding-above-and-below-the-milky-way\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Science alert<\/a><br><a href=\"https:\/\/phys.org\/news\/2020-12-erosita-large-scale-halo-milky.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">PHYSORG<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Via L\u00e1ctea:<\/strong><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Milky_Way\" target=\"_blank\">Wikipedia<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/messier.seds.org\/more\/mw.html\" target=\"_blank\">SEDS<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sagit\u00e1rio A*:<br><\/strong><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Sagittarius_A*\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bolhas de Fermi:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/fermi.gsfc.nasa.gov\/science\/constellations\/pages\/bubbles.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">NASA<\/a><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Fermi_Gamma-ray_Space_Telescope#Milky_Way_Gamma-_and_X-ray_emitting_Fermi_bubbles\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>eROSITA:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/www.mpe.mpg.de\/eROSITA\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto Max Planck para F\u00edsica Extraterrestre<\/a><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/EROSITA\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Observat\u00f3rio SRG:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Spektr-RG\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro levantamento de todo o c\u00e9u realizado pelo telesc\u00f3pio de raios-X eROSITA a bordo do observat\u00f3rio SRG (Spektrum-Roentgen-Gamma) revelou uma grande estrutura em forma de ampulheta na Via L\u00e1ctea. 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