{"id":3565,"date":"2020-10-09T05:25:57","date_gmt":"2020-10-09T05:25:57","guid":{"rendered":"http:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/?p=3565"},"modified":"2020-10-09T05:26:08","modified_gmt":"2020-10-09T05:26:08","slug":"o-achatamento-de-um-boneco-de-neve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/2020\/10\/09\/o-achatamento-de-um-boneco-de-neve\/","title":{"rendered":"O achatamento de um &#8220;boneco de neve&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Os muitos milh\u00f5es de corpos que povoam a Cintura de Kuiper, para l\u00e1 da \u00f3rbita de Neptuno, ainda n\u00e3o revelaram muitos dos seus segredos. Na d\u00e9cada de 1980, as sondas espaciais Pioneer 1 e 2, bem como as Voyager 1 e 2, atravessaram esta regi\u00e3o, mas sem c\u00e2maras a bordo. A sonda New Horizons da NASA enviou as primeiras imagens da orla mais externa do Sistema Solar para a Terra: no ver\u00e3o de 2015, de Plut\u00e3o e, tr\u00eas anos e meio depois, do objeto trans-Neptuniano Arrokoth, com aproximadamente 30 km de comprimento. Na altura ainda sem nome oficial, o corpo foi apelidado de Ultima Thule, em refer\u00eancia \u00e0 terra mais a norte do nosso planeta. Afinal de contas, este objeto trans-Neptuniano \u00e9 o corpo mais distante do Sol alguma vez visitado e fotografado por uma aeronave espacial.<\/p>\n\n\n\n<p>A estranha forma de Arrokoth, em especial, provocou sensa\u00e7\u00e3o nos dias que se seguiram ao &#8220;flyby&#8221;. O corpo \u00e9 um bin\u00e1rio de contacto, que se pensa ser o resultado da fus\u00e3o a baixa velocidade de dois corpos separados que se formaram perto um do outro. \u00c9 composto por dois l\u00f3bulos ligados, dos quais o menor \u00e9 ligeiramente achatado, o maior mais acentuadamente, criando a impress\u00e3o de um &#8220;boneco de neve achatado&#8221;. Na sua publica\u00e7\u00e3o atual, os investigadores da China, da Alemanha e dos EUA investigam como esta forma surgiu. Uma forma de l\u00f3bulo duplo tamb\u00e9m \u00e9 conhecida em alguns cometas. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 outro corpo conhecido que seja t\u00e3o achatado quanto Arrokoth. Ser\u00e1 que Arrokoth j\u00e1 era assim quando foi formado? Ou ser\u00e1 que a sua forma se desenvolveu gradualmente?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.nasa.gov\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/colorarrokoth.png\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"717\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/msLeOew-717x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2087\" srcset=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/msLeOew-717x1024.png 717w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/msLeOew-210x300.png 210w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/msLeOew-768x1097.png 768w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/msLeOew.png 985w\" sizes=\"auto, (max-width: 717px) 100vw, 717px\" \/><\/a><figcaption>A forma achatada de Arrokoth s\u00f3 pode ser vista a partir de uma determinada perspetiva. As primeiras imagens enviadas pela New Horizons da NASA dava uma impress\u00e3o de um objeto em forma de &#8220;boneco de neve&#8221; normal. A superf\u00edcie de Arrokoth \u00e9 surpreendentemente lisa e cont\u00e9m apenas poucas crateras.<br>Cr\u00e9dito: NASA\/Laborat\u00f3rio de F\u00edsica Aplicada da Universidade Johns Hopkins\/SwRI <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Gostamos de pensar na Cintura de Kuiper como uma regi\u00e3o onde o tempo parou mais ou menos desde o nascimento do Sistema Solar,&#8221; explica Ladislav Rezac do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, um dos dois primeiros autores da publica\u00e7\u00e3o atual. A mais de quatro mil milh\u00f5es de quil\u00f3metros do Sol, os corpos da Cintura de Kuiper permaneceram gelados e inalterados, assim \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o comum. As imagens de Arrokoth pela New Horizons desafiam esta ideia devido \u00e0 sua superf\u00edcie aparentemente lisa, sem sinais de colis\u00f5es frequentes e devido \u00e0 sua forma peculiar e achatada. Os cientistas assumem que o Sistema Solar foi formado h\u00e1 4,6 mil milh\u00f5es de anos a partir de um disco de poeira: as part\u00edculas desta nebulosa solar agruparam-se em aglomerados cada vez maiores; estes aglomerados colidiram e fundiram-se em corpos ainda maiores. &#8220;Ainda n\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o de como um corpo achatado como Arrokoth poderia emergir deste processo,&#8221; diz Rezac.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra possibilidade seria a de que Arrokoth tinha originalmente uma forma mais comum. Pode ter come\u00e7ado como uma fus\u00e3o entre um corpo esf\u00e9rico e um corpo oblato no momento da sua forma\u00e7\u00e3o e s\u00f3 gradualmente se tornou achatado. Estudos anteriores sugerem que durante a forma\u00e7\u00e3o do Sistema Solar, a regi\u00e3o onde Arrokoth est\u00e1 localizado pode ter sido um ambiente distinto no plano m\u00e9dio, frio e &#8220;\u00e0 sombra da poeira&#8221; da nebulosa solar exterior. As baixas temperaturas permitiram que materiais vol\u00e1teis, como o mon\u00f3xido de carbono e o metano, congelassem em gr\u00e3os de poeira e formassem planetesimais. Quando a poeira nebular se dissipou ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o de Arrokoth, a ilumina\u00e7\u00e3o solar teria aumentado a sua temperatura e, portanto, eliminado rapidamente os vol\u00e1teis condensados. A estranha forma de Arrokoth seria ent\u00e3o um resultado natural devido a uma combina\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel da sua grande obliquidade, pequena excentricidade e varia\u00e7\u00e3o no ritmo de perda de massa com o fluxo solar, resultando na eros\u00e3o quase sim\u00e9trica entre os hemisf\u00e9rios norte e sul.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.mpg.de\/15484760\/original-1601900694.jpg?t=eyJ3aWR0aCI6MTIwMCwib2JqX2lkIjoxNTQ4NDc2MH0=--4f17436da211aee64be0a75127fb9e17e6264999\" alt=\"\"\/><figcaption> Imagens de uma simula\u00e7\u00e3o num\u00e9rica da evolu\u00e7\u00e3o da forma de um an\u00e1logo a Arrokoth devido \u00e0 perda de massa por sublima\u00e7\u00e3o. A forma de baixo \u00e9 um modelo de terreno derivado de observa\u00e7\u00f5es da New Horizons. As cores representam temperaturas m\u00e9dias ao longo de uma \u00fanica \u00f3rbita. O vermelho assinala regi\u00f5es mais quentes e o azul regi\u00f5es mais frias.<br>Cr\u00e9dito: PMO\/MPS <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Para que um corpo mude de forma t\u00e3o extrema quanto Arrokoth, o seu eixo de rota\u00e7\u00e3o precisa de ser orientado de maneira especial&#8221;, explica Rezac. Ao contr\u00e1rio do eixo de rota\u00e7\u00e3o da Terra, o de Arrokoth \u00e9 quase paralelo ao plano orbital. Durante a sua \u00f3rbita de 298 anos em torno do Sol, uma regi\u00e3o polar de Arrokoth fica voltada continuamente para o Sol por quase metade do tempo enquanto a outra fica voltada para o lado oposto. As regi\u00f5es no equador e a latitudes mais baixas s\u00e3o dominadas por varia\u00e7\u00f5es diurnas durante todo o seu ano. &#8220;Isto faz com que os polos aque\u00e7am mais, de modo que os gases escapam da\u00ed de forma mais eficiente, resultando numa forte perda de massa,&#8221; diz Yuhui Zhao do Observat\u00f3rio da Montanha P\u00farpura da Academia Chinesa de Ci\u00eancias. O processo de achatamento provavelmente ocorreu no in\u00edcio da hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o do corpo e prosseguiu rapidamente numa escala de tempo de aproximadamente um a 100 milh\u00f5es de anos durante a presen\u00e7a de gelos supervol\u00e1teis nas camadas pr\u00f3ximas \u00e0 subsuperf\u00edcie. Al\u00e9m disso, os cientistas demonstraram de forma autoconsistente que os torques induzidos desempenhariam um papel desprez\u00edvel na mudan\u00e7a do estado de rota\u00e7\u00e3o do planetesimal durante a fase de perda de massa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O n\u00famero destes corpos em forma de &#8216;boneco de neve achatado&#8217; na Cintura de Kuiper depende principalmente da probabilidade de um corpo ter uma inclina\u00e7\u00e3o no eixo de rota\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de Arrokoth e da quantidade de gelos supervol\u00e1teis presentes perto da sua subsuperf\u00edcie&#8221;, diz Rezac. Existem raz\u00f5es para pensar que mesmo objetos como Arrokoth tiveram quantidades consider\u00e1veis de supervol\u00e1teis que escaparam durante a sua evolu\u00e7\u00e3o inicial. Por exemplo, Plut\u00e3o, devido ao seu tamanho e maior gravidade, ainda hoje ret\u00e9m os gases mon\u00f3xido de carbono, azoto e metano. No caso dos corpos mais pequenos, estes vol\u00e1teis teriam escapado h\u00e1 muito tempo para o espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.mpg.de\/15485371\/flattening-of-a-snowman\" target=\"_blank\">\/\/ Instituto Max Planck (comunicado de imprensa)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41550-020-01218-7\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (Nature Astronomy)<\/a><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Saiba mais:<\/h4>\n\n\n\n<p><strong>Arrokoth (2014 MU69; Ultima Thule):<br><\/strong><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/2014_MU69\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a>&nbsp;<br><a href=\"http:\/\/ssd.jpl.nasa.gov\/sbdb.cgi?sstr=3713011#content\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">NASA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>New Horizons:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/pluto.jhuapl.edu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">P\u00e1gina oficial<\/a><br><a href=\"http:\/\/pluto.jhuapl.edu\/soc\/Arrokoth-Encounter\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Imagens &#8220;raw&#8221;, pelo LORRI do encontro com Arrokoth<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.nasa.gov\/mission_pages\/newhorizons\/main\/#.VIWgrdWsV8E\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">NASA<\/a><br><a href=\"https:\/\/twitter.com\/nasanewhorizons\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Twitter<\/a><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/New_Horizons\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os muitos milh\u00f5es de corpos que povoam a Cintura de Kuiper, para l\u00e1 da \u00f3rbita de Neptuno, ainda n\u00e3o revelaram muitos dos seus segredos. 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