{"id":2074,"date":"2019-05-17T07:44:11","date_gmt":"2019-05-17T07:44:11","guid":{"rendered":"http:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/?p=2074"},"modified":"2019-05-17T07:44:13","modified_gmt":"2019-05-17T07:44:13","slug":"primavera-em-plutao-uma-analise-ao-longo-de-30-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/2019\/05\/17\/primavera-em-plutao-uma-analise-ao-longo-de-30-anos\/","title":{"rendered":"Primavera em Plut\u00e3o: uma an\u00e1lise ao longo de 30 anos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre que passa em frente de uma estrela, Plut\u00e3o fornece informa\u00e7\u00f5es preciosas sobre a sua atmosfera, preciosas porque as oculta\u00e7\u00f5es de Plut\u00e3o s\u00e3o raras. A investiga\u00e7\u00e3o realizada por investigadores do Observat\u00f3rio de Paris, ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, foi publicada dia 10 de maio de 2019 na revista Astronomy &amp; Astrophysics. Interpretada \u00e0 luz dos dados recolhidos em 2015 pela sonda New Horizons, permite refinar os par\u00e2metros f\u00edsicos essenciais para uma melhor compreens\u00e3o do clima de Plut\u00e3o e para prever futuras oculta\u00e7\u00f5es do planeta an\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal como a Terra, a atmosfera de Plut\u00e3o \u00e9 essencialmente composta por azoto, mas a compara\u00e7\u00e3o para a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Situado para l\u00e1 de Neptuno, Plut\u00e3o leva 248 anos a completar uma \u00f3rbita em torno do Sol. Durante o ano plutoniano, a sua dist\u00e2ncia ao Sol varia muito, de 30 a 50 UA, levando a ciclos sazonais extremos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com temperaturas superficiais extremamente baixas, inferiores a -230\u00ba C, h\u00e1 um equil\u00edbrio s\u00f3lido-gasoso, onde uma t\u00e9nue atmosfera de essencialmente azoto coexiste com dep\u00f3sitos de gelo \u00e0 superf\u00edcie. Atualmente, estima-se que o vapor de azoto esteja estabilizado a uma press\u00e3o de mais ou menos 1,3 pascal (ao passo que na Terra a press\u00e3o \u00e9 de cerca de 100.000 Pa).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.obspm.fr\/IMG\/jpg\/pluton2015.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"456\" src=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/pluton2015-88de8-f531b-8535e.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2075\" srcset=\"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/pluton2015-88de8-f531b-8535e.jpg 450w, https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/pluton2015-88de8-f531b-8535e-296x300.jpg 296w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption>Vista global, colorida, de Plut\u00e3o, obtida a 450.000 km de dist\u00e2ncia. Cr\u00e9dito: NASA\/JHUAPL-SwRI<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dada a obliquidade (o \u00e2ngulo formado entre o eixo polar e o plano orbital) do planeta an\u00e3o, 120 graus, os polos de Plut\u00e3o enfrentam sucessivamente um dia permanente durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, e depois uma noite permanente. Isto leva a um ciclo complexo de redistribui\u00e7\u00e3o dos seus materiais vol\u00e1teis como azoto, metano e mon\u00f3xido de carbono. Assim sendo, Plut\u00e3o teve o seu equin\u00f3cio em 1988, antes de passar pelo peri\u00e9lio (a 30 UA) em 1989. Desde ent\u00e3o, o planeta an\u00e3o afastou-se continuamente do Sol at\u00e9 alcan\u00e7ar 32 UA em 2016, o que representa uma perda de 25% da sua insola\u00e7\u00e3o m\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ingenuamente, era esperada uma queda acentuada na press\u00e3o atmosf\u00e9rica. De facto, o equil\u00edbrio gasoso-s\u00f3lido do azoto imp\u00f5e que para cada grau Kelvin perdido \u00e0 superf\u00edcie, a press\u00e3o diminua por um fator de dois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ocorre o exato oposto. A prova \u00e9 fornecida pelo artigo publicado na Astronomy &amp; Astrophysics de dia 10 de maio, que analisa uma d\u00fazia de oculta\u00e7\u00f5es estelares observadas ao longo de quase 30 anos, durante a primavera no hemisf\u00e9rio norte de Plut\u00e3o: a press\u00e3o atmosf\u00e9rica aumentou por um fator de tr\u00eas entre 1988 e 2016.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.obspm.fr\/IMG\/jpg\/graph-5.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.obspm.fr\/IMG\/jpg\/graph-5.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption> Press\u00e3o atmosf\u00e9rica \u00e0 superf\u00edcie de Plut\u00e3o como fun\u00e7\u00e3o do tempo, entre 1988 e 2238.<br>Cr\u00e9dito: Meza et al.; Astronomy &amp; Astrophysics <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este cen\u00e1rio paradoxal j\u00e1 era considerado pelos modelos clim\u00e1ticos globais de Plut\u00e3o desde a d\u00e9cada de 1990, mas sem certeza, apenas como um cen\u00e1rio entre muitos outros. V\u00e1rios par\u00e2metros importantes do modelo permaneciam por restringir pelas observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas observa\u00e7\u00f5es das oculta\u00e7\u00f5es estelares a partir da Terra, juntamente com dados recolhidos durante a passagem da New Horizons da NASA por Plut\u00e3o em julho de 2015, permitem agora descrever um cen\u00e1rio muito mais preciso.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.nasa.gov\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/nh-apluto-mountains-plains-9-17-15_0.png\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.obspm.fr\/local\/cache-vignettes\/L500xH322\/montagnepluton-3a86c-0157d.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption>Um olhar mais de perto: apenas 15 minutos depois da sua maior aproxima\u00e7\u00e3o de passado dia 14 de julho de 2015, a sonda New Horizons olhou para tr\u00e1s em dire\u00e7\u00e3o ao Sol e capturou esta imagem do aproximar do p\u00f4r-do-Sol perto de montanhas e plan\u00edc\u00edes geladas que se estendem para l\u00e1 do horizonte de Plut\u00e3o. A \u00e1rea lisa da plan\u00edcie Sputnik Planum (direita) \u00e9 flanqueada a oeste (esquerda) por montanhas com at\u00e9 3500 metros de altura, incluindo o informalmente denominado Norgay Montes no pano da frente e Hillary Montes na linha do horizonte. Para a direita, a este de Sputnik, terreno mais rugoso \u00e9 cortado por glaciares. A retroilumina\u00e7\u00e3o destaca mais de uma d\u00fazia de camadas na t\u00e9nue mas larga atmosfera de Plut\u00e3o. A imagem foi obtida a uma dist\u00e2ncia de 18.000 km de Plut\u00e3o; a cena mede 380 km de largura.<br>Cr\u00e9dito: NASA\/JHUAPL\/SwRI <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A New Horizons mapeou a distribui\u00e7\u00e3o e a topografia do gelo \u00e0 superf\u00edcie do planeta an\u00e3o, revelando uma vasta depress\u00e3o com mais de 1000 km de di\u00e2metro e 4 km de profundidade, localizada perto do equador entre as latitudes 25\u00ba S e 50\u00ba N, de nome Sputnik Planitia. Esta depress\u00e3o ret\u00e9m uma parte do azoto dispon\u00edvel na atmosfera, formando um glaciar gigantesco que \u00e9 o verdadeiro &#8220;cora\u00e7\u00e3o&#8221; do clima do planeta an\u00e3o, pois regula a circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica por meio da sublima\u00e7\u00e3o do azoto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em adi\u00e7\u00e3o, as oculta\u00e7\u00f5es estelares permitem restringir a in\u00e9rcia t\u00e9rmica do subsolo no modelo, explicando a mudan\u00e7a de fase de trinta anos entre a transi\u00e7\u00e3o para o peri\u00e9lio (1989) e o aumento da press\u00e3o ainda observado hoje em dia. O subsolo armazenou o calor e est\u00e1 a restaur\u00e1-lo gradualmente. As oculta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m restringem a fra\u00e7\u00e3o de energia solar devolvida ao espa\u00e7o (albedo de Bond) do azoto gelado e a sua emissividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, estas observa\u00e7\u00f5es eliminam a possibilidade da presen\u00e7a de um reservat\u00f3rio de azoto no hemisf\u00e9rio sul (atualmente em noite permanente), que produziria um m\u00e1ximo de press\u00e3o muito mais cedo do que o observado (curva magenta na figura).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este estudo \u00e9 uma boa ilustra\u00e7\u00e3o da complementaridade entre as observa\u00e7\u00f5es terrestres e espaciais. Sem a passagem da New Horizons, a distribui\u00e7\u00e3o do gelo e a topografia permaneceriam desconhecidas, e sem a monitoriza\u00e7\u00e3o a longo prazo da atmosfera, os modelos clim\u00e1ticos de Plut\u00e3o n\u00e3o poderiam ser restringidos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Previs\u00e3o de oculta\u00e7\u00f5es futuras<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, as oculta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m fornecem 19 posi\u00e7\u00f5es de Plut\u00e3o entre 1988 e 2016, com uma precis\u00e3o inigual\u00e1vel de alguns milissegundos de arco no c\u00e9u. Tal precis\u00e3o, poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 segunda vers\u00e3o de dados da miss\u00e3o europeia Gaia, permite que os autores calculem efem\u00e9rides de Plut\u00e3o com a mesma precis\u00e3o para a pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, ser\u00e1 poss\u00edvel observar outras oculta\u00e7\u00f5es por Plut\u00e3o e monitorizar o seu clima&#8230; os modelos te\u00f3ricos indicam que a atmosfera de Plut\u00e3o est\u00e1 atualmente perto da sua expans\u00e3o m\u00e1xima. As observa\u00e7\u00f5es futuras podem confirmar ou refutar esta previs\u00e3o. Ser\u00e1 que vamos em breve ver o come\u00e7o desse lento decl\u00ednio, que dever\u00e1 reduzir por um fator de 20 a press\u00e3o atmosf\u00e9rica de Plut\u00e3o no final, e cobrir a sua superf\u00edcie com uma fina camada de &#8220;geada branca&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.obspm.fr\/spring-on-pluto-an-analysis.html?lang=fr\" target=\"_blank\">\/\/ Observat\u00f3rio de Paris (comunicado de imprensa)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.iastro.pt\/news\/news.html?ID=106#\" target=\"_blank\">\/\/ Instituto de Astrof\u00edsica e Ci\u00eancias do Espa\u00e7o (comunicado de imprensa)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/doi.org\/10.1051\/0004-6361\/201834281\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (Astronomy &amp; Astrophysics)<\/a><br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/1903.02315\" target=\"_blank\">\/\/ Artigo cient\u00edfico (arXiv.org)<\/a><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Saiba mais<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Not\u00edcias relacionadas:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/phys.org\/news\/2019-05-pluto-analysis-years.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">PHYSORG<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.sulinformacao.pt\/2019\/05\/cientistas-portugueses-ajudam-a-conhecer-o-inverno-de-plutao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Sul Informa\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Plut\u00e3o:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/solarsystem.nasa.gov\/planets\/pluto\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">NASA<\/a><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Pluto\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>New Horizons:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/pluto.jhuapl.edu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">P\u00e1gina oficial<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.nasa.gov\/mission_pages\/newhorizons\/main\/#.VIWgrdWsV8E\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">NASA<\/a><br><a href=\"https:\/\/twitter.com\/nasanewhorizons\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Twitter<\/a><br><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/New_Horizons\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikipedia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre que passa em frente de uma estrela, Plut\u00e3o fornece informa\u00e7\u00f5es preciosas sobre a sua atmosfera, preciosas porque as oculta\u00e7\u00f5es de Plut\u00e3o s\u00e3o raras. 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