{"id":1394,"date":"2004-12-14T17:43:58","date_gmt":"2004-12-14T17:43:58","guid":{"rendered":"http:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/?p=1394"},"modified":"2017-02-20T17:46:30","modified_gmt":"2017-02-20T17:46:30","slug":"possiveis-cenarios-de-vida-em-marte-e-na-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ccvalg.pt\/astronomia\/wordpress\/2004\/12\/14\/possiveis-cenarios-de-vida-em-marte-e-na-terra\/","title":{"rendered":"Poss\u00edveis cen\u00e1rios de vida em Marte e na Terra"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Os \u00faltimos estudos na mat\u00e9ria cada vez mais apontam para que Marte tenha sido outrora um mundo quente e rico em \u00e1gua. E de um planeta com estas condi\u00e7\u00f5es vem a hip\u00f3tese de ter sido habit\u00e1vel no seu passado &#8211; e talvez at\u00e9 o seja ainda hoje.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tal como v\u00e1rias sondas circulam o planeta, os rovers g\u00e9meos da NASA &#8211; Spirit e Opportunity &#8211; t\u00eam levado a cabo estudos terrestres exaustivos durante quase um ano.<\/p>\n<p align=\"justify\">O robot Opportunity em Meridiani Planum, por exemplo, encontrou sinais importantes de que \u00e1gua veio e desapareceu repetidamente nesse local. Enquanto essa \u00e1gua intermitente em Meridiani Planum pensa-se que seja altamente \u00e1cida ou salgada, a sua hip\u00f3tese de albergar vida durante algum per\u00edodo de tempo n\u00e3o pode ser exclu\u00edda.<\/p>\n<p align=\"justify\">O que os cientistas agora observam \u00e9 um Marte diferente nos seus primeiros milhares de milh\u00f5es de anos de hist\u00f3ria geol\u00f3gica do que antigamente se pensava &#8211; e possivelmente uma morada extraterrestre para a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Chuvas: durante anos at\u00e9 d\u00e9cadas<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Marte \u00e9 um mundo complexo e fascinante.<\/p>\n<p align=\"justify\">Isto foi deixado claramente evidente durante a segunda confer\u00eancia sobre o &#8220;Passado de Marte: Evolu\u00e7\u00e3o Geol\u00f3gica, Hidrol\u00f3gica e Clim\u00e1tica e as Implica\u00e7\u00f5es para a Vida&#8221;, que teve lugar entre 11 e 15 de Outubro em Jackson Hole, Wyoming. Quase 140 cientistas planet\u00e1rios e terrestres participaram no semin\u00e1rio liderado pelo Instituto Planet\u00e1rio e Lunar (LPI) da NASA, e pelo Laborat\u00f3rio do Programa Marciano da NASA.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um dos mais significativos achados anunciados neste encontro foi que Marte sofreu muitas das suas mudan\u00e7as mais importantes muito mais cedo na sua hist\u00f3ria que antes se pensava,&#8221; disse Steve Clifford, cientista planet\u00e1rio no LPI. Isto inclui a forma\u00e7\u00e3o do n\u00facleo, o desenvolvimento da dicotomia crustal, um r\u00e1pido decl\u00ednio do fluxo de calor geot\u00e9rmico, e a perda de um campo magn\u00e9tico planet\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Surpreendentemente, todos estes eventos parecem ocorrer entre os primeiros 50 a 100 milh\u00f5es de anos da sua exist\u00eancia, explicou Clifford. Uma descoberta relacionada \u00e9 o potencial papel que grandes impactos tiveram durante este mesmo per\u00edodo, disse, sobre os quais um registo topogr\u00e1fico est\u00e1 preservado nas terras-altas crateradas e que foi agora tamb\u00e9m detectado por baixo das plan\u00edcies norte do planeta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Clifford acrescenta que simula\u00e7\u00f5es indicam que os maiores destes impactos podem ter apagado uma frac\u00e7\u00e3o significativa da antiga atmosfera marciana. Os impactos que produziram crateras superiores a 100 quil\u00f3metros em di\u00e2metro podem ter afectado o clima numa escala regional e global, criando condi\u00e7\u00f5es ambientais mut\u00e1veis capazes de albergar chuvas constantes que poderiam chegar a durar entre anos e d\u00e9cadas.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Um mundo rico em \u00e1gua<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Parece agora haver provas ineg\u00e1veis que mostram que o passado de Marte era rico em \u00e1gua &#8211; e que pode ter tido enormes massas de \u00e1gua e gelo que variavam entre grandes mares e um oceano primordial, talvez cobrindo um ter\u00e7o do planeta,&#8221; disse Clifford.<\/p>\n<p align=\"justify\">As provas recolhidas que suportam esta teoria variam desde observa\u00e7\u00f5es orbitais de terrenos com camadas extensas, com poss\u00edveis costas circundantes, passando pelas plan\u00edcies norte, at\u00e9 a investiga\u00e7\u00f5es locais da mineralogia e registos sediment\u00e1rios recentemente descobertos pelo rover Opportunity em Meridiani Planum.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;As implica\u00e7\u00f5es destes achados est\u00e3o apenas agora a come\u00e7ar a ser absorvidas pela comunidade cient\u00edfica, e mesmo assim j\u00e1 revolucionaram substancialmente o nosso conhecimento da evolu\u00e7\u00e3o passada do planeta. Permanecer\u00e3o com certeza um foco de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que a intensidade da explora\u00e7\u00e3o de Marte aumenta durante a pr\u00f3xima d\u00e9cada,&#8221; observa Clifford.<\/p>\n<p align=\"justify\">Agora adicione-se descobertas recentes acerca da origem e alcance da vida no nosso planeta.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;A vida \u00e9 um processo incr\u00edvel e os dados que sabemos sobre onde a vida pode existir &#8211; no planeta Terra &#8211; est\u00e1 sempre a expandir e encontra-se muito para l\u00e1 do que anteriormente hav\u00edamos pensado,&#8221; sugeriu Lynn Rothschild, uma cientista do ramo de Ci\u00eancia e Tecnologia do Ecossistema do Centro de Pesquisa Ames da NASA, em Moffett Field, Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Existe uma diferen\u00e7a de perspectiva entre cientistas planet\u00e1rios e bi\u00f3logos, no que toca ao local onde a vida pode prosperar. Os organismos n\u00e3o procuram uma m\u00e9dia global. Como um micr\u00f3bio, proporcionem-me 100 microlitros de \u00e1gua l\u00edquida e fico feliz. Em qualquer caso, certamente n\u00e3o preciso de um oceano! Por isso, \u00e9 melhor pensarmos em microambiente,&#8221; aconselhou Rothschild.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>\u00c1gua e energia para os microrganismos<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Dada a riqueza dos dados dos rovers marcianos, a probabilidade da vida ter existido em Marte &#8211; talvez at\u00e9 ainda exista &#8211; \u00e9 vista como mais prov\u00e1vel de acordo com Carrine Blank, Professora Assistente de Geobiologia Molecular no Departamento de Ci\u00eancias Planet\u00e1rias e Terrestres da Universidade de Washington, em St. Louis, Missouri.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os resultados dos robots indicam a exist\u00eancia de grandes corpos de \u00e1gua l\u00edquida em Marte e de flu\u00eddos transportando gradientes de redox (oxida\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o) perto da superf\u00edcie. &#8220;A vida n\u00e3o requer apenas \u00e1gua l\u00edquida, tamb\u00e9m precisa de uma fonte de energia metab\u00f3lica,&#8221; acrescentou, &#8220;e os gradientes redox s\u00e3o excelentes fontes de energia para os microrganismos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Blank disse que na sua mente a realmente importante quest\u00e3o \u00e9 durante quanto tempo esta \u00e1gua l\u00edquida e energia estiveram presentes na superf\u00edcie de Marte. Quer tenha sido por muito ou pouco tempo, \u00e9 este o ponto fulcral da linha da vida nas areias de Marte.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Se foi apenas durante um breve per\u00edodo na hist\u00f3ria geol\u00f3gica de Marte, ent\u00e3o talvez a probabilidade de exist\u00eancia de vida seja baixa,&#8221; disse Blank. &#8220;Se, por outro lado, esteve presente durante um grande per\u00edodo de tempo, ent\u00e3o a probabilidade de vida \u00e0 superf\u00edcie torna-se muito maior.&#8221;<\/p>\n<p align=\"justify\">O que \u00e9 preciso agora, \u00e9 mais informa\u00e7\u00e3o acerca da extens\u00e3o dos dep\u00f3sitos sedimentares em Marte e a consequente identifica\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es das idades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a de \u00e1gua l\u00edquida \u00e0 superf\u00edcie.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Micr\u00f3bios, viajantes interplanet\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A ideia de que as sementes da vida viajam entre localidades celestes \u00e9 conhecida por pansp\u00e9rmia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Poder\u00e1 Marte ser um dom\u00ednio para micr\u00f3bios atirados para o espa\u00e7o devido a impactos de aster\u00f3ides e cometas, bem como um planeta onde um &#8220;segundo G\u00e9nesis&#8221; possa ter ocorrido? Ainda mais, se for este o caso, poder\u00e3o a vida externa e biologia &#8220;made in&#8221; Marte co-existirem?<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Absolutamente,&#8221; aconselhou Blank, adicionando ainda outro cen\u00e1rio: que a vida foi criada em Marte, transferida para a Terra e depois extinta em Marte.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;No presente, n\u00e3o existem provas geol\u00f3gicas que apontem para que a origem da vida tenha acontecido na Terra. Por isso teoriza-se que a origem poder\u00e1 ter ocorrido noutro lugar, por exemplo em Marte, e que depois tenha sido transferida para a Terra,&#8221; sugere Blank. Alternativamente, a vida pode ter sido criada na Terra &#8212; mas n\u00e3o deixou nem uma prova dado que n\u00e3o temos nenhumas rochas do primeiro milhar de milh\u00e3o de anos da hist\u00f3ria da Terra &#8212; e depois ter sido transferida para Marte.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Se a vida foi transferida entre os planetas, ent\u00e3o a vida marciana, passada e\/ou presente, poder\u00e1 ter caracter\u00edsticas similares \u00e0 vida terrestre passada,&#8221; disse Blank. &#8220;Por outro lado, se tiver ocorrido um segundo G\u00e9nesis, ent\u00e3o a vida em Marte dever\u00e1 ser muito diferente da da Terra, e poder\u00e1 de facto ser muito dif\u00edcil de detectar ou at\u00e9 reconhecer como vida &#8211; particularmente se est\u00e1 extincta!&#8221;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Os ramos mais profundos da \u00e1rvore da vida<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Entretanto, de volta \u00e0 Terra, Blank disse que mais pesquisa \u00e9 necess\u00e1ria para melhor entender se a transfer\u00eancia de vida interplanet\u00e1ria ter\u00e1 sido poss\u00edvel. Em particular, trabalho adicional sobre os hiperterm\u00f3filos &#8212; micr\u00f3bios que vivem a temperaturas muito altas e que formam os mais profundos ramos da \u00e1rvore da vida &#8212; \u00e9 necess\u00e1rio, dado que foram dos primeiros habitantes da Terra e por isso os candidatos principais \u00e0 transfer\u00eancia dentro do sistema solar por impacto, disse.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Sabemos muito pouco acerca da origem da vida na Terra &#8211; como aconteceu, em que tipo de ambiente prosperou, e quanto tempo passou entre a cria\u00e7\u00e3o e o \u00faltimo antepassado comum tal como o conhecemos &#8211; um organismo muito complexo, muito parecido \u00e0 vida moderna,&#8221; argumenta Blank.<\/p>\n<p align=\"justify\">Novamente para Marte, Blank tamb\u00e9m disse que s\u00e3o desconhecidas quais as condi\u00e7\u00f5es do passado Marte semelhantes \u00e0s de uma jovem Terra quando a vida originou.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Se forem similares, ent\u00e3o talvez um &#8216;segundo g\u00e9nesis&#8217; tenha sido poss\u00edvel em Marte. Mesmo se as condi\u00e7\u00f5es forem diferentes em Marte, poderia na mesma ter havido um segundo g\u00e9nesis apenas com um resultado muito diferente do que ocorreu na Terra,&#8221; comentou Blank. &#8220;Se estas diferentes formas de vida foram propagadas pelo sistema solar, ent\u00e3o at\u00e9 talvez possam ter co-existido se pudessem ter aprendido a depender umas das outras. Se, por outro lado, se encontrassem em competi\u00e7\u00e3o directa pelos recursos, ent\u00e3o seria de esperar que uma &#8216;vencesse&#8217; e sobrevivesse, e a outra se tornasse extinta&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Guerra dos mundos?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Jack Farmer, um astrobi\u00f3logo da Universidade Estatal do Arizona em Tempe, tamb\u00e9m suporta a hip\u00f3tese da vida ter existido em Marte. Faz parte da equipa cient\u00edfica dos rovers da NASA.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Temos agora o que eu considero como provas irrefut\u00e1veis da presen\u00e7a de \u00e1gua em Marte e isto abriu uma discuss\u00e3o focada e s\u00e9ria acerca dos ambientes habit\u00e1veis de Marte durante o in\u00edcio da hist\u00f3ria do planeta. Esta descoberta marca o primeiro passo na implementa\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia para a exopaleontologia marciana,&#8221; disse Farmer.<\/p>\n<p align=\"justify\">Farmer esclarece que a ideia de Marte ter sido o anfitri\u00e3o para o lan\u00e7amento de micr\u00f3bios para a Terra, tal como a hip\u00f3tese de ser um planeta onde um segundo g\u00e9nesis teve lugar &#8220;s\u00e3o ambas candidatas para uma origem da vida em Marte e merecem uma considera\u00e7\u00e3o s\u00e9ria.&#8221;<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Tamb\u00e9m penso que a ideia de uma &#8216;Guerra dos Mundos&#8217; em Marte entre formas de vida que l\u00e1 originaram e daquelas que vieram da Terra \u00e9 uma possibilidade s\u00e9ria,&#8221; acrescenta Farmer. E esta hip\u00f3tese, continua, levanta algumas quest\u00f5es centrais: Quem ganharia? Haver\u00e1 possibilidade para uma co-exist\u00eancia competitiva entre as formas de vida que originaram em bases diferentes?<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;As boas not\u00edcias \u00e9 que estas teorias alternativas parecem ser test\u00e1veis num contexto de miss\u00f5es futuras. Mas esta discuss\u00e3o tamb\u00e9m aponta, de novo, para a import\u00e2ncia da protec\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria e da potencial contamina\u00e7\u00e3o levantada por uma mis\u00e3o de recolha de amostras marcianas,&#8221; concluiu Farmer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os \u00faltimos estudos na mat\u00e9ria cada vez mais apontam para que Marte tenha sido outrora um mundo quente e rico em \u00e1gua. E de um planeta com estas condi\u00e7\u00f5es vem a hip\u00f3tese de ter sido habit\u00e1vel no seu passado &#8211; e talvez at\u00e9 o seja ainda hoje. 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