De acordo com um novo estudo da Universidade de Cornell, a misteriosa explosão de Tunguska, em 1908, que nivelou 2150 quilómetros quadrados de floresta siberiana, foi quase de certeza provocada pela entrada de um cometa na nossa atmosfera. A conclusão é suportada por uma fonte improvável: a pluma de escape de um vaivém espacial da NASA lançado um século depois.
A pesquisa, aceite para publicação (25 de Junho de 2009) pela revista Geophysical Research Letters, publicada pela União Geofísica Americana, liga os dois eventos pelo que se seguiu um dia depois: nuvens brilhantes, visíveis à noite, ou nuvens noctilucentes, constituídas por partículas de gelo que apenas se formam a grande altitude e com temperaturas extremamente frias.
"É quase como montar o mistério de um assassinato com 100 anos," disse Michael Kelley, professor de Engenharia da Universidade de Cornell, que liderou a equipa de pesquisa. "As evidências são muito fortes, de que a Terra foi atingida por um cometa em 1908." As especulações anteriores variavam entre cometas e meteoros.
Os investigadores afirmam que a massiva quantidade de vapor de água libertado para a atmosfera pelo núcleo gelado do cometa foi apanhado por gigantescos turbilhões com uma energia tremenda, num processo denominado turbulência bi-dimensional, que explica a formação de nuvens noctilucentes um dia depois a milhares de quilómetros de distância.
As nuvens noctilucentes são as nuvens mais altas do planeta Terra, formando-se naturalmente na mesosfera a quase 90 km por cima das regiões polares durante os meses de Verão, quando a mesosfera tem uma temperatura de aproximadamente -117 graus Celsius.
A pluma de escape do vaivém espacial, dizem os investigadores, parece-se com a acção do cometa.
Um único voo do vaivém espacial injecta cerca de 300 toneladas de vapor de água na termosfera da Terra, e sabe-se que as partículas de água viajam até às regiões do Ártico e da Antártida, onde formam as nuvens após se estabelecerem na mesosfera.
Kelley e seus colaboradores viram o fenómeno de nuvens noctilucentes dias após o vaivém espacial Endeavour (STS-118) ter sido lançado a 8 de Agosto de 2007. Formações de nuvens similares já foram observadas após os lançamentos em 1997 e em 2003.
A seguir à explosão de 1908, conhecido como o Evento de Tunguska, os céus nocturnos brilharam por vários dias pela Europa, particularmente pela Grã-Bretanha -- a quase 5000 km de distância.
Kelley disse que ficou intrigado pelos testemunhos históricos do que se passou depois, e concluíu que os céus brilhantes deveriam ter sido o resultado de nuvens noctilucentes. O cometa deverá ter começado a fragmentar-se praticamente à mesma altitude da libertação da pluma de escape do vaivém espacial após o lançamento. Em ambos os casos, o vapor de água foi injectado na atmosfera.
Os cientistas tentaram determinar como é que este vapor de água viajou para tão longe sem se espalhar e difundir, como a física convencional prevê.
"Existe um certo tipo de transporte deste material durante dezenas de milhares de quilómetros num curto espaço de tempo, e não há nenhum modelo que o preveja," afirma Kelley. "É uma física totalmente nova e inesperada."
Esta "nova" física, dizem os cientistas, está relacionada com turbilhões que giram na direcção contrária à dos ponteiros do relógio e com muita energia. Uma vez que o vapor de água foi capturado nestes redemoínhos, a água viajou muito depressa -- quase 100 metros por segundo.
Os cientistas há muito que tentam estudar a estrutura do vento nestas regiões superiores da atmosfera, o que é difícil de fazer com meios tradicionais como foguetões, balões ou satélites, explica Charlie Seyler, professor de engenharia eléctrica e electrónica da Universidade de Cornell, e co-autor do artigo.
"As nossas observações mostram que o conhecimento actual da região da termosfera e da mesosfera-inferior é muito pobre," disse Seyler. A termosfera é a camada da atmosfera por cima da mesosfera.
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Notícias relacionadas:
Geophysical Research Letter (requer subscrição)
Universe Today
PHYSORG.com
Evento de Tunguska:
Wikipedia
Amostra de um programa do Canal História sobre Tunguska (YouTube)
Universidade de Bolonha
Nuvens noctilucentes:
Wikipedia |