Um estudo recente publicado por um dos líderes mundiais da matéria diz que muitos dos efeitos das mudanças climáticas são já irreversíveis. Susan Solomon, especialista do Painel Internacional de Mudanças Climáticas e cientista da NOAA (National Oceanic and Atmopheric Association), afirma que mesmo que as emissões de carbono terminassem, as temperaturas globais permaneceriam altas até pelo menos ao ano 3000.
"As pessoas imaginam que se parássemos com as emissões de dióxido de carbono nós voltaríamos ao normal em 100, 200 anos; isso não é verdade," afirmou numa teleconferência.
Ela define "irreversível" como uma mudança que permaneceria durante 1000 anos mesmo se os humanos parassem imediatamente de libertar carbono para a atmosfera. "As mudanças climáticas são lentas, mas imparáveis", afirma. Interpela aos líderes para agir ainda mais rapidamente, para que a situação a longo-prazo não se torne ainda pior.
Alan Robock, do Centro de Previsão Ambiental da Universidade de Rutgers, concorda com a conclusão do relatório. "Não é como a poluição do ar onde ao desligarmos a chaminé de uma fábrica, em poucos dias o ar está limpo," (Robock não fez parte da equipa de pesquisa de Solomon). "Isto significa que temos que nos esforçar ainda mais para tentar reduzir as emissões," afirma.
O relatório de Solomon "é importante, não alarmista, é muito importante para os debates actuais sobre as políticas climatéricas," acrescenta Jonathan Overpeck, cientista climático da Universidade do Arizona. As temperaturas subiram por todo o globo e foram observadas mudanças nos padrões de precipitação pelo Mediterrâneo, África do Sul e Sudoeste da América do Norte.
O clima mais quente está também a provocar a expansão do oceano, e de acordo com os investigadores, espera-se que aumente com o derreter dos gelos na Gronelândia e na Antártica. "Acho que a grande escala de tempo da persistência destes efeitos não foi bem percebida," constata Solomon.
O aquecimento global tem sido travado pelo oceano, afirma Solomon, porque a água necessita de uma grande parte dessa energia para aquecer. Mas esse bom efeito não só irá diminuir com o tempo, como o oceano irá ajudar a manter o planeta quente libertando o seu calor acumulado para o ar.
As mudanças climáticas têm sido conduzidas por gases na atmosfera que capturam o calor da radiação solar e aumentam a temperatura do planeta - o denominado "efeito de estufa." O dióxido de carbono tem sido o gás mais importante porque permanece no ar durante centenas de anos. Enquanto outros gases são responsáveis por quase metade do aquecimento, degradam-se mais rapidamente, diz Solomon.
Antes da Revolução Industrial o ar continha aproximadamente 280 partes por milhão de dióxido de carbono. Esse valor subiu até aos 385 ppm hoje em dia, e os políticos e cientistas têm debatido até que nível pode ser estabilizado.
O estudo de Solomon conclui que se o CO2 subir até às 450-600 partes por milhão, os resultados daí decorrentes incluiriam diminuições persistentes de chuvas em estações-secas comparáveis à que aconteceu na década de 30 na América do Norte, em zonas do Sul da Europa, Norte de África, Sudoeste da América do Norte, África do Sul e Oeste da Austrália.
Gerald Meehl, cientista do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, disse: "A grande preocupação é que quanto mais tempo esperarmos para agir, maior o nível de mudança climática irreversível a que teremos de nos adaptar." Meehl não faz parte da equipa de pesquisa de Solomon. Apesar dos cientistas estarem cientes dos aspectos a longo-prazo da mudança climática, o novo estudo realça e providencia detalhes mais específicos, disse Kevin Trenberth, líder da análise climática no Centro.
"Este aspecto é pouco apreciado pelos políticos e pelo público em geral e é bastante real," disse Treenberth, que também não fez parte do grupo de investigação. "As mudanças nas temperaturas e no nível do mar são, no mínimo, subvalorizadas e bastante conservativas, especialmente para o nível do mar," afirma. Embora concorde que as mudanças no nível da precipitação mencionadas no artigo já se estejam a fazer sentir, Trenberth discorda com alguns detalhes dessa parte da investigação.
"Mesmo assim, teria que haver mudanças na neve (para chuva), nos recursos aquíferos e consequências irreversíveis, se bem que não da maneira como os autores descrevem" salienta. "A relevância política é clara: Precisamos de agir mais depressa... porque quando o público e os políticos finalmente se aperceberem que as mudanças já chegaram, vai ser tarde demais para se fazer algo. De facto, como os autores escrevem, já é tarde demais para amenizar alguns destes efeitos."
Os co-autores do estudo foram Gian-Kaspar Plattner e Reto Knutti do Instituto Federal Suiço de Tecnologia em Zurique e Pierre Friedlingstein do Instituto Nacional de Pesquisa Científica, Gif sur Yvette, França.
A investigação foi suportada pelo Gabinete de Ciência do Departamento de Energia do Governo dos EUA e encontra-se detalhada no artigo on-line da revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, de 28 de Janeiro (edição impressa a 10 de Fevereiro).
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Notícias relacionadas:
Artigo científico (PNAS, em formato PDF)
Science
New Scientist
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PHYSORG.com
Nature
BBC News
AFP
Associated Press
NPR
Aquecimento global:
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Wikipedia - 2
National Geographic
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