A nova definição de planeta que relega Plutão para o estatuto de "planeta anão" está a receber intenso criticismo dos astrónomos. Parece provável que a definição não irá ser amplamente adoptada pelos astrónomos no seu uso diário, embora seja esta a posição oficial da União Astronómica Internacional.
Na Quinta-feira passada, astrónomos numa assembleia-geral da UAI em Praga aprovaram uma resolução que dizia que o Sistema Solar só tem oito planetas, excluindo Plutão. Plutão é, ao invés, considerado um "planeta anão".
Mas a nova definição provocou uma acesa discussão. Alan Stern, que chefia a missão New Horizons da NASA, com destino Plutão, e trabalha no Instituto de Pesquisa do Sudoeste em Boulder, Colorado, EUA, diz que a nova definição é "terrível".
"A definição introduzida é fundamentalmente defeituosa," disse. "Como um cientista, sinto-me envergonhado."
Ele diz que apenas quatro dos oito planetas mencionados na definição da UAI na realidade encaixam nos critérios da definição - a Terra, Marte, Júpiter e Neptuno, não.
Isto é devido à definição estipular que para ser um planeta, um objecto tem que ter "limpo" a sua vizinhança em torno da sua órbita. Mas os arredores orbitais da Terra estão cheios de milhares de asteróides, diz Stern.
E Marte, Júpiter e Neptuno têm os chamados asteróides "Troianos" a partilharem as suas órbitas. "Este é um mau critério para a definição de planeta," diz.
Afirma que a nova definição foi empurrada por pessoas infelizes por haver um grande número de planetas (uma proposta anterior, que foi abandonada depois de grande criticismo na assembleia, permitiria potencialmente haver centenas de planetas).
"São as mesmas pessoas que dizem coisas do género, 'Os míudos na escola vão ter que memorizar demasiados nomes.' Limitamos o número de estrelas porque as crianças têm que pensar em demasiados nomes? Ou os rios da Terra? É de loucos," disse Stern.
Stern é também crítico do facto de apenas os astrónomos presentes poderem ter votado, que ocorreu no fim da assembleia de duas semanas. Não foi permitido o voto por e-mail na decisão - foi um levantar de mãos - e isso significa que menos de 5% dos quase 9,000 membros da UAI realmente votaram.
"Iremos ver uma luta cerrada nas próximas semanas," afirma. "Sei que existe uma petição entre os cientistas planetários que está a receber muito suporte."
Em qualquer caso, diz, os astrónomos não são obrigados a usar a nova definição, dado que a UAI não tem o poder para forçar o seu uso. "Penso que não vai ser amplamente seguida," diz.
David Weintraub, autor do livro "É Plutão Um Planeta?" e cientista na Universidade de Vanderbilt em Nashville, Tennessee, EUA, diz que Plutão é ainda um planeta - mesmo até com a nova definição.
"A meu ver, 'anão' é um adjectivo e 'planeta' é um substantivo," afirma. "Penso que a UAI tem a ideia de ter redefinido Plutão como não sendo planeta. Mas de facto definiram-no como planeta - só que uma categoria particular de planeta."
Os astrónomos que propuseram a nova definição respondem que o termo "planeta anão" é para ser visto como um único conceito. E outros apontam que os "planetas menores" - asteróides e outros corpos pequenos - não são considerados planetas.
Mas concorda com Stern, no facto da estipulação de um planeta ter que ter limpo a sua vizinhança ser dúbia. Uma melhor definição seria que um planeta é um objecto que orbita uma estrela, é grande o suficiente para ser esférico, mas não grande o suficiente para ser uma anã castanha - uma estrela "falhada" que tem entre 13 e 75 vezes a massa de Júpiter - ou uma estrela, afirma.
"Todos concordam com estes critérios," diz. "A questão é, podemos concordar com critérios adicionais para refinar ainda mais a definição? Eu penso que a resposta é não."
"As pessoas com quem falei dizem, 'Isto é de loucos e não concordamos,'" adiciona. "Não estou convencido que as pessoas que estavam na assembleia representavam bem a muito maior comunidade."
Mas nem todos estão descontentes com a nova decisão. Richard Conn Henry da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, Maryland, EUA, diz que está contente com o resultado. "Na minha opinião, tomaram a decisão acertada," disse. " Eu reconheço um planeta quando o vejo e só existem oito no Sistema Solar."
Ele afirma que não faz sentido chamar Plutão de planeta porque é apenas um dos muitos objectos na cintura de Kuiper para lá de Neptuno.
NOTA: A questão da vizinhança está ainda por definir concretamente numa futura assembleia geral da UAI. Mas presume-se que esta "vizinhança limpa" terá que ser de objectos com semelhante tamanho em relação ao planeta. No caso de Plutão e Caronte, ambos partilham um centro de massa fora de qualquer dos dois objectos, por isso Caronte não é bem um satélite de Plutão. Como Caronte tem mais de metade do tamanho de Plutão, segundo a nova definição, então Plutão não limpou a sua vizinhança de objectos. Já sem falar dos inúmeros que orbitam na cintura de Kuiper. Sendo assim, Plutão não é considerado planeta.
Em relação aos quatro planetas que segundo Stern falham os critérios da nova definição, temos que ver que os asteróides vizinhos da Terra ou os Troianos são muito, muito mais pequenos que os seus planetas (o maior asteróide perto da Terra, que se conheça, tem cerca de 32 km).
Links:
Núcleo de Astronomia do Centro Ciência Viva do Algarve:
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União Astronómica Internacional:
26.ª Assembleia Geral da UAI
Página oficial
Centro de Planetas Menores
Redefinição de planeta:
Wikipedia
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BBC News
The Space Review
Plutão:
SEDS
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