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OS TÚMULOS DO NEOLÍTICO, O SOL E AS ESTRELAS
6 de Abril de 2004
 

O Sol e as estrelas podem ter servido como referências críticas para a assustadoramente diversa variedade de construções que serviam para guardar os mortos, ou para outros templos religiosos.

A orientação de milhares de monumentos funerários Neolíticos erguidos pela Europa e África por volta de 10,000 A.C. foram aparentemente erguidos na direcção do nascer-do-Sol, assegurando a importância do Sol nas várias culturas de três países, dois continentes e das ilhas Mediterrânicas, de acordo com um investigador da história da Astronomia.


Este túmulo Neolítico, como milhares de outros espalhados por Espanha,
Portugal, França e Norte de África, parecem ter sido construídos na direcção
do nascer-do-Sol, o que pode ter servido como um símbolo de vida para além da morte.
Crédito: M. Hoskin

"Penso que todas estas culturas viam no nascer-do-Sol um símbolo de esperança", disse Michael Hoskin. "As estruturas destes túmulos variam imensamente de região para região, mas os padrões da orientação são muitos similares".

Hoskin, um historiador de Astronomia no Churchill College em Cambridge, Inglaterra, também descobriu que os santuários da Idade do Bronze duma ilha espanhola podem ter servido como centros medicinais, embora a falta de registos escritos da região façam desta hipótese uma impossível de concretizar.

"Que eram santuários, quer sejam para a cura ou outra coisa qualquer, é claro, devido às estátuas lá encontradas e também devido à enorme quantidade de fragmentos de ossos e dos animais sacrificados que estão aí espalhados até hoje", disse. Os santuários, acrescenta, podem ter sido construídos com a constelação Centauro em mente. Na mitologia Grega, o centauro Chiron ensinou o deus da medicina.

Hoskin apresentou as suas descobertas a 2 de Abril no Encontro Nacional de Astronomia da Sociedade Astronómica Real da Universidade Aberta de Inglaterra.

O elevado número de túmulos Neolíticos com as entradas apontadas ao Sol sugerem, se não mais, que o Sol desempenhava um papel importante que coincidia com a morte da pessoa, dizem os pesquisadores.

"Em estudos como este, em que temos um grande número de túmulos, procuramos tendências," disse E.C. Krupp, arqueoastrónomo e director do Observatório Griffith em Los Angeles, Califórnia, adicionando que tais espectaculares estruturas podem ser identificadas. "Por isso, não são apenas os mortos parte da história, mas o Sol também."

O período Neolítico, ou Última Idade da Pedra, data de há 5,000-10,000 anos atrás, quando os seres humanos começaram a cultivar e a entrar numa existência mais sedentária e menos nómada. Os túmulos comunais dessa era variam em construção, alguns usando grandes rochas enquanto outros pequenas, e ainda outros contendo passagens profundas. Mas todos, por necessidade, têm uma entrada por onde corpos adicionais podem ser depositados.

Hoskin passou 12 anos catalogando pessoalmente as posições de 2,000 monumentos funerários Neolíticos, e pesquisando descrições documentadas de outros 1,000, por França, Portugal, Espanha e Norte de África. As entradas, na sua quase totalidade, disse, parecem ter sido construídas para apontar ao nascer ou pôr-do-Sol em certo ponto do ano.

No Alentejo (região central de Portugal), por exemplo, cada um dos 177 túmulos medidos por Hoskin apontam para o nascer-do-Sol, regularmente durante o Outono e princípios de Inverno, com uma descida bruta no solstício de Inverno.

"Todas as provas são consistentes com o facto de estarem alinhadas com a posição do nascer-do-Sol aquando do início da sua construção, que é exactamente o que sabemos que era comum acontecer com as igrejas Cristãs", disse Hoskin. "As igrejas orientadas para o nascer-do-Sol actuam como um símbolo de Cristo a renascer dos mortos.. sem dúvida que o povo Neolítico viu o nascer-do-Sol como um símbolo de esperança e de vida para além da morte."

A única excepção foram alguns túmulos à volta da pequena cidade francesa de Fontvieille, onde os monumentos foram construídos na direcção do pôr-do-Sol, ao contrário de todos os outros, acrescenta Hoskin.

Num estudo separado, Hoskin acredita que encontrou algumas provas que sugerem que os santuários construídos na ilha espanhola de Menorca por volta de 1,000 A.C. eram centros de cura, como também de símbologismo religioso.


Um dos cerca de 30 santuários da Idade do Bronze da ilha espanhola de
Menorca estudados por Michael Hoskin. Construídos na direcção do Sul
por volta do ano 1,000 A.C., podem ter sido uma visão da constelação
do Centauro e podem ter sido usados como centros de recuperação ou cura.
Crédito: M. Hoskin
(clique na imagem para ver versão maior)

O seu estudo de cerca de 30 'taulas', santuários construídos durante a Idade do Bronze Menorca, veio ao encontro dos mesmos serem consistemente construídos com uma clara visão para Sul, alguns com vista para o oceano, enquanto outros edificados em planícias abertas. Por volta do ano 1,000 A.C., os idólatras de Menorca teriam sido capazes de observar as constelações do Cruzeiro do Sul e Centauro no céu nocturno, e se tiveram uma mitologia associada a Centauro similar à dos Gregos é possível que os santuários fossem vistos como um lugar para procurar cura.

"Nós sabemos que as constelações vistas por vários povos do Médio Oriente e Mediterrâneo têm muito em comum: houve quase um juntar de ideias com variantes locais," disse Hoskin. "Não sabemos muito sobre como os Menorcas viam as constelações, dado que não eram um povo letrado."


A constelação do Centauro no céu Sul. Contém estrelas muito brilhantes.
Crédito: Akira Fujii
(clique na imagem para ver versão maior)

Mas a teoria do centro curativo explicaria não só a orientação dos santuários, mas também a presença de cascos de bronze nas ruínas, como também uma estátua egípcia com a inscrição hieroglífica: 'Eu sou o deus da medicina.'

Hoskin disse que nada de notável no céu pode ser visto da entrada destes santuários hoje em dia devido à precessão da Terra no seu eixo.

Mesmo com um registo escrito, disse Krupp, seria difícil dizer com certeza qual o propósito da existência destes santuários de Menorca.

"Implica uma certa organização social no empenho da construção destes monumentos, bem como num sistema de observação celeste", disse Krupp. "Mas quando encontramos um alinhamento astronómico, mesmo que nos sintamos extremamente confiantes acerca do seu intento, o seu verdadeiro signifcado pode nem ter envolvido tais factos.

Links:

Notícias relacionadas:
http://www.newscientist.com/news/news.jsp?id=ns99994849

Centauro:
http://www.ga-esec-pinheiro-rosa.rcts.pt/constelacoes/centauro.htm

Cruzeiro do Sul:
http://www.ga-esec-pinheiro-rosa.rcts.pt/constelacoes/cruzeiro_do_sul.htm

 
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